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março 27, 2003

a arma dos pobres

Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-84), a Líbia (1986), El Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)


a citação provém da carta que o escritor Português de nacionalidade moçambicana, Mia Couto, enviou ao 43º presidente da nação mais bestial (não gíria mas sim sentido literal) deste nosso mundo.

retirei a citação da reprodução da carta no jornal Público de hoje, 27/03/2003, mas como os jornais decidiram que os bits têm de ser tão perenes quanto o papel, não vale a pena ligar o hipertexto à edição, pois dentro de sete dias o respectivo url deixará de ser acessível. seja. fica a fonte citada.

em alternativa, e porque a carta merece ficar para sempre e porque não a encontrei ainda publicada na web, dei-me ao trabalho de a copiar na íntegra. está aqui.

a carta de Mia motiva diversas reflexões.

deixando de lado as óbvias, devido à sua natureza, pertinência e alcance (a guerra), acabei o almoço a pensar que a teoria de Álvaro de Campos, no seu heterónimo Fernando Pessoa ;-), é absolutamente indestrutível: a pátria é a língua.

ao ler a carta de Mia Couto senti que ele fala em meu nome. é como se ele fosse meu conterrâneo. o facto de ele o afirmar repetidamente na carta que é moçambicano não me ficou: como ele falava em meu nome na minha língua, era irrelevante para mim o facto de EU ter nascido em Portugal. só no final, perante o asterisco escritor moçambicano (necessário num jornal lido também pelas as massas porventura menos atentas), é que me dei conta de que ele é moçambicano.

penso que isto prova que a pátria é a língua. eu pertenço ao mesmo lugar que Mia Couto. essa coisa das nações tem a vewr com geografia, história, política e economia, razões para arrumar as pessoas em caixas identificadas por uma bandeira e um hino. mas essas classificações não fecham os povos nas gavetas. através dos tempos os media -- a internet como expoente -- têm-se encarregue da heróica, porém incompleta, missão de relativizar a
a geografia, atirando-a para a poeira.

"o factor-nações não é importante quando estão em causa problemas de pátrias" (e podeis citar-me).

como é o caso.

outra absoluta (ex)citação da mesma carta, no caso uma re-citação -- e esta sim, já vos permite tirar conclusões sobre o que eu penso da guerra e de W. -- é estupenda e até cruel para o estulto 43º presidente:

O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos.

Que absurdo, sr. Presidente! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso Governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados.
[...]
O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso Governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."


cruel porque o diminui.

estupenda porque, como as palavras de Mia Couto, estas palavras do bispo americano Robert Bowman (Porque somos odiados?) são armas de um poder muito para além da tecno-parafernália com que os militares dão azo ao seu excesso de testosterona (que podia ser bem melhor aplicada nas suas próprias esposas, btw).

expressão da capacidade de pensar, as palavras são (volto a Mia) as armas "de construção maciça" que restam aos pobres.

estas armas doem na carne de uma pátria inteira. ao contrário do número de mortos em combate e do rol de batalhas ganhas, doem através da História.

(reflexão final: curiosas, as voltas da História... "a palavra é uma arma" é uma frase (também) recuperada dos românticos combates da "Esquerda" contra o avanço do "Capitalismo" no século passado. pensamos que vivemos num mundo mais evoluído porque é tudo mais rápido e temos a ilusão de que a rapidez conduz à eficácia, ao melhoramento dos Humanos. talvez não seja bem assim que as coisas se passam.)

até já.

Posted by pTd at 03:32 PM

O captain! my captain!

We dont read and write poetry because its cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. Medicine, law, business these are all noble pursuits necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, and love; these are what we stay alive for.

são 3 da manhã e Mr Keating, aka Robin Williams, faz-me saltar do sofá para leiturascom.net.

leia o verso do uncle Walt e se se lembrar que filme estou a ver, que me fez abandonar por 10 minutos o sofá para fazer algo mais interessante,

[uma das raras provas de utilidade das televisões em geral e da TVI em particular, btw...]

avise-nos aí nos comentários abaixo.

está aberto um blog de citações.

as citações que muitas vezes se tornam excitações.

já agora: como o captain my captain tão bem ilustrou, a poesia serve fundamentalmente para engatar.

«não menosprezeis o engate: sem ele, não estaríeis vivos». podeis citar-me.

até já.

Posted by pTd at 03:11 AM