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fevereiro 29, 2004
O próximo "boom" chama-se Orkut
É o expoente do social networking, juntando três gerações de notáveis da net. Pertence ao Google e tem uma áurea de mistério. Só lá entramos por convite, o que nos faz imaginar sermos membros distintos de um clube de acesso restrito.
Entre os seus membros mais proeminentes estão três gerações de gurus da Internet: a da primeira vaga, simbolizada por Nicholas Negroponte e outro "dinossauro", John Perry Barlow; a da segunda vaga com nomes famosos como Mitch Kapor e Tim O'Reilly; e da terceira, a da blogosfera, com Joi Ito à cabeça.
O que é?
Mais um dos meus conteúdos Premium acessível por apenas 32 cêntimos. Saiba mais.
Posted by pTd at 12:30 AM | Comments (13)
fevereiro 25, 2004
Les Gray, lead singer of 1970s pop band Mud, has died from a heart attack in Portugal
Portugal é notícia em todo o mundo. Yeah, right: por causa do futebol e do próximo Europeu. Hoje o Google só vomitou esta notícia do desgraçado do Les Gray. Em 20 notícias, 18 eram Europeu + Cristiano Ronaldo, uma de Gray (que fica cá enterrado, glória suprema ao país!) e outra de... ciclismo, Volta ao Algarve. Vá lá vá lá, não foi chito.
aqui.
Posted by pTd at 05:27 AM
fevereiro 24, 2004
O Homem
Eu não tinha mais de seis anos. Era um Verão qualquer de meados de 60. Tínhamos uma casa na Praia de Faro, emprestada. A casa do Sr. Freitas — acabam de me recordar as minhas queridas irmãs. Havia um gira-discos a pilhas e candeeiros a petróleo. Eu vinha da água roxo, depois de horas incansáveis a mergulhar das pontes, com a Irmã Mais Nova. Eu não sabia nadar bem, mas usava braçadeiras insufláveis e com elas aventurava-me fosse para onde fosse, mesmo sem pé. À noite, depois do jantar, ouvíamos música. Otis Redding. Charles Aznavour. Coisas que os adolescentes da altura (os meus irmãos e primos) ouviam. E também Adriano Correia de Oliveira. E Zeca Afonso.
É a minha primeira recordação de José Afonso. Uns anos mais tarde, mas não muitos, lembro-me de estarmos na sala de estar e alguem toca à campaínha (coisa comum, vivíamos numa pensão). Subitamente o meu irmão corre a tirar do prato do gira-discos o 33 rotações que estávamos a ouvir:

Recordo-me lindamente da capa. Que não da música: eu teria uns 8, 9 anos. Perante o sururu, devo ter feito uma pergunta de puto e deram-me uma resposta básica, para puto entender: havia coisas que não se podiam ouvir, eram proibidas pela polícia, pela PIDE, e aquela era uma delas. Os porquês eram demasiado complexos para mim, muito puto. Mas aquilo encaixava em duas coisas: eu não gostar de polícias, porque o polícia de giro parava sempre os nossos jogos de bola na rua, e já ter ouvido nas conversas da tasca (tínhamos uma "casa de pasto" abaixo da pensão, é hoje um bar na famosa Rua do Crime, em Faro, que na realidade, irónica, se chama Rua do Prior) que havia um viajante (pensão e tasca eram frequentados sobretudo pelos caixeiros viajantes) que era informador da PIDE, fosse lá isso o que fosse, e o meu pai tinha ido responder qualquer coisa à PIDE uma vez. O meu pai era um homem absolutamente de Direita e cumpridor, embora houvesse coisas do Salazar que ele não gostava muito: não imagino porque terá lá ido.
A minha Irmã Mais Velha foi aluna do José Afonso em Faro, onde ele deu aulas. O meu Irmão também. Na então chamada Escola Industrial e Comercial de Faro. Ela recorda-se de um «mau professor, que faltava muito e era despistado. Não seguia o programa, falava de outras coisas». Certo e sabido era que por alturas de Abril ele ia faltar, pelo menos um mês. Os alunos sabiam porquê, recorda essa minha Irmã: «com o aproximar do 1º de Maio, a PIDE ia lá e engaioláva-o durante um mês».
O meu Irmão não partilha da mesma opinião dele como professor, talvez por ser já na altura mais politizado e, digamos, avançado que ela. Quando deixámos a Pensão Mirense (onde nasci) que foi a seguir pensão de putas e mais tarde o primeiro Lar de Estudantes da Associação da Universidade do Algarve (está à venda, decrépita, fica por cima do bar Ovelha Negra), surripiei a colecção "Vida Mundial", onde ele se informava na altura. (Ainda tenho a capa do Homem na Lua.) Ontem o meu Irmão recordava, com alguma emoção, como o professor «usava os sapatos desatados». E «faltava para ir fazer as gravações em França».
Eu conheci José Afonso em circunstâncias muito diferentes. Muitos discos, prisões, revoluções depois. Em 1985/86. Conheci-o em circunstâncias no mínimo estranhas, num apartamento em Faro, na presença do então director do Tal & Qual, José Rocha Vieira, e do meu camarada jornalista Francisco Rosa, que tinha uma Dyane onde o Guilherme Silva Pereira fazia o Gagarine (sair por uma janela, passar pelo tecto e entrar pela janela oposta — em andamento). O Guilherme foi depois capa do Tal & Qual por causa duma cena qualquer. Era (acho que ainda é) uma figura controversa...
Zélia acompanhava José Afonso. Era um homem doente. Ajudávamo-lo a andar pegando-lhe por debaixo dos sovacos. Tinha um olhar absolutamente sereno. Conversava com brilho. Em voz pausada, por causa do esforço. Mas com inteligência e perspicácia.
Dias depois visitei-o na casa de Azeitão. Conversas soltas. Eu era personagem secundária no cenário. Lembro-me das estantes vergadas com o peso de centenas de livros. Conheci a Joana Afonso, filha dele (que entrevistei mais tarde para um pasquim chamado "O Rebelde" que foi percursor das revistas para adolescentes).
Lembro-me de um homem admiravelmente consciente da proximidade da morte e ainda assim um homem sereno, tranquilo. Forte. Estar junto de José Afonso era estar mergulhado numa paz activa, estimulante. Quando falava era um sábio. É essa a imagem que retenho dele: uma pessoa sábia, consciente das realidades do mundo, nada interessado em falar dele ou da doença, mas sim da actualidade. Com notável perspicácia, algum humor e um belo poder de antecipação das tendências sociais e políticas.
O José Afonso que eu conheci não é o Zeca Afonso comunista, não é o Zeca Afonso perigoso revolucionário, não é o Zeca Afonso maldito, aparentemente malquisto e incómodo, até hoje, à Esquerda e aos partidos que ajudou dando a cara por eles, mesmo que não lhes pertencesse (o José Afonso nunca pertenceu a nada senão à cultura portuguesa e ao povo português). Era uma pessoa que dava gosto conhecer, com quem dava gosto estar e conversar. Um pessoa de bom fundo e carácter vincado com opiniões sábias e nada extremas, bem pelo contrário.
Este "meu" José Afonso não tem também nada a ver com a "malta de Esquerda" desses tempos que, em período final do cavaquismo, desistiu de lutar pelos seus ideiais. O capital é mais forte, desisto: onde está o bom emprego, onde posso ir beber uns copos? O "meu" José Afonso, não fora a doença, teria continuado a lutar pelos seus ideais noutro palco. Um palco qualquer. Um palco onde ele fosse preciso. Há menos de um ano tive o grato prazer de conhecer alguns dos que não desistiram. Continuam a luta nos foruns prisões, associações, escolas, etc a defender os direitos individuais, a sensibilizar e educar as pessoas nos seus direitos e deveres. Quando conheci o António Pedro Dores lembrei-me do José Afonso e de pensar: é a mesma força. Há gente que não desiste de ser melhor e fazer os outros melhores. Ainda bem.
Posted by pTd at 05:03 PM | Comments (10)
fevereiro 23, 2004
O Músico
O músico que José Afonso foi é um tema que me deixa perplexo. Se eu disser Zeca Afonso!, toda a gente vai lembrar o Grândola Vila Morena. Alguns são capazes de se lembrar do Maio Maduro Maio. E mais alguns dos albuns dele dos anos em que era mais mediático (no sentido de aparecer nos media).
Mas isso é redutor. Desculpem: é de bimbo, mesmo. A obra musical e poética de José Afonso pode ser dividida em três períodos. O período do meio é de longe o menos importante da obra -- apesar de ser infelizmente o que perdurou na memória colectiva de um país distraído.

Os primeiros albuns dele, ainda no tempo da ditadura, são obras primas. Ouvir, como eu estou a ouvir neste momento, De Capa e Batina, é mergulhar na História de Portugal dos anos 60. Nessa altura Portugal era um país rural e atrasado, sem classes médias, mergulhado na obscuridão por via do isolamento a que Salazar o conduziu (orgulhosamente sós -- era, imaginem, o lema da altura). Os poemas de Zeca Afonso, sobretudo cantados por ele, reflectem a tristeza profunda e as angústias das pessoas.
Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
do outro lado do mar
...
A lua que é viajante
é que nos pode informar
O soldadinho já volta
Do outro lado do mar
O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar
Vem numa caixa de pinho
Desata vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar
(in Menina dos Olhos Tristes, letra de Reinaldo Ferreira e música de José Afonso)
Cantado por ele, como um fado coimbrão, é de arrepiar. Espelha num instante -- como nenhum livro sobre a guerra colonial é capaz de fazer -- a crua realidade das meninas, senhoras e senhores desses anos em que as batalhas de Portugal para tentar manter as colónias esvaziavam o país quer de dinheiro quer de gente. Eram os homens novos que partiam para a guerra, deixando cá as namoradas, noivas, mães, pais numa permanente angústia. Milhares regressaram em caixões. Não havia família na "Metrópole" (Portugal continental) que não tivesse alguem no "Ultramar", (as colónias), a dar o corpo às balas. Poucas famílias portuguesas terão passado os anos 60 sem a dor que é um jovem adulto morrer numa guerra.
Só quem viveu esses tempos sabe do que falo. As gerações mais novas NÃO precisam de passar por isso ou sequer de recordar. Mas ouvir e ler José Afonso é historicamente importante. É um pedaço da nossa História. É importante para a cultura portuguesa, mesmo que o Ministério da Cultura não pense assim. É só aí que quero chegar.
A revolução do 25 de Abril abriu um período extraordinário na criatividade e sobretudo no entusiasmo dos meios culturais. Tem hoje a Direita da blogosfera toda a razão quando se queixa do excesso cultural esquerdista da época. Visto daqui, de agora, é compreensível: era uma moda. É como hoje ir "às Docas". É in (na altura não se usava a expressão). Ou como hoje blogar.
José Afonso participou activamente nesse período. Incansável, percorreu milhares de quilómetros pelo país fora com a guitarra às costas. O objectivo dele não era ganhar dinheiro com a música ou sequer ser famoso (no sentido big-brotheresco, ou warholiano que o termo hoje tem). O objectivo dele era levar às pessoas uma mensagem de esperança, de vida, de entusiasmo, porque os maus tempos (do fascismo) tinham acabado. Estávamos a construir um país novo (este, em que hoje vivemos) e as pessoas eram analfabetas: 37 por cento da população portuguesa não sabia ler e escrever. Através da música, Zeca chegava a elas. Passava a mensagem. Acelerava o processo de aculturação dessas massas ignorantes porque ignoradas.
A importância dele para a cultrura, nesses anos, foi menor. No sentido estrito apenas: é claro que foi grande, sobretudo por ele ter funcionado como um catalizador, uma autêntica pilha energética, que arrastava outros músicos e criadores criando um ambiente quase feérico na cultura musical portuguesa. De um sentido só, o revolucionário. Claro. Era a época.
Mais tarde, já cansado, já a revolução a esmorecer, já o país a solidificar, já a entrada para a então denomidada CEE (hoje União Europeia) às mãos de Mário Soares, já a democracia estabelecida e o capital a regressar, José Afonso voltou a ser um poeta do povo.
No seu último algum de originais (Galinhas do Mato, 1985) está longe do fado de Coimbra e da canção revolucionária. É porém ainda um baladeiro que reflecte o estado de alma de um país. Embora um tanto desfasado: o país era, por altura de 80, já o embrião do país de hoje, emocionalmente dividido ao meio. Zeca espelha um dos lados, o lado desiludido. O lado da Esquerda, a Esquerda desse tempo (hoje há uma nova Esquerda que já não vive de desilusões como está bem patente no Bloco de Esquerda e nos blogs como o Barnabé e o Blogue de Esquerda).
Ficam as dúvidas (ainda hoje as tenho, eu...) Como em Década de Salomé:
Estamos na Europa.
Civilizados
já cá faltava
uma maison
Pour la Patrie
plo Volkswagen
acabou-se a forragem
viva o Patron!
[...]
Aos grandes Super-Mercados
chega a cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se
enlatados
lavados com "champon"
Acertou na mouche. Dos átrios das igrejas, dos salões de festas mal amplificados que lhes arruinaram gargantas (a ele e aos outros andarilhos de Adriano Correia de Oliveira a Sérgio Godinho, de José Mário Branco a Janita Salomé, de Vitorino a Júlio Pereira, de Né Ladeiras a Luís Represas, então um jovem muito jovem) das sessões de esclarecimento, dos comícios, da festa do Avante, a cultura foi passando para os super-mercados. Onde ainda hoje está. A massificação cultural, a amálgama, tem virtudes (que ele não cantou, embora eu suspeite que as detectou mas considerou menores face aos defeitos) e tem defeitos.
Na faixa Galinhas do Mato, do album homónimo, Zeca regressa à "sua" África e experimenta sonoridades novas. Seriam o seu caminho futuro não fosse a doença tê-lo levado dois anos volvidos. Aliás, esse album foi produto de uma gigantesca prova de amor prestada pelos camaradas de ofício: José Afonso, já doente, mal podia mexer-se e quase não cantava. Foram Júlio Pereira e José Mário Branco as traves mestras do album.
Pessoalmente considero históricos e fundamentais os primeiros albuns, até 1974, e os últimos dois albuns. Galinhas do Mato é uma obra experimental de um músico já acima dos sessenta, um recomeço, uma viragem, uma abertura, uma interrogação. Depois de ter sido um dos grandes cronistas do Portugal da segunda metade do século XX, foi isso que ele nos deixou antes de partir. Pela minha parte, agradeço.
Posted by pTd at 05:53 PM | Comments (1)
É um dia como outro qualquer
Apesar de fazer anos que morreu Zeca Afonso (02/08/1929 - 23/02/1987) é um dia como outro qualquer. Abriu-se um espaço na web para interligar os textos, opiniões, ou trabalhos multimedia que mencionem essa figura tão esquecida da cultura portuguesa e a quem o Ministério da Cultura (este, os anteriores) tem votado ao abandono.
Um dia hei-de tentar perceber porque é que nos livros de Português do actual ensino se publicam (justamente) textos de autores cuja projecção ou capacidade de intervenção na cultura, sabedoria ou mero imaginário portugueses é muito inferior ao autor precioso, exemplar até, que é José Afonso. Nem uma linha sua é publicada (injustamente) nos livros que vão meter alguma coisa sobre o país, seus hábitos, costumes e cultura, nas doces cabecitas em formação dos estudantes de todos os ciclos.
Até lá, hoje é, para mim e mais algumas pessoas, o Dia Z. Foi obra do destino e das minhas irmãs e sobrinha mais antiga, que o Dia Z -- cuja ideia remonta a Novembro -- venha coincidir com a efeméride. Não era minha intenção, mas eu não domino vontades. Nem a minha...
Não importa. Hoje -- e ao longo desta semana -- vou aqui lembrar-me volta e meia do Zeca. O Zeca Afonso político, um incómodo para o país político que dura até aos dias de hoje e que considero um ultraje tanto a ele próprio como à família e à política portuguesa. O Zeca Afonso músico e compositor e letrista e poeta, que nos deixou um dos legados culturais mais importantes do século XX e cujos textos são essenciais para se perceber que raio de país foi Portugal nos tempos a seguir à última revolução. E o José Afonso pessoa, com quem tive o privilégio de lidar apesar de o ter conhecido já na fase derradeira da doença. Um ser humano notável, de eleição.
Posted by pTd at 12:08 AM | Comments (6)
fevereiro 20, 2004
Verisign foi o vilão da net em 2003!
A indústria britânica nomeou o colosso mundial dos domínios, a Verisign, como a empresa vilã do ano por causa do célebre asterisco no TLD .com. Não podia estar mais de acordo.
http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/3506157.stm
Posted by pTd at 08:47 PM
Don't take it for granted...
Esta é a semana do Ponto Media, pelos vistos :) A partir dele acabo de ler um interessante artigo, When Journalists Blog, Editors Get Nervous, que nos traça o panorama do blogging de jornalistas nos EUA. Sinteticamente: os empregadores desconfiam que os seus empregados possam a) descobrir nos blogs alguma forma de independência face aos patrões, b) prejudicar a imagem dos seus orgãos, c) comprometer de alguma forma o relacionamento com as fontes.
Por cá a coisa ainda não tem aquele peso, mas virá a ter. O blog permite ao jornalista "escapar" às relações tradicionais -- com os patrões e com o público. É todo um passado que fica para trás. Hoje tive uma prova indirecta disso e foi aliás enquanto cogitava no que se passou que tropecei no texto do Granado (o sindication é mesmo bestial) e achei engraçado, pois as mudanças dão-se em áreas diferentes mas têm todas um mesmo sentido.
Não acontece assim todos os meses, mas por vezes lá sou convidado para [almoçar | lanchar | beber café] com alguma fonte por causa de um artigo que escrevi no qual tenha sido incorrecto ou... não :) Acontece a muitos outros jornalistas. Tudo bem. O almoço de hoje foi um desses. Com uma pequena mas assinalável diferença. Não foi por um artigo publicado no Expresso, esse bastião (vénia) da Verdade e das Audiências, mas sim por umas palavras escritas... aqui no blog.
Posted by pTd at 08:42 PM
fevereiro 18, 2004
Nem sim nem não, antes pelo contrário
Diz-nos o António Granado que se diz por aí que a blogosfera anda desanimada sendo a culpa dos jornalistas e ele, mordaz, acha que já ouviu este argumento em qualquer lado. Eu também :) Mas não concordo com ele e com José Pacheco Pereira. Nem discordo. Antes pelo contrário. Ora vejamos.
Há algum desânimo. Claro. Como a maré, a opinião pública tem fluxo e refluxo. Há mar e mar, há ir e voltar. O Luís Ene fez um intervalo. Saturação. Natural. Já voltou. E cito este por ser um exemplo próximo, mas há mais nessa situação.
O meio é ácido? Atrai os ácidos? Felizmente! Mas não só, caro JPP. Você é que deve ler sobretudo os ácidos. Descontraia! E convide o Pedro Mexia a fazer o mesmo.
Atenção, a blogosfera de cariz político pode andar saturada. Afinal, a agenda política é como as saias, sobe e desce, mas curta ou comprida é sempre uma saia e dentro de um tempo voltará a descer ou subir. Logo (e pontos para o camarada Granado), não há responsabilidade alguma dos jornalistas. Mesmo os jornalistas não escapam à ondulação.
A composição da blogsfera altera-se de minuto para minuto. É um lugar comum. Mas já a reflexão do lugar comum é bingo (e pontos para JPP): «Os amigos e conhecidos foram sucessivamente sendo substituídos por estranhos, os círculos de influência [...] foram-se desagregando, e isso torna os blogues um meio mais duro
JPP acaba dizendo que não vê razões para acabar com o Abrupto. Também me parece que AG não vai acabar com o dele. Duvido muito que algum dos blogs mais marcantes da actualidade portuguesa desapareça por causa do desânimo. Conheço mesmo um caso de um autor que sofre intensamente por estar afastado do seu blog, por razões de peso (demasiada carga no curso).
Eu continuo a blogar no mesmo ritmo do costume, ou seja, irregularmente. Nunca fui de postar diariamente, mas tive dias de três e quatro posts. Mas de uma coisa tenho a certeza absoluta: a blogosfera, e a blogsphere, são cada vez mais interessantes, em cada dia que passa descubro novos autores que merecem atenção, vou fazendo uma natural selecção porque é impossível ler tudo, óbvio, mas sinto-me cada vez mais vivo nesta esfera de informação e conhecimento. Desânimo não é propriamente a palavra certa para caracterizar o presente, meus caros...
Posted by pTd at 05:18 PM | Comments (4)
Mais dois conteúdos premium
Selos digitais contra o spam e MyDoom: vírus ou guerra? são os meus dois últimos conteúdos Premium, já disponíveis na loja de conteúdos. A micro-preços!
Posted by pTd at 04:56 PM
fevereiro 16, 2004
A fuga da Microsoft (act)
Uma pequena porção do código-fonte de sistemas operativos obsoletos da Microsoft, Windows 2000 e NT4, foi roubada suspeita-se que de um parceiro e a cobertura mediática indiciou uma calamidade. Os utilizadores ficaram preocupados. A rapaziada do open source deleitou-se, ehehehe!
Mas pergunto-me: e consequências?
Estamos em perigo, nós, os utilizadores de Windows? NÃO.
A Microsoft está em perigo? NÃO. Está embaraçada, como eu estaria.
Vêm aí uma vaga de novos vírus e ataques, agora que o código-fonte anda à solta? DEFINITIVAMENTE NÃO. Os crackers são gente preguiçosa por definição e, desconfio, natureza. É simples descobrir um bug na Bugtrack e armar um pedaço de código malicioso para o explorar. É DIFÍCIL e complexo analisar pormenorizadamente alguns milhões de linhas de código para descobrir um bug... Não me lixem.
O que a fuga trouxe de novo foi: levanta questões sobre a segurança em monocultura informática; vai dar resposta, ainda que parcial, à quente questão o open source é mais seguro ou o código fechado é que é mais seguro; deixa a indústria do software com a consciência aguda de que todo o futuro desenvolvimento só é possível depois de digeridos os efeitos desta fuga.
Ah, e revelou que a santa ignorância dos utilizadores é O MAIOR PERIGO PARA A SEGURANÇA INFORMÁTICA. Bill Thompson defende na sua coluna na BBC (e eu subscrevo) que para utilizar um computador o utente devia passar primeiro por uma aprendizagem. Se até para conduzir é preciso conhecer um conjunto mínimo de regras... Porque insiste o público na ignorância informática generalizada? Não falamos de ensinar toda a gente a programar, ou a conhecer as minudências do interior de um microprocessador. Bastava que soubessem o equivalente a mudar um pneu, saber os principais (nem é preciso todos...) sinais de trânsito, que não se ultrapassa num traço contínuo. Coisas poucas, coisas simples, coisas fáceis de apreender. E que fariam mais pela segurança (que está intimamente associada à informação) que todas as firewalls e antivírus do mundo juntas.
As pessoas que conheço que sabem de informática o equivalente ao que sabem de automóveis e condução não usam disso: a informação (mínima, insisto) de que dispõe sobre o funcionamento do sistema garantem-lhes um uso correcto, como tal protegido contra 99% dos problemas (sobra o 1% aqui meramente simbólico do risco de acidente viário, como informático). Não apenas protegido activamente (o seu sistema): também contribuem para a saúde do ecosistema global, pois não são agentes à força da disseminação das viroses e outros problemas (spam, etc).
A Microsoft apresenta riscos e problemas? Certo. Nenhum é mais grave que a falta de cultura informática generalizada. Nenhum? Nem todos juntos o são!
Portanto, rapaziada do open source, calem a matraca, pensem a sério no caso e comecem mas é a espalhar a vacina da informação. Inoculem os amigos, colegas, família. Nesta altura (e apenas nesta altura) o que é mau para a Microsoft é mau para o ecosistema. Essa é, por muito que eu não goste, a verdade dos factos.
A fuga veio demonstrar -- mais uma vez, mais uma vez... -- que a ignorância é muito pior que os bugs. Os jornalistas, forçados a escrever artigos simplistas para lerdos entenderem, caem com demasiada facilidade no pomposo, no sensacionalista. Acabam por desinformar. Se em vez de lerdos puros o povo tivesse pelo menos a quarta classe da informática, os jornais não poderiam ter manchetes parvas sobre o pedaço de código roubado.
Está a ficar na hora. De termos sessões de alfabetização, políticas para diminuir a ileteracia informática, empresas de formação responsáveis, que cumpram a sua função para além de ensinar a usar os templates do Powerpoint. De os utilizadores se compenetrarem que a rede é, como a rede viária, um local com perigos para os quais é preciso estar minimamente avisado, informado.
Esta é a grande lição a tirar da fuga do código-fonte da Microsoft. A fuga é irrelevante, não passa de um caso de polícia (o FBI). Os seus efeitos não. E não é a Microsoft que está em causa desta vez. É aquilo que no futebol se chama "o sistema".
Actualização: o blog do Jazzy tem aqui um contributo para o assunto.
Posted by pTd at 07:27 PM | Comments (7)
fevereiro 12, 2004
YES!
Ele voltou!
Posted by pTd at 12:27 AM | Comments (3)
fevereiro 11, 2004
Entretanto, nesta aldeola de Blogor...
1. «Sejamos honestos, muita da melhor opinião que se escreve em Portugal hoje em dia encontra-se nos blogs» (Miguel Poiares Maduro no DN, via Causa Nossa)
2. Nas últimas 24 horas foram feitas 352 entradas ou posts, aqui na aldeola do weblog.com.pt. O total de entradas até há um minuto atrás era de 49.754! É MUITO texto! Há algo como 56,8 milhões de caracteres na base de dados das entradas! Corresponde a uma gorda estante de livros, perto de 200 títulos (um romance médio conterá algo como 300.000 caracteres). Mais números aqui.
3. «A blog is a node of a network, just like a cell is a node of the brain. Got the picture?», resposta minha à questão de Joi Ito: «What is a blog? Is this an interesting question? What's the difference between a journal, a diary and a blog?»
(E no entanto ela mexe-se...)
Posted by pTd at 08:22 PM | Comments (1)
Blogor
Graças ao mago Fumosis, descobri com prazer o Arqueoblogo. Ele colocou (o vento lá fora) na coluna das "Jóias", honraria que agradeço mais a mais sabendo que não mereço, mas não trato agora (podia, mas não é isso) de retribuir a gentileza. Trato, sim, de divulgar um seu texto de hoje, dia 11, que achei notável: 175. Os segredos de Blogor.
«Durante os primeiros tempos em Blogor....» Ou, como diz João Carvalho Fernandes, uma «visão peculiar da "blogosfera"».
Posted by pTd at 07:55 PM
Se há um verdadeiro espaço público em Portugal, é nos blogs
«Se há um verdadeiro espaço público em Portugal (no sentido Habermasiano de procura de um espaço de discurso universal, livre e transparente) ele encontra-se, paradoxalmente, no espaço virtual da nossa Internet.» «Sejamos honestos, muita da melhor opinião que se escreve em Portugal hoje em dia encontra-se nos blogs» (Miguel Poiares Maduro no DN, via Causa Nossa)
http://www.dn.lusomundo.net/cronica/mostra_cronica.asp?codCronica=6676&codEdicao=990
Posted by pTd at 05:45 PM | Comments (1)
fevereiro 10, 2004
É curioso: eu não vivo em Portugal... (act.)
Fez-se o balanço da honrosa, utilíssima e mui nobre Semana da Banda Larga, que serviu para que o Bom Povo Português deixasse de estar desatento para essas coisas fundamentais que são andar a conversar no IRC, ver páginas porno e (a minoria esclarecida) ler-escrever blogs e receber 9 e-mails de merda em cada 10 (é a isto que se resume a oferta do mercado português de Internet, deixemo-nos de lérias), e, dizia eu, para que o Povo encaixasse que precisa de dar dinheiro a ganhar a(o) operador(es).
Na cerimónia três dos quatro maiores «foram unânimes na ideia de que a liberalização das telecomunicações em Portugal falhou, sublinhando que o facto de a PT ser proprietária das duas principais redes de comunicação e de acesso a casa dos portugueses (rede de telefone fixo e de Cabo) não permite o normal desenvolvimento do mercado.»
Isto segundo o DN. Que adianta: «Todos frisaram também que este «monopólio» está na origem dos «elevados preços» que a PT cobra aos outros operadores que pretendem oferecer serviços sobre a rede de telefone, nomeadamente no acesso à Internet em banda larga (ADSL)».
Claro que, adianta ainda aquele diário matutino pertença do grupo PT, o presidente da Portugal Telecom reagiu mal às críticas da concorrência (poderia reagir bem?, pergunto eu na minha Santa Ingenuidade).
Cito: «Horta e Costa citou estudos que desmentem a acusação sobre os «elevados preços» cobrados pela PT aos concorrentes pela utilização da rede fixa. Uma tese corroborada por Saraiva Mendes, vice-presidente do regulador do sector (Anacom), ao sublinhar que Portugal está ao nível das melhores práticas europeias. No entanto, este responsável também revelou que a Anacom vai investigar as condições técnicas em que a PT disponibiliza a rede aos operadores concorrentes.».
Finalmente, a nossa nova luminária, o nosso visionário, o nosso Bill Gates conseguiu mesmo esclarecer o Mistério Do Mercado Anémico. Impaciente, «afirmou que os actuais níveis de acesso à Internet explicam-se pelo relativo desinteresse dos portugueses nos acessos de alta velocidade». Jasus! Nunca tal me havia passado pela cabeça! Depois pensei melhor: claro, eu NÃO vivo no coração de Lisboa, a uma pedrada do Ministério da Defesa! Os meus amigos não são Portugueses! Ninguém que eu conheça vive em Portugal! Somos todos de Marte e só ligamos à Internet a 9.600 bps! Aliás, adoramos os esses arcaicos modems, somos todos, eu e os meus amigos e conhecidos, uns saudosistas do tempo das raízes quadradas e dos 1.200 bps!
Mas do alto da sua sapiência e antes de entrar no seu Jaguar de 40.000 contos, H. e C. quis brindar o Bom Povo Português com A Grande Solução Final para que todos possamos ser Ainda Mais clientes do seu grupo: depois de apontar «a baixa penetração dos computadores nos lares nacionais como a principal barreira» e «entre farpas aos concorrentes «que têm optado comodamente por não investir» em infra-estruturas próprias, o líder da PT sugeriu um plano para subsidiar a aquisição de computadores pela população. Propôs que os operadores de acesso à Internet, o Governo e os vendedores comparticipem com quase dois terços do custo final dos aparelhos.».
Rapaziada: afinal o futuro do sector passa pela estratégia usada nos telemóveis, que tão bons resultados deu! (Portugal tem uma das mais altas taxas de penetração de móveis, a par de uma das mais altas taxas de endividamento familiar) Os operadores adiantam generosamente ao Povo o guito para comprar PCs (aposto que será obrigatório serem topo de gama e com Microsoft Inside, ou nada feito), o Povo retribuirá o gesto deixando-se agarrar a um contrato de três anos com o Grande Operador (que fica livre para estabelecer o preço que muito bem entender), pagando com amáveis juros a belíssima máquina e rezando três padres nosso e duas avé-marias ao Seu Grandioso Benfeitor.
Pela minha parte fiquei esclarecido. Infelizmente não vivo em Portugal, no Restelo, no coração de Lisboa, onde a luz falha uma média de 2 dias por ano, a Netcabo se apaga em média 6 horas por mês. Estou a pensar mudar-me para aí: é a única forma de aceder aos Grandes Benefícios com que O Grupo pretende, já que a política do Governo não leva o mercado a lado nenhum, ajudar o Governo a massificar a Banda Larga nesse país. Que tem, finalmente, um visionário à sua altura. E mais: proponho a Pedro Morais Leitão (administrador da Media Capital e do fornecedor de acesso à Internet IOL), Pedro Norton de Matos (presidente da Oni) e António Lobo Xavier (administrador da SonaeCom) que troquem comigo: uma vez que esses ingratos acusam «o operador incumbente de provocar um «estrangulamento» da oferta que está na origem dos baixos índices de acesso à Net da população portuguesa», e que eu Fui Iluminado, saem de Portugal, onde estão obviamente a mais, vêm para Marte ligar-se a 1200 bps e eu vou para aí disfrutar do meu PC novinho em folha com uma ligação de banda hiper-ultra-larga à Internet, integrar-me na mais avançada Sociedade da Informação e do Conhecimento -- que será, sem dúvida, a portuguesa assim que forem postas em prática as inigualáveis políticas para o sector gizadas pela UMIC, ANACOM e PT.
Aliás, ou muito me engano ou temos mesmo de ser rápidos a aceitar a oferta: perante estas provas de Profunda Visão do mercado pela parte dessas autoridades, não tarda muito que exportemos as Brilhantes Mentes dos seus Honrados Líderes para a União Europeia. Que, como é sabido, paga melhor.
Actualização: nas opiniões surgiu um link para outro texto cuja leitura recomendo fortemente, mais até do que esta minha cantiga de escárnio e maldizer. Da autoria de Rui Carmo, ei-lo: The Broadband Fallacy.
Posted by pTd at 03:44 PM | Comments (8)
Tou sem inspiração
Olho para o blog desconsolado. Há cinco dias que não publico. Estou sem inspiração. Pausa para descansar os dedos. Regresso em breve.
Posted by pTd at 12:04 AM | Comments (5)
fevereiro 05, 2004
Ouviram o raspanete de Liikanen?
O Comissário Europeu passou um raspanete a Portugal. Ou há competitividade no mercado ou não serão alcançados os objectivos «ambiciosos» que o Primeiro Ministro Durão Barroso solenemente acabara de anunciar. «O regulador tem de intervir» -- disse claramente Liikanen. Obrigado pá. Já não falamos sozinhos, amigos Fred e André Belo.
Posted by pTd at 01:34 AM | Comments (9)
fevereiro 03, 2004
A nossa (risos) Sociedade da Informação e do Conhecimento
Opinando sobre uma entrada acerca da temática vírus, que tem sido apaixonadamente debatida neste blog, escreveu o leitor shr!ek umas palavras oportunas sobre monopólios e qualidade de serviço que caem que nem ginjas noutro tema que está a dar nesta que é, diz o Governo, a Semana da Banda Larga. Por isso aqui ficam, citadas dos comentários, as suas palavras e as minhas imprecisões sobre a temática (afinal este é um blog de citações e imprecisões...)
« também já não estou preocupado com o monopólio MS porque vejo as coisas a mudar (lentamente, mas...).
A MS tornou-se numa ameaça tal como o é, por exemplo, a PT... Todos os monopólios são ameaças aos consumidores pelas mesmas razões: inércia e falta de iniciativa/inovação.
Eu cá estou muito mais preocupado com o monopólio PT (independentemente da qualidade dos seus serviços) pois a esse não vislumbro nenhum fim definitivo...»
Quanto aos monopólios, aproveito para esclarecer que nem num caso (Microsoft) nem no outro (Grupo PT) estamos perante monopólios. Impérios, sim. Monopólios é outra coisa. É verdade que as empresas tiveram (tem vindo a perdê-los) tiques monopolistas. A Microsoft teve mesmo de enfrentar uma longa batalha judicial contra o Departamento de Justiça dos EUA quando estava a pisar efectivamente o risco. Depois achandrou-se e hoje é apenas uma empresa imperial, mas não monopolista.
Já a PT, e a maioria do actuais utentes da Internet e de telemóveis não tem memória disso, FOI com diferentes nomes um monopólio do Estado português desde a sua fundação até há poucos anos, quando se iniciou a privatização. Ainda é controlada em grande medida pelo aparelho político (vejam quem são os seus presidentes ao longo do tempo). Que a defende através da inércia, proporcionando-lhe espaço para concorrer com algumas vantagens.
Mas o que é facto é que a PT concorre no mercado. Não em circunstâncias totalmente leais, como se têm queixado repetidamente os seus adversários. Mas a "culpa" é do Estado (que exerce deficientemente o seu papel de regulador do mercado) e não da empresa (que naturalmente, sendo privada, tem a responsabilidade de gerar o máximo lucro que puder para os seus accionistas, dos quais o Estado é o accionista dourado).
O único fim possível para uma maior competitividade no mercado telecom nacional é uma autoridade reguladora mais musculada. A competitividade é fundamental para três objectivos:
a) melhorar a qualidade global de serviço, que é em média inferior à de outros países;
b) levar a tarifários mais baixos, que não são apenas desejados por uma clientela sequiosa e com baixo poder de compra, que está a pagar acesso comparativamente mais caro que a média europeia e comunitária, mas também pelas empresas com presença na Internet, que precisam de clientes;
c) mercê da soma de a+b, potenciar a Sociedade da Informação e do Conhecimento (SIC) no país, esperando os poderes político e económico e também a sociedade em geral que essa SIC possa ajudar a melhorar a produtividade e a cultura nacionais de forma a não perder o locomotiva da Comunidade, que está a puxar com força e da qual nos temos vindo inexoravelmente a afastar.
Não é à PT que compete, sozinha, puxar pela sociedade portuguesa para a aproximar da Comunidade. Nem é aos concorrentes do mercado. É ao Governo que compete a elaboração de políticas e sobretudo a sua aplicação isenta, idónea e vigorosa, através dos mecanismos para tal criados: o orgão regulador de mercado Anacom (acusado justamente de branda e mole) e a coordenadora das políticas do sector UMIC (que pouco mais fez do que verter para Portugal as directivas comunitárias, mas tem sido pouco preponderante em estimular o sector).
A anemia da Sociedade da Informação e do Conhecimento em Portugal é da responsabilidade primeira do Estado (ou do Governo, que é o executivo do Estado) e da responsabilidade segunda das empresas que, seja pela asfixia reinante (mais) seja por falta de ideias próprias (menos), mais não têm feito ou conseguido fazer.
Quanto às pessoas, os "clientes", os "consumidores", os agentes da mudança, lê-se nelas uma ânsia tremenda de fazer. Não têm é directivas. Veja-se o que se passa no Ensino, onde a ausência de políticas para estimular o uso das Tecnologias de Informação e Conhecimento (TIC) é embaraçosa; alguns professores, alguns Conselhos Directivos, tentam remar contra a maré e produzem obra -- rapidamente destruída pela burrocracia que continua a ser a Lei Predominante no aparelho administrativo. E quem se lixa são os alunos e professores, coitados.
Veja-se o que se passa nos próprios Ministérios, que por esta altura do campeonato (estamos em 2004, caramba!) deviam estar a tomar grande partido das TIC para acelerar decisões, diminuir a burocracia e melhorar os seus serviços.
Isto é verdade e nota-se sobretudo nos Grandes Ministérios, os que contam: Saúde (andamos com experiências de tele-medicina há um ror de anos... nunca passamos das experiências) , Economia e Finanças (parece que é desta, por causa da cruzada da Dra Leite contra os pequenos pagadores de impostos, que vai haver maior cruzamento de informação, o que significa usar convenientemente as redes informáticas, não sabendo nós, os pagadores, quem está a vender ao Estado as ferramentas nem quanto estas custam...) e Justiça (bem... calma... deixem-me respirar... shit, não consigo, não aguento o riso BAHAHAHAHAH!!!!).
Actualização: O Barnabé também toca neste tema, aqui.
Posted by pTd at 03:02 PM | Comments (3)
fevereiro 02, 2004
A banda larga em que não acredito
Graças ao link do atento Fred, fui ler o artigo de Diogo Vasconcelos -- o presidente da Unidade de Missão Inovação e Conhecimento, UMIC -- no Público: A Banda Larga em Que Acredito.
Cito: «Quando amanhã, segunda-feira, os leitores do PÚBLICO e todos os outros portugueses voltarem ao trabalho não repararão, com certeza, que estaremos no arranque da Semana da Banda Larga. Melhor, que estaremos num momento decisivo de construção da sociedade da informação em Portugal. A "distracção" é compreensível - muitos outros assuntos da vida pessoal e colectiva serão mais relevantes.»
Fiquei a saber que ando distraído, mas o Governo acha isso compreensível. Hum...
Vou abreviar porque francamente fiquei enjoado. Na essência o artigo do homem que passou a liderar os destinos da Sociedade da Informação e do Conhecimento (SIC) desde que o actual Governo (bem... pelo menos formalmente é o nosso Governo) tomou posse é um exercício de lugares comuns que nada acrescenta à discussão. A vacuidade de ideias é confrangedora: há mais vitalidade e energia e ideias válidas em qualquer uma das centenas de PMEs que, no sector, tentam lutar contra a inércia e a inépcia governamental no que à dita cuja SIC diz respeito do que na UMIC inteira -- mas isto é só a minha humilde opinião.
(Antes de irem à entrada estendida, actualização: O Barnabé acabou de tocar também neste tema, aqui.)
Vasconcelos faz a defesa da "sua" UMIC e chama a atenção para o que nela têm feito -- o que é compreensível, pois muitos outros assuntos da vida pessoal e colectiva do sector são mais relevantes e a malta anda distraída.
De resto, não acredito numa palavra do discurso de Vasconcelos. Algumas são até ofensivas. Como esta: «É, aqui, que entra a compreensão manifestada, desde muito cedo, pelo Governo que a sociedade da informação e as etapas da sua construção requerem uma instância operativa totalmente dedicada a esta matéria.». O "muito cedo", lê-se subliminarmente, é "desde que entrei em funções". Quando a realidade é distinta: o anterior Governo, de má memória em tanta coisa, teve a virtude de dar à SIC um carinho extremo pela força de um ministro discutido e pequenino, vindo do meio universitário, que sem orçamento, dinheiro e vontade geral conseguiu fazer alguns pequenos milagres.
As únicas coisas que ESTE governo até hoje fez em matéria de SIC foram: a e-U (que é, na prática, arranjar uma plataforma para as empresas venderem produtos aos universitários, mas pronto, é no geral uma iniciativa louvável) e destruir tudo o que Mariano Gago tinha feito, desde a Internet nas escolas (está quase, esperem por depois da Semana da Banda Larga...) até à própria imagem de Mariano Gago (Despeito? Ciúmes? Escapa-se-me) com alegadas irregularidades burocráticas no Ministério dele.
Tudo o mais é panfletário e disso não passou.
Falar de "irreversibilidade" em 2004 demonstra uma falta de perspicácia notável -- até para um político. A Internet é sabida como irreversível desde o tempo da bolha, já passaram uns anitos valentes. A Banda Larga já está no mercado português há três anos.
Falar de uma corrida contra o tempo é uma afronta: o orgão regulador anda a marcar passo no mercado há dois anos, mouco às demandas dos operadores que apenas pedem uma coisa: espaço para respirarem. A UMIC demorou meses até aparecer em cena.
A banda larga portuguesa só não é mais acessível e não está mais espalhada PORQUE O GOVERNO TEM SIDO LERDO a manobrar o mercado através do seu instrumento preferencial, a ANACOM.
Vir agora com estas conversas, desculpe caro amigo Vasconcelos, mas é mera propaganda politico-partidária, discurso bem intencionado mas ôco. O Governo e a sua UMIC têm sido travões ao avanço de uma SIC em Portugal. Que o digam as empresas que meteram (ou quiserem meter) projectos aos vários fundos comunitários para o sector, cuja entidade esteve MESES em reformulação.
Desculpar-me-á, mas não acredito na "sua" Banda Larga. Aguardo que o comissário Liikanen veja com os seus próprios olhos o que se passa neste país -- embora duvide que ele abra a boca, excepto para o discurso elogiativo de circunstância. E fique descansado: estive para ir à Conferência fazer umas perguntas em voz alta mas, como estou entretido com os meus projectos de SIC, dois dos quais já fazem as delícias de alguns milhares de utentes -- sem um tusto de apoios apesar de fazer serviço público --, achei melhor ignorá-la. Ainda me ia sentir mal e ser inconveniente.
Cá estamos para debater a política do Governo para a SIC depois de o Governo nos explicar, bem explicadinho, o seguinte:
a) Como pensa distribuir, e por quem, com que critérios, os milhentos euros comunitários que só esperam aprovação de projectos (os projectos existem),
b) Quanto e onde gasta a Administração o dinheiro dos contribuintes em Informática (para tenrarmos perceber um pouco melhor porque não funcionam os tribunais, as repartições, as Finanças, a Saúde, etc). Que se saiba, e eu já lhe fiz a si a pergunta directamente, recorda-se?, NINGUEM na Administação parece capaz de responder a esta simples questão: quanto gasta por ano o Governo (já nem falamos do resto do aparelho) em Informática? Sabe-se quanto se gasta com os automóveis dos ministros, mas não quanto se gasta em computadores. Os computadores que que trabalham (ou assim se espera) os funcionários públicos.
c) Qual a posição do Governo em relação a duas matérias PREMENTES da SIC europeia, as patentes de software e a adesão ao open source?
d) Como tenciona o Governo gerir a concorrência no sector do acesso de forma a baixar os preços da Banda Larga, condição sine qua non para uma EFECTIVA penetração nos lares. (O seu bem escrito artigo não dá uma única pista).
Tal como o Fred, a sua é a banda larga em que eu não acredito.
Posted by pTd at 11:12 PM | Comments (7)
Vírus: nova corrida, nova viágemmm!...
Terceiro capítulo da saga "correio electrónico, vírus, spam, mal entendidos, Microsoft e transleituras": ia responder ao Nuno aqui mas decidi inaugurar esta nova secção.
Caro Nuno, desculpa lá mas quem faz passar essa mensagem (o problema está no Outlook/Microsoft) não sou eu (leia o post original). Lamento que a thread tenha isolado o componente Microsoft e deixado cair os outros componentes do meu texto original.
O Outlook É um cliente de e-mail. Mais: o Outlook (several flavors) é utilizado esmagadoramente com a única finalidade de gerir o correio. Mais ainda: as outras funcionalidades que tornaram ao longo do tempo o Outlook em MAIS QUE um cliente de e-mail, sobretudo as da versão larga (Microsoft Outlook, acho que é o nome), são usadas por uma minoria. A minoria que gosta de aprender a tirar partido das ferramentas informáticas, digo eu - mas isso não me autoriza (nem te autoriza nem autoriza os leitores-participantes das outras duas threads) a deduzir que TODA a gente as usa. Eu bem vejo.
Os problemas dos vírus e do spam são muito mais gerais que a mera discussão de mailers, naturalmente. Não percebo porque se focaram os leitores na questão (real mas secundária no contexto original do meu post) dos buracos do Outlook (several flavors) e do software da Microsoft em geral. O meu objectivo não era discutir isso (já o fiz, tou careca de o fazer, noutros textos, noutros lugares). Era apenas dizer que
a) graças aos sete por cento (!!!!!!) de pessoas que compram Viagra e porcarias avulsas clicando nos links de e-mails comerciais não solicitados,
b) graças à ingenuidade geral do povo mau utilizador do Outlook em particular e do correio electrónico em geral,
c)graças aos fdp dos fabricantes de vírus e aos filhos da mesma mãe dos spammers e markeóides menos dotados de escrúpulos que usam a ingenuidade alheia em proveito próprio,
d) graças ao papel passivo de uma década da Microsoft face às irregularidades do seu software,
O OUTRORA MARAVILHOSO EMAIL SE ESTÁ A TORNAR UMA GRANDE MERDA DE APLICAÇÃO, na qual eu e milhões de pessoas perdemos a confiança.
Breves estatísticas do último surto de vírus, esse espantoso pedaço de código conhecido por MyDoom.
* O pico das primeiras horas foi de uma mensagem infectada por cada doze mensagens de correio e a média estabilizou entre os um para 15 e um para 23 nos dias seguintes. Em termos comparativos: o destronado número 1 era o Sobig.F, de Agosto de 2003, que atingiu um pico de um em 17 mas caíu depressa nos dias seguintes; o agora número 3, o Lovebug de 1999, teve um pico de uma infecção em cada 23 mensagens.
* Segundo um amigo que tenho no Sapo (leiam o Expresso no sábado faxavor, para saber quem é e para saberem muito mais coisas sobre o MyDoom), no domingo passado «uma em cada quatro mensagens» que chegavam aos servidores da rede Sapo continham este vírus. A percentagem fora de 16,9 no sábado e de 24,14 na sexta-feira, o pior dia. Essas mensagens foram retidas pelo sistema, não chegando aos computadores dos destinatários.
* A carga «não chegou a ser um problema para a plataforma, pois identificámos o padrão em poucas horas».
* a largura de banda «aumentou entre 5 a 10 %», o que não é significativo dada a dimensão da rede Sapo, mas dá uma ideia do DESPERDÍCIO gerado pelo MyDoom. Nos restantes operadores os números são semelhantes.
* Esta contabilidade não inclui os e-mails trocados pelos utentes, a quem a situação alarmista leva a aumentar por sua vez a intensidade de correio. Por calcular estão os danos sofridos pelos operadores, confrontados com um inesperado aumento do volume de tráfego de três fontes: o vírus propriamente dito, as mensagens automáticas dos sistemas a avisar as pessoas da existência do vírus e a avisarem-se da inexistência dos endereços fabricados, e os e-mails alarmados dos utentes.
Grosso modo, dizem fontes idóneas (leiam a BBC, leiam a Wired Online, o news.com. o The Register, etc), na última semana um terço do correio electrónico MUNDIAL era lixo do MyDoom. Só do MyDoom. Fora o resto do lixo de spam (algo como 60 por cento do total). Ou seja: mensagens-mensagens, legítimas, enviadas por pessoas para pessoas, com naturalidade, nos últimos sete dias foram menos de dez por cento do total do tráfego do correio electrónico.
Admito que a tua inbox não sofra assim. Mas se tu, caro Nuno, achas que o correio electrónico não está em perigo... olha, ainda bem, haja alguem optimista!
Ah, já me esquecia, peço desculpa: o MyDoom só afecta computadores com Windows.
Ops, outro lembrete, peço mais uma vez desculpa: o MyDoom só se reproduz a partir do Outlook (várias versões).
Oh... quase publicava isto sem dizer que o site da SCO se foi abaixo das canetas no domingo e o endereço www.sco.com FOI RETIRADO DOS DNS MUNDIAIS. Porque... incalculáveis milhões de computadores com Windows desataram a fazer pedidos aquele site...
Já agora, mesmo de saída: a SCO oferece 250.000 dólares por informações sobre o autor do MyDoom. A Microsoft juntou-se-lhe e oferece outro tanto. Meio milhão de dólares pela cabeça que... escreveu um vírus que explora os, deixa cá escolher um termo meigo e amigo para ver se a seita da cegueira não se exalta, "pequenos defeitozinhos normais e aceitáveis" desse grandioso, maravilhoso, único, excelso,inigualável, sem-o-qual-não-poderíamos-viver, programa de correio electrónico, ops, perdão, rectifico, desse grandioso, maravilhoso, único, excelso,inigualável, sem-o-qual-não-poderíamos-viver, programa-que-faz-muito-mais-que-isso, o glorioso (ajoelhai perante o Deus Bill Gates) OUTLOOK!
Se alguem escrever que isto é um texto contra a Microsoft, está no seu direito -- mas eu repudio desde já. É certo que ela faz software buggy. Mas esse não é o ponto. O ponto é que alguem aproveita os defeitos e aproveita a ingenuidade geral para LANÇAR UM ATAQUE INTENCIONADO a uma empresa, TOMAR CONTA de mais de um milhão de computadores e gerar DEZ POR CENTO DO TRÁFEGO MUNDIAL de correio electrónico que tem um custo que quem vai pagar, quem é?
Posted by pTd at 07:53 PM | Comments (9)