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março 31, 2004

Google "bubble"

Parece uma “remake” da bolha da Internet. A excitação em torno do Google contagiou os media.
capa da Newsweek
A Newsweek desta semana dá a honra da capa ao Google, publicando a fotografia dos seus dois jovens fundadores e titulando com mal disfarçado entusiasmo: A nova era do Google – o gigante da pesquisa mudou as nossas vidas. Poderá alguem apanhá-los. No interior uma extensa reportagem cuja peça principal, All eyes on Google é pouco menos que entusiástica na descrição do maravilhoso mundo passado e sobretudo futuro que Sergey Brin e Larry Page – os dois estudantes da Universidade de Stanford, EUA, que em 1996 fundaram o motor de pesquisa – vieram proporcionar. Isto apesar de tanto um como outro, corroborados por Eric Schmidt, o CEO da empresa, encolherem os ombros perante tanta excitação e revelarem muito mais bom senso que os editores do artigo e o resto dos entrevistados.

(Reportagem Premium, à venda por 32 cêntimos aqui)

Posted by pTd at 12:22 AM | Comments (2)

Importar Favoritos para o del.icio.us

O del.icio.us é fabuloso. Para mim é mesmo A solução: trabalho com vários computadores em casa, nos escritórios, em viagem... Não dá para andar com uma lista de bookmarks (ou Favoritos) no bolso... :(

Porém, o de.icio.us não oferece uma forma simples de importarmos MUITAS bookmarks de uma só vez. Procurei na Internet e não encontrei nada feito, pelo que meti mãos à obra e fiz um script muito básico em Perl que me fez o trabalhinho na perfeição :)

Graças à API do del.icio.us bastam quatro passos simples para inserir uma lista de bookmarks de uma só vez.

Primeiro passo: grave as suas bookmarks para um ficheiro (e LEMBRE-SE onde o pôs);

Segundo passo: faça o download do script aqui ou copie+cole-o daqui (texto simples).

Terceiro passo: edite o script e configure-o com os seus dados da conta no del.icio.us (explicações dentro do script);

Quarto passo: corra perl delicious.pl e já está! Verifique a sua conta no del.icio.us. (Pode demorar um ou dois minutos a enviar todas as suas bookmarks, se forem muitas...)

O script foi testado com sucesso tanto em Linux como em Windows. Tome atenção à localização do seu ficheiro de bookmarks, pois Linux e Windows têm file systems diferentes.

(Na verdade o script funciona não só com um ficheiro de bookmarks mas também com qualquer ficheiro de texto que contenha, por cada linha, um url e um nome, como em <a href="some.url">some name</a>.)

O script é fornecido as is. Use à vontade, distribua ou modifique de acordo com as suas necessidades. Neste caso só peço que me envie uma cópia das modificações. E, claro, comentários são bem-vindos (o e-mail está dentro do script).

English version HERE

PS: Para quem não tem acesso à Perl, estou a pensar fazer um sistema independente baseado no script. Candidatos, deixem comentário abaixo.

Posted by pTd at 12:09 AM | Comments (5)

março 30, 2004

Um homem não se mede aos links

«Ora ora, eu tenho mais links no Technorati que esse caramelo!» -- disse eu referindo-me a uma vedeta da blogosfera francesa. Responde o Fred:

«Um homem não se mede aos links».

Touché.

Posted by pTd at 10:14 PM | Comments (1)

Adeus, Portugal

Mais ecos do frutífero diálogo no Fumaças. O meu homónimo citou e comentou no seu blog, o Heterodoxias, a minha frase sobre o fim próximo de Portugal.

«O liberalismo não voltará a triunfar em Portugal pela simples razão de que Portugal está a deixar de existir. Francamente, não terei pena: o passado ninguém nos rouba e para o futuro antes quero ser um europeu de salário digno que português condenado à miséria pelas suas incultas élites.» -- disse eu.

«Este seu último parágrafo é muito pessimista. Pode ser que tenha razão quando diz que Portugal está a deixar de existir: há muitos sinais de decadência.» -- comentou Paulo Ferreira da Cunha.

Pessimista, não. Realista. Assim muito sinteticamente, vamos a isto.

Economia? nas mãos de não-portugueses, felizmente por enquanto sobretudo em mãos vizinhas, ibéricas. O que está certo, numa economia global.

Cultura? Francamente... a minha filha não sabe o que é o Pão por Deus mas comemora entusiasticamente o Halloween... Para minha irritação: estou cansado de lhe dizer que aquilo é uma coisa americana e não tem nada a ver com ela, com a cultura dela. Debalde... Hollywood é mais forte que todo o audiovisual português somado e multiplicado por 100. Os modelos da televisão de massas são todos importados. Desfiar exemplos é chover no molhado: era mais fácil apontar as excepções à regra. Está em curso há décadas a aculturação do país. Não há pior cego...

Ambiente urbano? Qualquer capital distrital portuguesa é igualzinha, até no chamado mobiliário urbano, a qualquer capital distrital europeia. A paisagem é idêntica: os outdoors contém as mesmas imagens e mensagems, só mudam as frases, necessariamente traduzidas para o dialecto local.

Política? Vamos rir? As únicas eleições que contam para alguma coisa hoje em dia são as europeias. Um deputado português em Bruxelas é mais influente que um ministro do Governo português. Tivéssemos um pouco mais de descentralização, de poder local, e as eleições autárquicas seriam mais do que a actual mero ritual partidário e caciquista. Quem traça as grandes políticas nacionais é Bruxelas e não o Terreiro do Paço.

«Mas creio que se acreditarmos que seremos europeus com melhores salários sem autonomia nacional é que mais depressa acabamos com Portugal.»

Eu sou cristão-novo da Estremadura de ascendência, algarvio de nascimento, português de língua e europeu de cidadania. Essa coisa chamada autonomia nacional é hoje em dia um preciosismo de linguagem: já não existe. Nem sei porque teria de continuar a existir, a partir do momento em que aderimos à União Europeia. Nesse sentido sou federalista. Recordo btw que os EUA são uma federação. Apesar da força da bandeira, do hino, da língua e da presidência, cada um dos 52 (ainda são 52, right?) estados tem autonomia. Legislativa e cultural. Tendencialmente a Europa aproximar-se-á desse modelo. Não ganhem os terroristas a guerra antes...

«Admito que um punhado de "happy few" - em grande medida dessas elites incultas - vão ganhar muito dinheiro, prestígio, visibilidade até com um Portugal diluído numa Europa tentacular, concentracionária. Não o povo miúdo.»

Ops... desacordo total e absoluto! :) As elites cultas já lá estão: os nossos emigrantes de luxo, da ciência à política à investigação, há muito que recebem salários pagos por empresas europeias ou mundiais. As elites incultas -- a que me referi anteriormente tendo em mira as classes empresariais e políticas que desgovernam Portugal -- só teriam a perder, para minha felicidade. O povo miúdo só teria a ganhar: melhores salários, melhores serviços, melhor crédito bancário, melhor nível de vida -- e uma coisa que cá não têm nem terão tão cedo: possibilidade de formação e reconversão profissional, o que é fundamental para os trabalhadores acima dos 35 anos.

«E depois, o passado, rouba-se sim. Contam-me que precisamente na Bélgica, a seguir à II Guerra Mundial, tudo se fez para apagar a História do país nas escolas.»

Tudo se fez e o que se conseguiu? E vivemos circunstâncias diferentes. A globalização dos media e a democratização de meios (a Internet, as TIC) são garante suficiente para a continuidade da História. E a quem interessará doravante, numa europa federada, "apagar" os traços culturais locais?

«Vejo bem onde quer chegar, e seria tentado a concordar consigo se não fosse ter ainda esperança e a recordação histórica de que os povos sempre se dão mal quando desistem.».

Mas... Mas... Mas eu não falei em povos a desistir! Pelo contrário, penso que acabar com Portugal é uma forma de andar para a frente, não é uma desistência! É uma renovação. A nossa fórmula de país está velha (800 anos...) e gasta e já deu o que tinha a dar. Olhe para os nossos últimos dois séculos... Não fizemos nada bem feito.

Não confunda "povos" com governos, políticos -- ou sequer indivíduos como eu. Um povo é uma amálgama. Um povo faz colectivamente acções misteriosas e não comandadas pelos governos, caciques, xamanes -- ou malucos como eu. O que eu vejo o povo português fazer é suicidar esse país chamado Portugal, de cuja História nos orgulhamos (com uma ou outra excepção...) e de cuja herança nos queremos livrar.

A minha pátria é a língua portuguesa. A pátria é a língua. Um português é um português, mesmo quando vive 30 anos emigrado. Acultura-se -- eventualmente menos do que os irmãos que ficaram no país... o que não deixa de ser sintomático: mantém tradições, come bacalhau e ouve a Romana -- coisas a que as mais novas gerações cá do continente e ilhas torcem manifestamente o nariz.

Um país é o quê? Fronteiras? Fundiram-se com as da UE. Bandeira? Temos o Figo e a selecção. Governo? (Aqui solto sonoras gargalhadas.)

Posted by pTd at 12:25 AM | Comments (9)

março 29, 2004

Que é a propriedade? A propriedade é um roubo

Conversa civilizada e interessante mantida com Paulo Ferreira da Cunha no blog Fumaças a propósito da sua entrevista.

Mas houve alguma confusão. Os leitores acham que eu me defini como liberal social e até recebi convites. Nomeadamente para ir ler o blog Speakers Corner Liberal Social. Fui ler. Gostei do artigo sobre a Microsoft. Lúcido. Tudo bem, simpatizo com o liberalismo social e, tal como o definiu PFC, eu próprio quase me poderia considerar um. Quase.

Na prática-prática até poderei ter comportamentos liberais. Mas na realidade há dois pequenos detalhes que me afastam inexoravelmente do pensamento liberal. Voltemos a PFC: «Quero só dizer-lhe que Proudhon também é dos meus. E também Thomas More. Escrevi uma tese pesada sobre utopia, e em Novembro, perante um público de advogados, juízes e sobretudo conservadores de registo, comecei uma conferência na Bahia dizendo: "A propriedade é um roubo". Mas fundamentalmente para provocar, porque eu sou pela propriedade liberal social, mais ou menos nos termos de Tomás de Aquino, modernizados...»

Pois... No meu caso não se trata de uma provocação: eu não sou pela propriedade. Em termos de pensamento eu bebo de Pierre-Joseph Proudhon: «O que é a propriedade? A propriedade é um roubo». Essa é que é a verdade. A existência de propriedade -- hoje como no século XIX -- é a causa primeira de todos os malefícios sociais, da pobreza ao terrorismo. E essa é que é a verdade. Pelo que -- por muito que simpatize com os conceitos, a independência e a boa educação dos liberais sociais -- não posso subscrever as teses liberais. Por outro lado -- e por muito que digam o contrário -- os liberais sociais estão colados à direita de Manuel Monteiro. E isso faz-me desconfiar.

Em abstrato continuo a ser um proudhonista. «O sistema político pode ser definido como segue: uma democracia compacta fundada, na aparência, numa ditadura das massas, mas onde as massas apenas têm tanto poder quanto o necessário para garantir a universal servitude. Proudhon escreveu isto no De la Capacité Politique des Classes Ouvrières, 1865, em plenos vapores da Revolução Francesa, a tal que está na origem das democracias modernas. Apesar dos seus 140 anos, a frase é actual. Proudhon tinha razão quando chamava a atenção dos socialistas de que aquilo ia acabar mal. Acabou como sabemos: em democracias que apenas legitimam o direito de alguns de explorarem as maiorias trabalhadoras, às quais pagam salários de miséria engordando com a mais valia. Isto limpo e justificado por políticos eleitos pelas massas exploradas e por máquinas de propaganda super eficazes que vendem os sonhos de riqueza consumista com que as massas se alienam. Vivam os quinze warholianos minutos de fama... Vivam os blogues, que nos dão um cheirinho de poderosos!

Mais de Proudhon, que muito nos devia dar que pensar hoje, com o terrorismo a legitimar uma maior intrusão do poder político e do aparelho repressor na vida íntima dos cidadãos: «Ser governado é ser espiolhado, inspecionado, vigiado, dirigido, legislado, regulado, certificado, doutrinado, influenciado, controlado, tributado, pesado, censurado, ordenado por homens que não têm nem o direito, nem o conhecimento, nem a virtude para o fazer. Ser governado significa ser, em cada operação, em cada transação, em cada movimento, anotado, registado, controlado, taxado, selado, medido, avaliado, tributado, patenteado, licenciado, autorizado, endossado, admoestado, impedido, reformado, indeferido, detido. É ser, sob o pretexto do interesse geral, taxado, manobrado, preso como refém, explorado, monopolizado, exortado, enganado, roubado; depois, à menor resistência, à menor palavra de queixa, reprimido, multado, abusado, molestado, seguido, intimado, batido, desarmado, garrotado, preso, metralhado, julgado, condenado, deportado, esfolado, vendido, traído e, finalmente, escarnecido, ridicularizado, insultado, desonrado. É isto o governo, é esta a sua justiça, é esta a sua moral!» (in L'Idée Générale de la Revolution au 19º Siècle, Paris, 1929).

Ao reler, ontem, estas palavras de Proudhon não pude deixar de sorrir perante a sua actualidade. O anarquismo enquanto teoria de pensamento político passou de moda. Porém, a sua crítica ao sistema continua válida.

Em concreto e em conclusão: caro Paulo Ferreira da Cunha, caro Miguel Duarte, estou disponível para irmos mais longe na conversa, de preferência em frente a um aristocrático café ou uma lumpen imperial (eu oriento-me em qualquer classe social, obrigado, cara deformação profissional!). Mas não me arregimentem para a causa do PND. Admito até iniciarmos algum tipo de plataforma liberal para levar à política alguma frescura para combater o excesso de fervor proibicionista que persegue Direitas e Esquerdas no poder ou a caminho. Mas longe de partidos, ok? A Liberté, Egualité, Fraternité é um começo menos mau, sobretudo porque agora é tarde para recomeçar noutras permissas. Mas o exercício da liberdade podia ser aproveitado para uma vassourada completa e não apenas para, como defendem os liberais, melhorar um pouco o sistema sem lhe mexer na estrutura. Compagnons de route, tudo bem. Mas temos fins diferentes.

Posted by pTd at 07:35 PM | Comments (7)

março 27, 2004

Os políticos e os blogues

A entrevista de João Carvalho Fernandes a Manuel Monteiro publicada na série de aniversário do Fumaças veio confirmar uma tendência muito, muito recente e sintomática. Cabeças de cartaz da política falam para os blogues como quem fala para os jornais, rádios e televisões.

Sinal de maturidade e sobretudo da importância dos blogues enquanto espaços efectivos de opinião pública (ai ai, as diferenças entre opinião "pública" e opinião "publicada"...)?

Mero aproveitamento dos políticos em usar mais um canal de divulgação?

Talvez sim a ambas. A blogosfera de língua portuguesa é a segunda maior e mais evoluída do mundo. Seguindo o caminho da primeira, a estado-unidense (e não confundir com língua inglesa), os blogues tornam-se aos poucos, efectiva e solidamente, em espaços mediáticos não-desprezáveis. E mais: têm virtudes que nenhum media até hoje ofereceu, pelo contrário, abafou. O contacto directo, quase personalizado; a interacção em tempo real com plateias de maior discernimento intelectual (e o consequente apelo à maior honestidade); o tempo e espaço de intervenção sem limites; a liberdade de discurso, não condicionado ao formato imposto pelo jornalista/orgão.

Para o bem e para o mal, a política portuguesa está a passar-se para a blogosfera. Depois dos pioneiros -- políticos, militantes e activistas -- terem aberto os democráticos caminhos da liberdade de opinião vai chegar agora a segunda leva, os profissionais.

A "webização" das empresas não correu lá muito bem. Correrá melhor a "weblização" do debate do Poder?

Francamente, não faço a menor ideia nem tal me desvia a atenção que dou aos blogues, e que é bastante mais orientada para as novas formas de socialização e para a evolução tecnológica. Mas já tenho o camarote pago para assistir aos próximos actos.

Posted by pTd at 04:40 PM

Aniversário(s)

365 dias. 12 meses. Um ano. É o tempo de vida de (o vento lá fora)* completado hoje.

We dont read and write poetry because its cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. Medicine, law, business these are all noble pursuits necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, and love; these are what we stay alive for.
(Walt Whitman, citado n'O Primeiro Post)

Esta é a 341ª entrada. Até este momento teve o blogue 1.548 comentários. 4 formatos gráficos. 2 servidores. 2 sistemas editoriais.

imagem em Abril

O número de leitores tem vindo a subir progressivamente: de 268 diários no mês de Agosto passou para a média diária de 756 neste mês de Março. Desde Junho (primeiro mês com estatísticas) 138.840 leitores leram 253.426 páginas.

Esses são números frios. Calculo que a audiência se situe em 14.000 leitores diferentes ao longo do período e sejam leitores regulares (uma vez por semana) umas 4.000 pessoas.

Apesar dos (bons) números, (o vento lá fora)* continuará nos próximos 365 dias a fazer-se pensando nos leitores, como qualquer outro blogue ou publicação, mas sem pretensões de élite ou de audimetrias favoráveis. Recordo que é apenas o meu blogue, o meu espaço pessoal de reflexões partilháveis, parte da minha memória.

imagem em Abril

Ontem completou também um ano um blogue bastante melhor que este. O Fumaças. João Carvalho Fernandes, esse sim, tem um trabalho espectacular digno do maior mérito, enquanto blogger. Destaco o Fumaças entre outros blogues que já fizeram ou estão para fazer o seu primeiro aniversário (vai haver MUITOS em 2004 nessa situação!) por causa da proximidade de datas. Foi curioso descobrir que tínhamos iniciado a função com um dia de diferença.

Ele fez-me o obséquio de me entrevistar e publicar as minhas respostas no Fumaças, celebrando o seu aniversário com um conjunto de entrevistas. Obrigado João.

Eu não preparei nada para assinalar a data. Primeiro porque sou pouco sensível a efemérides -- sejam os Dias Mundiais disto e daquilo, seja o meu aniversário. Acho as efemérides amargas. Excepção feita a três dias no ano. O 25 de Abril (que recordo mas não festejo), porque mudou o meu destino: não fui combater para as colónias, ao contrário do que me vinham dizendo há 10 anos, quiçá para me preparar para tão triste destino. E os aniversários da minha filha e do amor da minha vida (esses festejo, embora discretamente).

Segundo, porque bater em teclados é a minha vida desde que me conheço. Desde que passava à máquina -- na Royal HCESAR que agora repousa ali em cima de um móvel, coberta de pó e à espera que a minha velhice traga tempo para a limpar e olear -- as ementas da casa de pasto familiar. Dois químicos e três exemplares, um original e duas cópias.

De cabeça:

Peixe
Pescada cozida com batatas e legumes. . 7$00
Lulas fritas com ferrado. . . . . . . . 7$00
Carne
Dobrada com feijão branco . . . . . . . 7$00
Vitela guisada com massa esparguete . . 7$00

Essas foram as minhas primeiras palavras tecladas há 38 anos (tão depressa aprendi a escrever à mão como à máquina). Recordo-as melhor do que o primeiro post. A vantagem é que agora não é preciso reconstituir de cabeça: basta ir ao arquivo e fazer copy+past.

Posted by pTd at 02:48 PM | Comments (14)

março 25, 2004

Inglório

É inglório. Não é qualquer um que marca três golos a uma equipa italiana (Sokota acaba de falhar o quarto no momento em que escrevo estas linhas) no seu próprio terreno -- e sai derrotada da eliminatória. O SL Benfica só se pode queixar de si próprio, nomeadamente da desconcentração defensiva a meio campo no jogo de hoje. E a falta que fez, um golito levado da Luz...

Posted by pTd at 09:52 PM | Comments (2)

Vénia a maradona

Há instantes o link não estava a funcionar, mas procurem na página pelo título Após motim seguido de suicídio. Vão encontrar a melhor prosa sobre futebol que já li depois dos saudosos tempos de Valdano no El País (e perdoa-me Tadeia...). Este hino à arte é assinado maradona, cujo blog aparentemente se finou. Agradeça-se ainda a MacGuffin pela publicação.

Para vos aguçar o apetite aqui ficam quatro nacos roubados à saborosa prosa. Vão depois devorar o resto!

«Mas mesmo que não tivessem, oiçam bem, mesmo que não tivessem tido o melhor conjunto de resultados desportivos desde o Milão de Sacchi e Capelo, caralhos me fodam, será que não valeria a pena ficar em terceiro na Liga Espanhola, não passar dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, ser eliminado pelo Badajoz da Taça do Rei, mas ter na frente uma bola a circular de um Zidane para um Raul, de um Raul para trás para um Roberto Carlos, deste para o Beckham, do Beckham, num passe de 190 metros com 6 ângulos de 90 graus, para o Ronaldo, e depois, em maravilhoso culminar, assistir a uma correria do gordo com oito pessoas magras em pânico atrás dele? Vão apanhar no cu!»

«Será que não é evidente o suficiente que nunca se trocou a bola assim antes? Que nunca se jogou do meio-campo para a frente com tanta excelência? Que aquilo é arte pura? Que para ver metade dos gestos técnicos perfeitos que acontecem em meia parte de um mau jogo do Real Madrid é necessário condensar uma jornada inteira de qualquer campeonato europeu (ou toda a história do futebol português, no nosso caso?).»

«Minhas grandessíssimas mulas: do que é que se lembram com mais saudades: do Brasil ofensivo e criativo de 82, ou da grande traição de 94? Qual deles é que ganhou, e qual deles é que ficou pelos quartos?»

«Meus amigos: no desejo de vitória deste Real Madrid (ou, no máximo, do Arsenal), não está só o meu fanatismo clubístico (aliás, bastante variável: quando o Figo jogava à bola era fanático do Barcelona), está também o desejo de que se propague pelo mundo uma determinada filosofia do futebol, aquela que mais hipóteses tem de fazer proliferar os Zidanes sobre os Gatusos, os Ronaldos sobre os Makeleles, os Pedro Barbosas sobre os Tingas.».

(in Após motim seguido de suicídio, no blog Contra a corrente)

Posted by pTd at 02:35 PM | Comments (1)

março 24, 2004

A magia e o rigor

Encheu o campo. Durante 90 minutos. Até lhe perdoo a fífia da grande penalidade. Teve sangue frio q.b. para a recarga em condições dificílimas. Foi um jogo agradável de seguir sobretudo pela marcha do marcador e pela exibição de Luís Figo -- o único madrilista que "esteve" em campo durante todo o desafio. Zidane uns furos abaixo da sua bitola normal, Ronaldo idem aspas. Raúl não se viu. Beckam esforçou-se. O Real Madrid safou-se -- mas o Mónaco provou ser uma excelente equipa e a eliminatória está aberta graças ao segundo golo, marcado e merecido pelo ex-9 do Real, Raul Morientes.

Por contraste, o jogo de ontem do FC Porto contra o Olympique de Lyon foi bem menos exuberante mas muito melhor jogado. Foi mesmo um tratado de futebol tático e técnico com o primado do conjunto sobre o indivíduo, assinado por duas equipas espantosas e... espantosamente parecidas. Venceu a que mais concentração revelou, ou talvez tenha sido o factor-casa. Só vos digo: foi um dos mais belos jogos de futebol que vi esta época. E reforcei a crença de que o FC Porto vai chegar à final da Champions League.

Como dois jogos podem ser tão agradáveis sendo tão diferentes!... Ontem o rigor, hoje a magia. I love this game.

Off-topic: não acho que o Sporting tenha jogado mal contra o Rio Ave. Foi uma equipa equivocada na primeira parte, apenas isso. Não sei a quem atribuir o equívoco: se ao treinador, se à complacência dos intérpretes. Mas penso que o defeito esteve na comunicação. O engenheiro não fala a mesma língua que os jogadores, decididamente. Os 4-0 (que fizeram o gáudio dos benfiquistas) são resultado que não espelha o que se passou em campo, é verdade (o Sporting dispôs de 3 ocasiões soberanas de golo), mas premeia o esforço de um Rio Ave que não merece que lhe retiremos qualquer mérito.

PS: entrei em banhos e massagens para amanhã. O SL Benfica de Camacho joga a época em Milão. Acredito neles. Espero outra ganda jogatana de bola!

Posted by pTd at 10:04 PM | Comments (5)

março 22, 2004

Salam Pax

Faz hoje um ano, a 22 de Março de 2003, dei a conhecer através do Expresso o blog Where is Raed, escrito por Salam Pax a partir de Bagdade, uma cidade sitiada. Por regra os meus textos para o Expresso são finalizados à segunda-feira anterior ao sábado em que vão ser publicados; nessa semana aconteceu-me o que os jornalistas que escrevem com este tipo de antecedência tanto temem: que o curso dos acontecimentos nos dias entre a escrita e a publicação não tornem o texto numa peça ultrapassada. Tomei os cuidados possíveis e ao longo desse texto -- o primeiro artigo publicado nos media portugueses a falar de Salam Pax e da importância dos blogs para a informação à escala mundial -- tentei omitir referências directas à guerra iminente.

Apesar disso no sábado em que foi publicado estava desactualizado pois entretanto a guerra começou a meio dessa semana.

Não passou muito tempo até que pudesse voltar ao tema. Duas semanas depois regressava nas páginas do Expresso a Salam Pax, entretanto já referenciado pela Imprensa de todo o Mundo e lido avidamente por milhões de pessoas que através (sobretudo) dele seguiam o dia-a-dia dos iraquianos e da invasão através de fontes alternativas aos media controlados pelos generais. Mal sabia eu que ia publicar uma referência ao último post de Salam Pax: com Bagdade imersa em bombas o seu blog calou-se. Durante meses vivemos suspensos na dúvida: teria morrido ou apenas ficado sem Internet? Foi preciso esperar pelo fim da batalha e pelo restabelecimento de algumas comunicações na capital iraquiana para a blogosfera descobrir que Salam Pax teve mais sorte que perto de dez mil conterrâneos: sobreviveu. E voltou a publicar o Where is Raed.

Devido ao seu carácter histórico republico hoje, aqui, esses dois textos sem modificações -- mantendo as dúvidas da época e correndo o risco de algum link já estar desactualizado. Como uma forma de assinalar o primeiro aniversário de uma invasão cujos objectivos nunca foram claros e cujas catastróficas consequências -- para ambos os lados -- estão longe de terminadas. E inspirado pela forma como a BBC assinalou o aniversário: através de um balanço feito numa visita a Bagdade guiada por... Salam Pax. Gostei de o ver na televisão e senti ternura. Durante três semanas fui um dos milhões de ocidentais que se preocupou com a vida de Salam Pax enquanto símbolo de um povo oprimido e em guerra.

Os iraquianos e a web
Um blog escrito a partir de Bagdag é a excepção: o Iraque é o país menos ligado do mundo.
(Expresso, 22/03/2003)

«Hoje é feriado, segundo o calendário muçulmano é o 1º dia de Muharan, ou Ashura para os muçulmanos shiitas. Um dia importante na história de Shia. Hoje é o aniversário do assassinato de Imam Hussein, em Karbala».

Começa assim a entrada do dia 13 de Março de 2003 no blog "Where is Raed?" (em http://dear_raed.blogspot.com) - um dos mais procurados -- e discutidos -- blogs relativos à guerra ao Iraque. O servidor que aloja este blog, entre milhares de outros, sofreu já este mês um "apagão" nas horas subsequentes à publicação, pela agência Reuters, de uma notícia sobre "Where is Raed?".

O blog é mantido por Salam Pax, que habita em Bagdad. Pelo menos é o que parece: os leitores fiéis, que acompanham o registo de Salam há meses, dizem não ter razões para acreditar que ele minta sobre o seu paradeiro, pelo contrário. O diário é de facto fascinante. Salam é uma pessoa bem formada e informada e os seus relatos (bem como os comentários de leitores a cada entrada do blog) abrem-nos novas perpectivas sobre o mundo árabe.

A acreditar que Salam publica os seus relatos a partir da capital do Iraque, isso torna-o num dos raríssimos iraquianos capazes de se ligar à Internet. A esmagadora maioria dos weblogs e outros sites relativos ao Iraque, passando pelos jornais do regime, está sedeada fora do país.

O Iraque tem o seu próprio domínio, como praticamente todos os países e regiões do planeta. O .iq é da responsabilidade da Anani Corp, uma empresa americana do Texas. Mas é escusado procurar domínios nesse TLD (Top Level Domain, ou hierarquia de topo, correspondente ao nosso .pt): desde 1991 e da invasão americana, com as consequentes sanções das Nações Unidas, o Iraque ficou tão pobre que no país quase não existem computadores, não há rede móvel e as infraestruturas de energia e de telecomunicações não permitem veleidades.Em 1989 havia cerca de 1.000 ligações "dial-up" no Iraque, Universidade de Bagdag e Biblioteca Nacional estavam ligadas através da rede de dados iraquiana. Mas o fio foi cortado a 2 de Agosto de 1900 e a rede não mais existe: o Iraque é hoje um dos países menos conectados do Mundo (http://mosaic.unomaha.edu/GDI1998/7DIRAQ.PDF).

Como se não bastassem as limitações "normais", o regime de Saddam Hussein encarregou-se de fechar as portas à Internet - que, como é sabido, é um corpo libertário com tendência para se espalhar por todo o lado, fintando os poderes políticos. Que o digam os chineses. No Outono do ano passado o ditador aligeirou a censura, permitindo a alguns iraquianos das elites o acesso a partir de suas casas e deixando que surgissem em Bagdag e Karbala alguns cibercafés de acesso público. Público não no sentido de livre: o acesso é feito através do ISP uruklink.net (www.uruklink.net, que aloja os sites oficiais do regime e o correio electrónico de Saddam) e tudo indica que o tráfego é filtrado e os conteúdos censurados pelo corpo policial do ditador.

Não se sabe se Salam Pax injecta na Web os seus registos diários através do ISP oficial ou se usa, como se pensa que façam às escondidas um punhado de iraquianos, uma caríssima ligação por telemóvel de satélite. Sabe-se, por outro lado, que o próprio Saddam Hussein (ou alguém da sua confiança, mais exactamente) tem uma conta de correio, através da qual recebeu nos últimos meses centenas de propostas de contratos comerciais, bem como conselhos de guerra e muito "spam". A conta (press@uruklink.net) foi devassada por um "hacker" que descobriu a respectiva "password" e penetrou no servidor de correio oficial, cheio de "bugs" de segurança (www.wired.com/news/conflict/0,2100,55967,00.html). Também o filho mais velho de Saddam, Uday Saddam Hussein, teve uma conta no Yahoo (udaysaddamhussein@yahoo.com), que foi entretanto desactivada.

Já com uma comunidade de leitores bem estabelecida, "Where is Raed?" é a excepção entre os muitos blogs sobre o Iraque e a guerra que visitámos: é o único escrito a partir do Iraque e do Médio Oriente. Todos os outros são ocidentais, de um lado e outro do Atlântico. Há já esforços por concentrar num único ponto de acesso informação dos muitos blogs disseminados por outros tantos servidores. O mais avançado deles é "Stand Down: O blog esquerda-direita de oposição à invasão do Iraque", ponto de partida obrigatório em www.nowarblog.org.


Salam Pax: a história de um herói "Where is Raed?", o "weblog" a que EXPRESSO fez referência no artigo intitulado "os iraquianos e a web", publicado a 22 de Março, tornou-se num culto mundial e provocou em duas semanas autênticos abalos telúricos na Internet. (Expresso, 05/04/2003)

Quando o artigo foi escrito ainda a guerra não tinha começado - mas quando foi publicado já os bombardeamentos atingiam Bagdad. A edição no mundo ocidental de peças jornalísticas sobre o "blog" de Salam Pax - o pseudónimo do iraquiano que, a partir da capital iraquiana, escreve apontamentos pessoais numa base quase diária desde há meses -, com o endereço onde este pode ser lido (http://dear_raed.blogspot.com), teve consequências catastróficas para pessoas e empresas inocentes e originou a troca de incontáveis comentários sobre o caso, em todos os suportes que a rede corporiza (o mail, a web, os newsgroups e o irc, por exemplo).

Com centenas de milhar de novos leitores diários a acederem subitamente ao "blog", o servidor de imagens que lhe servia de suporte estoirou e perante as queixas dos outros clientes a empresa acabou por "fechar" os "links" das imagens colocadas por Salam Pax. Entre a "blogsphere" - a "esfera blog", novo termo que designa a comunidade de "bloggers" - suspeitou-se até de censura, coisa que a Wired depressa tirou a limpo (www.wired.com/news/culture/0,1284,58206,00.html), entrevistando Taylor Suchan, o responsável da Industrial Death Rock (www.industrialdeathrock.com).

Suchan contou a sua história: com 140.000 pedidos diários só para a meia dúzia de imagens do "blog" de Salam, os servidores entraram em negação de serviço e ele teve de toma medidas. Tudo acabou bem quando os responsáveis pelo alojamento de "Where is Raed?" (www.blogspot.com, empresa californiana que entretanto passou para as mãos do grupo Google), respondendo aos "emails" de Suchan, criaram uma conta especial para Salam alojando também as imagens oriundas de Bagdad e reforçando o sistema que sustém o "blog".

O próprio Salam Pax foi notificado do sucedido e pediu desculpa assim que pode: numa entrada no dia 24 de Março (a última a que o EXPRESSO teve acesso antes do fecho desta edição), entre a descrição dos incêndios dos poços de petróleo e uma pausa no relato dos bombardeamentos, escrevia: «mas tenho realmente de pedir desculpa às pessoas da Industrial Death Rock, porque o volume de tráfego que o meu "blog" gerou levou os servidores deles ao tapete, tenho muita pena. Tenho de ser mais cuidadoso».

Mais tarde nesse dia Salam fez nova entrada no diário, referindo: «não há palavras suficientes para agradecer às pessoas da Blogger a ajuda e suporte». Nas linhas seguintes relatava o dia a dia em Bagdad no terceiro dia da guerra. Com toda a calma do mundo.

Não se sabe quem é, se continua vivo ou foi atingido, ou se os esbirros do regime de Saddam já lhe silenciaram o modem - mas nada disso (nem o resultado final da operação militar em curso) impede que Salam seja já um herói à escala planatária. Nos dias seguintes à nossa primeira referência ao seu "blog", uma leitora recordou-nos por e-mail a história de Zlata Filipovic, a menina de 11 anos que, em pleno centro de Sarajevo, escrevia um diário quando rebentou a guerra da Bósnia, em 1992. Zlata e a família foram salvos devido ao interesse de jornalistas internacionais pelos seus relatos, que conseguiram trazê-los para França, onde uma editora publicou depois o diário - que é hoje estudado nas escolas em paralelo com o registo de Anne Frank, adolescente que também escreveu um diário de guerra na Segunda Guerra Mundial.

«Muitos serão aqueles que, como eu, vão acompanhar diariamente o Salam, à espera que continue a escrever. E que se safe. Porque é o símbolo de todos os inocentes que vivem na terra errada, na hora errada», finalizava o "e-mail" da leitora. Os dias seguintes vieram confirmar que este sentimento era não de "muitos" mas de milhões. A "blogsphere" criou em torno de Salam um manto de interesse de uma escala impossível de acompanhar. Não haverá praticamente "blog" na Internet sem uma menção a "Where is Raed?". O Google referencia 4.660 páginas com o nome do "blog" e 3.690 com o nome de Salam Pax, 47 das quais em Português.

Há já quem o defenda, e aconselhe um manto de silêncio sobre o seu "blog", para não o tornar num alvo também para Saddam (http://windsofchange.net/archives/003239.html). Também existe quem duvide da sua existência. Há teorias que apostam ser o "blog" uma manobra da contra-informação iraquiana, e outras que apontam precisamente o contrário: ser uma peça da propaganda americana preparada pela CIA. Paul Boutin, jornalista "free-lancer" colaborador do New York Times, Wired, Slate e Salon, entre outros meios, respondia no dia 20 de Março: «provavelmente» o "blogger de Bagdad" é real. Não pode apresentar provas, mas relata (http://paulboutin.weblogger.com/2003/03/20) as suas investigações, afirma que trocou correspondência com Salam Pax sob o seu verdadeiro nome (que obviamente não tornou público) e conclui que nada indica que se trate de um embuste. Pelo contrário. «Salam editou esta manhã dizendo ser falsa a notícia da BBC sobre a rádio de Bagdad ter sido tomada. Tinha razão. [...] Sim, penso que ele está realmente em Bagdad».

Quem também afirma não ter a mínima dúvida é Diane, uma "blogger" de Jerusalem que também conhece o nome do "blogger" mais famoso do planeta e afirma já não ter a mínima dúvida sobre a sua veracidade. No seu diário em http://gotham.realwomenonline.com/archives/002105.html, escrito a partir de Jerusalém, relata as relações entre ambos, nem sempre pacíficas devido à divergência de pontos de vista entre uma israelita e um iraquiano. Recebeu de Salam uma encomenda; não guardou o embrulho e destruiu os dizeres em árabe que poderiam provar a sua origem. Mas tem por ele admiração e acaba dizendo esperar um dia guiar de Jerusalém a Bagdad.

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março 21, 2004

Hoje é dia do Senhor

Deve ser por isso, pela piedade que aos domingos escorre das escadarias das igrejas cristãs até à rua, infectando os transeuntes, que os telejornais do prime time abriram com o desagradável tema, puxado inevitavelmente pelo Público, da fome que aumentou entre os portugueses. Antes e depois passaram imagens de Durão Barroso a sossegar os espíritos preocupados dos Trabalhadores Sociais Democratas, prometendo-lhes que pró ano há aumentos superiores à inflação. No Pavilhão dos Congressos Ferro Rodrigues fazia o balanço de dois anos deste governo. Ninguém ligou as duas coisas, a fome e a acção deste governo. Talvez por pudor, imagino.

Eu também vou fazer o balanço. E eu ligo as duas coisas. Ligar não significa que Barroso andou a tirar o pão aos pobrezinhos, tenham dó. Mas significa que as políticas do executivo agravaram um mal que vinha de traz. A fome é o mais evidente e perturbador mas está longe de ser o único sinal da perda de poder de compra das classes (sim... ainda há classes mesmo que o termo tenha caído em desuso) médias e baixas. De compra, de influência, de tudo. Portugal vive hoje pior do que na viragem do milénio. Exceptuando, claro está, as classes mais abastadas. As lá de cima, mesmo. Todas as outras, incluindo a burguesia abastada, sofreu. E não me venham lixar com a "herança" ou a "depressão". Há maneiras e maneiras de fazer as coisas. Olhem, Cavaco, por exemplo, fê-las ao seu way. Deixou marcos e um país melhor do que quando entrara. (Guterres deixou apenas um país mais desmazelado. Barroso vai deixar um país na merda.)

Estes dois anos foram iguais aos dois anos anteriores. Iguaizinhos -- excepto que nos dois anos anteriores houve menos desemprego, logo menos fome. Não se trata de uma questão de PS ser melhor, igual ou pior que PSD. Trata-se dos governantes. Barroso não fez coisa alguma que nos permita apreciá-lo como melhor primeiro ministro do que Guterres fora. E se o não fez em dois anos, que me desculpem os meus eventuais leitores lanrajas mas eu cá não acredito que possa fazer nos dois que faltam para acabar este penoso martírio.

O que eu acho, francamente, é que esses dois partidos, tanto um como o outro, têm certamente entre as suas fileiras gente melhor do que a que governou Portugal nos últimos quatro anos. E se estou enganado e não têm... é grave. Nesse caso acho que o país devia começar a olhar para os partidos fora do Bloco Central. Porque do Bloco Central já se percebeu tudo. É como o Sporting da primeira parte contra o Rio Ave: acham que as camisolas ganham os jogos. Isso é verdade -- até ao dia em que deixa de ser. O Sporting já passou por isso. O Benfica também. No futebol, o Bloco Central acabou muito antes da política. Deverei dizer infelizmente?

Posted by pTd at 08:38 PM | Comments (3)

Ainda as "negociações"

No Barnabé Daniel Oliveira tem uma excelente prosa sobre a guerra em curso onde pensativamente desmonta (com uma argumentação sólida e diferente da minha) a ideia de "negociações" com a Base (Al Qaeda. Leiam, leiam.

Posted by pTd at 08:26 PM

Bush

Estive a ler as notícias. Pedem a cabeça de Bush e nas entrelinhas culpam-no pelos atentados terroristas. O homem tem de facto uma impressionante folha de maus serviços, tão impressionante que dispensa reflexões. A sua contribuição para resolver os problemas do mundo e do seu país resume-se a uma palavra: contraproducente. Mas será este o momento oportuno para o despejar? Serão as actuais razões as próprias para pedir a sua cabeça? É ele o autor, ou sequer agente involuntário, dos atentatos terroristas? Resposta simples, honesta e básica às três perguntas: não. O folclore da política democrática é muito bonito e alegre e festivo e tal, não discuto, mas gera erros monumentais (como gerou Bush, de resto). Estamos à beira de mais um. Dos piores.

Posted by pTd at 02:20 AM | Comments (3)

Os humanos devem estar loucos

Sair agora do Iraque vai resolver alguma coisa seja onde for?

O povo iraquiano fica melhor sem os ocupantes? Os ocupantes ficam melhor se sairem de lá? A tua consciência fica aliviada, leitor? O terrorismo fará tréguas? O Ocidente terá tréguas? Ressuscitarão os mortos dos atentados de Nova Iorque, Bali, Madrid? As famílias dos mortos sentir-se-ão reconfortadas? Vingadas pela justiça?!?

Não estive a favor da intervenção no Iraque. Não comi o bullshit talk de BBAB (Bush, Blair, Aznar e Barroso). Não acreditei um milésimo de segundo que fosse nas razões apresentadas para a intervenção militar. Não estive nem estou do lado deles.

Mas -- foda-se! -- não se abandona um trabalho a meio. Ao menos que se deixe o povo iraquiano com uma base mínima para poder amanhar-se sozinho em democracia, ou no que escolherem como modelo de governação que seja legítimo e não afronte a vizinhança, antes negoceie os seus bens com ela, para todos sairem a ganhar. Ao menos isso: salva-se um pouco a face do Ocidente interventivo e marca-se um ponto na luta contra o terror. Deixar o trabalho a meio, o que nos traz? Um buraco no barril de pólvora do Médio Oriente. Um buraco à medida para um pau de dinamite made in Afeganistan.

Não sou solidário com a Direita que anda a dizer o mesmo que eu. Tive e mantenho pontos de vista distintos. Parto de premissas diferentes. Não me incomoda dizer o mesmo que Paulo Portas. Também não me incomodou dizer o mesmo que o seu irmão e meu ex-colega Miguel na altura da partida para Bagdade (e noutras...). Dizemos algo parecido: sair do Iraque não passa de uma cedência histérica ao terror. O "histérica" acrescentei eu. Mas as razões da frase são distintas. Nada disto interessa porém. Nesta altura não me parece que as diferenças e distinções contem seja para o que for. Deixo a nota para que não haja confusões nos espíritos gauche que me leiam e lhe nasça o ímpeto de comentarem a unidade pontual de discurso. Comentar o acessório é perder tempo.

Posted by pTd at 01:21 AM | Comments (1)

Os arrependidos das FP11

A figura do arrependido é conhecida e até querida nos meios policiais e nos tribunais. Consiste num ou mais membros de um gang, seita ou organização criminosa que subitamente mudam de campo e, a troco da limpeza ou amenização dos seus "pecados", da sua salvação, entregam toda a quadrilha.

A começar pelas portuguesas FP25, muitas organizações em todo o mundo foram desmanteladas graças à figura do arrependido, legitimada pelo direito em vigor ou apenas pelo senso dos investigadores. Em geral os arrependidos são bem vistos e perdoados. Do mal o menos, julga o povo. Certamente com razão.

Mas a guerra global à ameaça global não é propriamente um cenário de tribunal. Não há um juiz, não há advogados de defesa e acusação, não há sequer inspectores da Judiciária benevolentes e interessados em desmantelar uma rede criminosa. Não há civilização, há apenas barbárie. Pelo que não me parece de todo útil a figura do arrependido das Forças Populares dos dias 11 (Setembro e Março), os que agora trocam abertamente de campo ou pelo menos abrem a possibilidade de trocar. Não há troca alguma. Sendo moderna nas armas e estratégias, esta guerra não passa de uma guerra igual às outras sangrentas guerras que a Humanidade atravessou tantas e tantas vezes em 25 séculos. Igual numa coisa imutável através dos tempos: os vencedores tratarão impiedosamente os vencidos e ter um autocolante de arrependido na lapela não vos salvará a pele.

Posted by pTd at 01:08 AM

Terrorismo, 5 - Forças do "Bem", 1

Este sábado, dia 20 de Março, disputou-se mais uma jornada do campeonato em curso. Nos media portugueses, do papel à blogosfera passando pelas ondas hertzianas, um antigo e prestigiado guarda-redes da selecção nacional disse que talvez fosse boa ideia fazer um pacto com o adversário. A coisa caiu mal em geral, o que é compreensível. No entanto, alguns médios-ala esquerdinos não acharam a ideia um disparate total.

Essa antiga glória não está de resto sozinha, nem sequer foi a primeira voz a fazer-se ouvir internacionalmente sobre a matéria. O colégio de treinadores adversários ficou a rir-se e voltou a erguer as taças de champagne. Os seus jogadores têm empurrado a equipa das Forças do "Bem, bem como os seus apoiantes, para o desespero total. Em incontáveis capitais e cidades do mundo dito civilizado milhões de adeptos sairam à rua envergando bandeiras e cachecóis e exigindo a interrupção do prolongamento do jogo que se arrasta no estádio do Iraque, ao mesmo tempo que pedem a cabeça dos treinadores da equipa Forças do "Bem".

Nem sequer é preciso ser entendido na matéria para perceber que foi mais um golo do terrorismo, colocando o resultado em 5-0.

Porém, as manifestações tiveram uma virtude. Lançaram uma semente de esperança num golpe contra-ofensivo, dando um sinal inequívoco de que os adeptos ainda querem ganhar o jogo e estão dispostos a usar os meios necessários, sejam eles quais forem, para alcançar o objectivo. Não se tratou de um daqueles lances de provocar o gáudio geral, mas que é golo, é. O primeiro golo das Forças do "Bem" foi um golo mortiço, quase despercebido, contra a corrente do jogo - mas foi golo e isso é que conta.

Marcada efectivamente pelo primeiro golo dos "benzinhos", a jornada termina no entanto sem glória. A cabazada ganha contornos nítidos. Cimenta-se. Prova-se que a estatégia da equipa técnica das Forças do "Bem" está totalmente errada. Depois do primeiro golo, a 11 de Setembro de 2001, a planificação foi um total desastre: desde então o adversário fez não só mais quatro golos como provou ser capaz de ultrapassar as defesas quando, onde e como quis, realizando um grande número jogadas de ataque -- salvas a muito custo sobre o risco da baliza pelo heroísmo dos defesas locais. É por isso que agora a estatégia começa finalmente a ser contestada pelos adeptos, que durante este tempo todo a apoiaram. Um tanto tardiamente e pelos piores motivos, com a cobardia à cabeça -- mas começou a contestação à actual orientação técnica.

Cabe aqui lançar um alerta. A história prova que as chicotadas psicológicas muito raramente -- só mesmo excepcionalmente -- dão fruto. Não é a mera mudança de treinador que vai salvar os equívocos de uma época inteira. Ainda menos quando são feitas sob pressão dos resultados... A política de aquisições sobre pressão deu sempre maus resultados: só se pode comprar o que está disponível no mercado. Por outras palavras: só se compram segundas escolhas, pois os bons treinadores estão tomados. Ou seja: apesar do nosso primeiro golo continuamos a levar uma cabazada e não se perfila no horizonte forma alguma de dar a volta ao jogo. Pois se até já há quem fale em desistir e resolver o jogo na secretaria... como se o adversário, que está a ganhar no terreno, vá nessa conversa... Francamente.

Posted by pTd at 12:30 AM | Comments (1)

março 19, 2004

Hoje é dia de blues

(a rádio lá fora) hoje está a emitir um especial Blues em stereo a 56kbps (qualidade superior a rádio FM). São 50 faixas, algumas delas recuperadas de vinis antigos. Não há um único ficheiro sacado da Kazaa ou outros P2P. Escutem (a rádio lá fora) em regime experimental e dêem notícias aqui nos comentários. AS 3:54 horas de Blues saem do meu portátil caseiro através da placa wireless e passam para a Internet pelo modem Netcabo. Dado que o stream está nos 56 kbps, é provável que mais de cinco "ouvintes" em simultâneo engasgue um bocado. Por isso o vosso feedback é bem vindo.

(PS: se o endereço acima não abrir, no problema: entre por aqui e carregue em Listen)

Posted by pTd at 03:45 PM | Comments (9)

março 15, 2004

Outras crónicas sobre o "campeonato" em curso

Dois textos altamente recomendáveis sobre a "mudança à esquerda" nas eleições de Espanha e o que dela podemos e devemos esperar, a Europa e o terrorismo: de Rui Tavares no Barnabé, e entrevista de Olivier Roy ao Libération reproduzida no Público.

Posted by pTd at 02:09 PM | Comments (1)

Terrorismo, 4 - Forças do "Bem", 0

O terrorismo está a dar uma monumental cabazada às Forças do "Bem", sendo o último golo um portento daqueles à Luís Figo ou Zidane. Recapitulemos o filme deste campeonato sórdido em que a assistência dá mostras de ser bastante mais hipócrita e cega, ainda, do que as multidões do futebol.

A 11 de Setembro de 2001 marcou o primeiro golo no horrendo disparo de dois balázios contra as Twin Towers, que só ruiram com a recarga. Um golo no estádio do adversário custa sempre a engolir pelos da casa. O "treinador" do "Bem" prometeu um segundo tempo diferente, de forma não só a recuperar a desvantagem, mas até a ganhar depressa o jogo. Atirou-se ao Iraque como gato a bofe, convencendo os adeptos de que ganhando o "meio campo" inimigo ganhava o jogo.

Foi uma tática errada. O segredo do adversário não estava, afinal, nos seus centro-campistas, um bando de coxos maltrapilhos que servia apenas para disfarçar o veneno dos médios-ala e o killer instinct dos avançados. Embora ocupe o meio campo, não evitou que repetidos contra-ataques da equipa terrorista semeassem o pânico nessa zona do terreno, sacrificando os terroristas os seus homens do miolo à estratégia global: ganhar o jogo. Os atentados na capital e noutras cidades ocupadas matam civis e militares das duas "equipas". 2-0 a favor do terror.

Na terceira mão da eliminatória, disputada há décadas no hostil ambiente da Faixa de Gaza, as repetidas incursões por uma e outra área de baliza, com sucessivos cantos ganhos quer por um quer por outro contendor, a equipa do terror volta a somar pontos. O pânico marcial e o desentendimento absoluto que se apoderou de Israel e da Palestina é um autêntico auto-golo, provocado por uma das mais antigas formas de ludibriar uma equipa: pressioná-la levando-a a cometer erros defensivos.

A semana passada em Madrid, jogando desta vez em casa de um adversário demasiado confiante por ainda não ter perdido em casa (pudera: ainda não se estreara o seu "estádio") e o terrorismo marcou o mais espectacular dos seus golos. Enquanto os centrais das Forças do "Bem" continuavam inexplicavelmente a marcar um jogador cansado que já fora relegado para o "banco", a equipa do terror mandou entrar em campo uma das "armas secretas" que alinhara como suplente. Convém dizer, aliás, que esta "equipa" tem recursos inesgotáveis no "banco", com jogadores sempre prontos a entrar em acção e a morrer em campo pela equipa.

A arma secreta desferiu um golpe magistral em pleno coração da área. O golo foi tão pavoroso que se traduziu na morte de 200 e ferimentos em mais 1700 membros da assistência. Porém, o 4-0 interessa menos pelo golo em si, decorrendo a sua transcendental importância dos danos infligidos à "equipa" contrária. Os adeptos da casa entraram em histeria colectiva e exigiram a substituição de um dos treinadores adjuntos das Forças do "Bem", que até aí fizera um bom trabalho, pontuado apenas por alguns deslizes na comunicação com a comunicação social. É injusto afastar um técnico competente por um erro menor, mas este tornou-se um jogo sem ética -- tal qual a estatégia do terrorismo pretendia. A equipa técnica das Forças do "Bem" está desorientada. Não se entende entre si. Os desentendimentos quanto a táticas saem do balneário para a praça pública. No outro lado, o invisível Grande Treinador ri-se com os seus botões: tem o adversário precisamente onde queria, encostado às cordas, desorientado, com as claques, dos Ultras da bancada da Esquerda até aos Orange Boys da bancada da Direita, a gritar umas contra as outras em vez de seguirem as peripécias do jogo e se unirem no apoio aos seus "jogadores".

A equipa técnica das forças do "Bem" tem agora de assimiliar mais um elemento cuja capacidade está minada à partida: a coptação forçada retira-lhe margem de manobra; ao primeiro deslize a sua cabeça será pedida pelos influentes amigos do técnico injustamente substituído; o seu lugar estava destinado a outro técnico, da mesma ala do anterior; não é a competência que está em causa, mas a sua legitimidade para a função, uma vez que quem o pôs lá fê-lo numa reacção institiva do coração, e não por uma atitude razoável. Não passa de carne para canhão.

Posto isto, o campeonato prossegue sem que se vislumbre como vai a equipa das Forças do "Bem" dar a volta ao resultado desfavorável e recuperar tão dilatada desvantagem no marcador. Os seus estrategas não parecem acertar com a melhor tática de anular os extremos dos terroristas. Não têm nenhum jogador no plantel capaz de fazer a diferença no um para um. Os adeptos estão perigosamente desiludidos e espera-se até o pior: que convoquem assembleias gerais sangrentas para por em causa o executivo e até a organização estrutural do clube.

Do lado do terrorismo, prossegue a política de black-out à comunicação social pelo que nada se sabe da sua estratégia futura: faz parte do objectivo final, que não é apenas ganhar: trata-se de destruir o adversário, não deixar pedra sobre pedra no seu estádio, desfazer a SAD e abrir caminho a algum mecenas que "salve" o clube através do despotismo.

Os tempos estão maus; o campeonato está a ser perdido em cada jornada que passa. A equipa das forças do Bem não conseguiu sequer ganhar um canto ou forçar um livre na proximidade da grande área adversária. E a sua defesa vai de mal a pior, de desorientada que está. A mim o que me vale é a lição aprendida enquanto adepto do Sporting: sei o que é sofrer mas a esperança não morre e continuo a acreditar que um dia a turma Forças do "Bem" vai ganhar o campeonato.

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março 13, 2004

Madrid

A intriga da política local que por estas horas decorre em Madrid em frente à sede do partido que ainda é governo nada me interessa. Interessa-me ver como a política está a condicionar a investigação policial do atentado, já de si uma tarefa humanamente impossível.

Saber se os executores do atentado aos comboios são da ETA ou da Al Qaeda é importante. Mas não é o fundamental. O fundamental é que a guerra planetária em curso entre ricos e pobres, chamada pelos primeiros de guerra ao terrorismo, chegou à Europa. Aqui ao lado. É uma guerra entre duas partes do mundo, cada uma lutando pelo mesmo objectivo -- sobreviver -- e cada uma lutando com armas absolutamente diferentes. A tecnologia dos ricos contra a organização e inventividade dos pobres.

O fundamental é entendermos que vivemos em guerra. Penso que o atentado de Madrid é suficientemente importante para levar os europeus a deixarem de fazer de conta que a guerra em curso não existe, que é uma invenção de líderes políticos como Blair e Aznar, meros subordinados de Bush.

A frieza e a racionalidade da matança, perpetrada no sítio certo no timing perfeito, indicam claramente o inimigo. Quem fez isto é quem está empenhado em minar o sistema político democrático e a sua estrutura económica capitalista. O dia 11 é simbólico: aponta a Al Qaeda. Iá... É tão óbvio... Eu, se fosse um terrorista, tiraria partido da data. O terror espalha-se assim mesmo, amedrontando o outro, tirando-lhe o tapete, fazendo-o vacilar nas suas convicções, gerando a maior confusão e ruído possíveis. Uns contra os outros a discutirem acesamente a minha identidade misteriosa, é mesmo o que eu quero.

A escolha da véspera das eleições é, porém, bastante mais importante e revela a inteligência do oponente (que está a ser menosprezada pela opinião publicada). As bombas mataram 200 pessoas e feriram de morte as eleições espanholas, envenenaram o processo de tal forma que não há saída airosa disto para nenhum político espanhol, do PP ao PSOE aos bascos. Do ponto de vista do inimigo, foi uma manobra praticamente perfeita: o povo espanhol reagiu como se esperava e 48 horas depois a "culpa" é do sistema, e não dos autores reais, a democracia espanhola está em perigo, incendiada, e uma lança foi metida na Europa.

Faltou-lhe a grandiosidade simbólica que se adivinha no que não aconteceu: limpar do mapa de Madrid a estação de Atocha. Como as torres de Nova Iorque. Aí houve simbolismo sobretudo, mas não se atingiu vitalmente nem a democracia nem o capitalismo. Em Madrid o alvo é óbvio ,as intenções mais ainda -- e os efeitos bem maiores.

Posto isto, continuem barnabés dum lado e abruptos do outro a discutir as minudências da small politics. Eu vou fazer o jantar.

Posted by pTd at 09:19 PM | Comments (21)

Os blogues do Interior

Estão a ganhar terreno na blogosfera: promovem e debatem vilas e cidades do Interior, colmatando as deficiências informativas regionais.

(Texto publicado no Expresso de sábado, 13 de Março, e aqui reproduzido a pedido de várias famílias...)

binterior.jpg

Com 167 comentários em sete dias e mais de 500 no total, o Sadinos (www.sadinos.weblog.com.pt) é um dos mais participados blogues portugueses. Tem apenas dois meses meses de existência, tempo suficiente para o tornar num website de referência para a região de Setúbal. É um dos bons exemplos de como os blogues de carácter regional estão a mudar a forma de comunicação - e em alguns casos de intervenção - nas regiões afastadas dos principais centros urbanos. «Na única vez que reunimos, num almoço, quase todos os "redactores" do blog, ficámos a conhecer reacções. Há até um caso em que a Câmara Municipal foi de imediato alindar um jardim que havia sido alvo de um "post"», referiu ao EXPRESSO a dupla responsável pelo Sadinos, Paulo Simões e Jorge Santos.

Um pouco mais abaixo, em Beja, passa-se o mesmo. O blogue Praça da República (www.pracadarepublica.blogspot.com) distinguiu-se como um espaço de crítica e debate dos problemas da cidade. O seu autor, João Espinho, recorda que tudo começou no dia em que decidiu publicar no blogue, que era (e continua a ser) o seu espaço opinativo pessoal, algumas críticas pessoais à intervenção do POLI em Beja. «Até então (Verão de 2003), só muito pontualmente se ouviam críticas, e estas eram oriundas dos arqueólogos. Depois houve a "crise PSD/Beja", quando o directório PSD Distrital vem para as rádios dizer que vai instaurar processoas disciplinares a militantes seus tendo em vista a sua expulsão».

Espinho escreveu sobre o assunto, as suas opiniões foram comentadas e o blogue desceu da Internet até à Praça da República propriamente dita, levando o debate aos cidadãos. Quando tomou consciência de que o seu humilde blogue estava a dar que falar em Beja sentiu «que o blog estava a ser visto já não como uma simples página de desabafos, tipo diário, mas como mais um meio de informação. Comecei a ter "feedback" de vários quadrantes. E a caixa de correio começou a encher-se de mails anónimos - uns a criticar as minhas posições, outros a pedirem para denunciar determinadas situações. Não publiquei nada do que me mandaram. (só publiquei um e-mail em que eu era acusado de andar a perseguir os comunistas)».

Histórias como esta repetem-se cada vez mais por todo o Interior do País, longe de Lisboa e Porto. Tirando partido das ferramentas simples e poderosas dos blogues, vários editores fizeram páginas que, sem perderem os tiques de diário de autor, surgem como um complemento à informação regional ou local. Luis Tata, um dos editores do Blog do Alandroal (http://alandroal.blogs.sapo.pt), explica: «Nota-se por parte da população um grande entusiasmo em relação ao "blog" e aos seus conteúdos. Numa localidade como o Alandroal em que o acesso a meios de comunicação local, como os jornais e as rádios, é muito limitado, para não dizer mesmo inexistente, o Blog do Alandroal desempenha muitas vezes essas funções, levando a população a uma maior interacção com a Internet e em especial com a blogoesfera. Mesmo os que não possuem computador participam e tomam conhecimento sobre os temas tratados no Blog, uma vez que as páginas são imprimidas por muitos particulares que as fazem circular entre os grupos de amigos».

Luis Tata chama ainda a atenção para outro fenómeno: «participação de naturais do Alandroal residentes noutras áreas geográficas, aos quais o "blog" veio permitir uma ligação diária à sua terra natal». Tradicionalmente a função de aproximação dos "emigrantes" à sua terra foi desempenhada pelos jornais regionais, através das assinaturas. Mas os blogues têm duas vantagens sobre os jornais: são de distribuição instantânea e permitem a interactividade, a participação. E quanto menor é a localidade ou a região, mais importante se pode tornar um blogue virado para ela.

É o caso de Ourém, que viu nascer em Janeiro O Castelo (http://o.castelo.vai.nu). Redigido por um grupo de oito amigos a quem as profissões levaram para fora do concelho, e que não se revêem no jornalismo regional, visa «a discussão de qualquer assunto sobre Ourém e o seu concelho, portanto o âmbito é local embora não se pode descurar a característica regional onde se insere Ourém e suas vizinhas: Fátima, Leiria, Tomar, etc. Claramente que podemos defender causas locais, mas O Castelo é sobretudo um blog feito por várias pessoas, com várias opiniões e é nesse mosaico de idéias que queremos afirmar a nossa diferença», explica um deles, Frederico Marques. Que realça: «queremos sobretudo que O Castelo não seja conotado com o propósito único do objectivo político. Somos um fórum independente, cívico e apartidário em termos de identidade».

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março 12, 2004

Atentado de Madrid em destaque no weblog.com.pt

Acabo de criar no weblog.com.pt uma secção especial sobre o atentado de Madrid inaugurando a renovação da secção Jornal, que passa a partir deste momento a ter um novo formato, mais informativo e virado para a actualidade. Os temas transversais da blogosfera e dos media serão ali seguidos da forma possível, em tempo quase real, graças às tecnologias associadas aos RSS, bem como a algum clipping feito na casa.

Este Especial agrega todos os posts dos blogs residentes que falem do atentado e de terrorismo, juntamente com um clipping do tema à escala planetária (ainda em fase de testes) e também o rastreamento de fontes portuguesas como a Lusa, a RTP e o Público.

Com esta (apressada, porque prevista para outra altura) estreia homenageio o povo espanhol e manifesto a minha solidariedade para com as famílias das vítimas do atentado de 11 de Março em Madrid.

Posted by pTd at 01:03 AM | Comments (1)

março 11, 2004

iMmortel

Não resisto a publicitar também, aqui, a "descoberta" de Turing Machine do filme de Enki Bilal, Immortel. Bilal é fascinante. O teaser promete. As animações Flash são simplesmente espantosas. Afinal há cinema depois de Matrix :)

Posted by pTd at 06:48 PM | Comments (1)

Com uma letrinha apenas...


(quem não aceita os embeded tem aqui o link)

Posted by pTd at 06:04 PM | Comments (3)

março 10, 2004

O erro de Ferguson

Sir Alex cometeu um erro que valeu ao Manchester United ser eliminado. Com a vantagem de um golo fora, teorizou sobre as fraquezas do adversário («são uns fiteiros»). Era uma questão de tempo até o United, no seu inferno de Old Trafford, marcar um golo e passar para a frente da eliminatória. Quando o fez, surgiu o erro: menosprezou a capacidade do adversário de recuperar. Já no Porto o FC Porto tinha dado a volta ao resultado passando de 0-1 a 2-1. Uma equipa capaz de recuperar uma desvantagem frente em Manchester United tem de ser levada em conta pela sua persistência. Fitas, arbitragens e guerra de palavras são fait-divers: o que conta no futebol é marcar mais um golo. E entre contendores de elevado nível a diferença constrói-se pela atitude. A atitude fez a diferença nesta eliminatória. Ganhou a equipa que melhor atitude teve. Essa foi a diferença, porque em termos de futebol-futebol, qualquer uma das duas equipas podia ter vencido uma eliminatória de grande nível sem deslustre para o perdedor.

Que os próximos adversários do FC Porto aprendam com o erro de Ferguson. O FC Porto não é equipa que se menospreze. Disse tudo: equipa.

Posted by pTd at 07:12 PM | Comments (6)

Ainda as Gajas (e os paus)

Escreveu a leitora Maria Ramos, nos comentários a O Dia Das Gajas, alguns factos brasileiros e mundiais a propósito. Aqui ficam, comentados.

«As mulheres constituem, hoje, 30% "dos" chefes de familia,
mas ganham, em média apenas 65% do valor dos salários dos homens. A situação das mulheres negras é ainda mais grave, pois chegam a receber salários que representam a metade do valor recebido pelas mulheres brancas.
»

Portanto, dá-me razão: a ONU devia sagrar não apenas o Dia Dos Pretos (ou Negros) como ainda o Dia Das Mulheres Pretas, para termos mais uma jornada de luta contra os explorados pelo capital. Quantos mais Dias de Luta por Justiça Social, melhor. Vivam!

«Além dessas condições a que estão submetidas, muitas mulheres enfrentam a dupla jornada de trabalho, porquanto assumem, além do emprego fora de casa, a responsábilidade integral pelas tarefas domésticas e o cuidado aos filhos.».

A quem o diz! Depois de me ter deitado uma hora mais tarde do que o costume por ter ficado a fazer máquinas de loiça e roupa e arrumar o quarto da minha filha, bem como a roupa cá de casa, de de ter acordado uma hora mais cedo do que o costume para lhe fazer o almoço, de ter deixado o fogão coberto de líquido anti-gordura, de a ter ido levar à escola, passando de caminho pelo pavilhão a ver se a inscrevo no basquetebol (estive a falar com a professora de ginástica dela), de ter chegado a casa e limpo o fogão, sento-me finalmente para trabalhar. Passo pelo meu blog e leio o seu comentário e fico na dúvida: deverei mudar de sexo, para poder reinvindicar a trabalho doméstico igual, salário igual? Ou deverei pedir ao Estado (à ONU, talvez...) um subsídio de 65% porque além de trabalhar como um homem macho ainda cumpro as tarefas domésticas e familiares que pelos vistos não são minha responsabilidade?

«Ocorrem 4 milhões de abortos por ano, dos quais 10% das mulheres que o fazem, morrem em consequencia das precarias condições nas quais os mesmos são realizados.».

Já aqui escrevi tudo o que tenho a dizer sobre o aborto. Obrigado pelos seus números. O meu blog não é lido nem tomado em conta pelos poderes políticos portugueses. Nem esses seus números, que são evidentemente falsos... Pergunte a um dos eminentes membros do clero ou do Partido Popular (até mesmo do Partido Social Democrata) e verá como são prontamente desmentidos. 400.000 mortas por ano, que é isso comparado com a necessidade da demagogia na caça ao voto?

«A cada 4 minutos uma mulher é vitima de algum tipo de agressão em distintas classes sociais.».

A cada 4 minutos um homem é vítima de algum tipo de agressão em distintas classes sociais, em distintos empregos, em distintas famílias.

A cada 4 minutos um homem sofre lesões físicas graves no local de trabalho.

A cada 4 minutos uma criança é vítima de algum tipo de agressão.

A cada 4 minutos desaparece um hectare de floresta.

A cada 4 minutos é extinta uma espécie animal.

Descubra as diferenças. (Uma pista: um dos referidos não tem um Dia Do).

«São fatos como esses que fazem desse dia um dia de luta, para que a diferença biológica que destingue um homem de uma mulher não seja justificativa para a intolerância, a opressão, a desigualdade de direitos e diferentes formas de violência a que as mulheres são submetidas.»

A intolerância, a opressão e a desigualdade de direitos resultam do exercício dos poderes económico, político e religioso. A secular exploração do Homem pelo Homem sempre afectou uma parte substancial da Humanidade. Por parte substancial entenda-se mais de 80% da Humanidade.

As diferentes formas de violência sempre foram exercidas sobre os desfavorecidos -- independentemente do género sexual, classe social, coeficiente de inteligência, idade, etc. Todas as minorias (incluindo o homem branco caucasiano, que não passa de mais uma minoria) levaram secularmente porrada e secularmente revoltam-se contra o dono do pau. (Revolta sem grandes efeitos de fundo, diga-se de passagem.)

Meter as diferenças biológicas ao barulho, em pleno século XXI, a meu ver serve unicamente o propósito de perpetuar a exploração das minorias através da desinformação, do atiçamento de uns contra os outros, do desvio das atenções do verdadeiro cerne da questão.

Não é por ser homem que é o homem quem bate com o pau. É: quem tem o pau é que bate porque tem o pau. Faço-me entender?

(PS: o princípio da desigualdade, das desigualdades, assenta imortalmente na acumulação de riqueza. O resto é paisagem.)

Posted by pTd at 05:21 PM | Comments (4)

março 09, 2004

Como as notícias se propagam na Internet

É um infográfico genial de Stephen van Dyke que nos mostra com clareza o método de propagação das notícias pela Internet. Espreitem, vale bem a pena! (via von Freud e bOING bOING)

link

Posted by pTd at 12:32 AM

março 08, 2004

Narciso

Vamos lá ver. Eu gosto do Barnabé. Acho que é um bom blog, escrito por pessoas educadas e cultas. Acho até mais que isso: veio preencher dois espaços vazios. Um, na chamada blogosfera, promovendo o livre debate de ideias à "Esquerda". Outro na política, abrindo o espaço para o novo pensamento à Esquerda, que está hoje muito longe da Esquerda portuguesa histórica, representada no espectro partidário pelo PCP e pelo PS. Não me revendo totalmente nesse espelho (estou a passar o prazo de validade...), julgo que o novo ideário da Esquerda portuguesa moderna é útil e necessário ao futuro político do País. E estou a falar a sério.

Mas confesso-vos: por vezes o tom irrita-me. Percebo que seja motivo de celebração haver um blog contra o Barnabé. Vaidade. Caros co-autores do Barnabé, não haverá por aí uma ponta excessiva de narcisismo?

Posted by pTd at 10:17 PM | Comments (11)

O dia Das Gajas

Os programas foleiros das manhãs e tardes televisivas encheram-se de gajas a fazer foleirices e a dizer foleirices sobre o Dia Internacional da Mulher. Compreende-se: lá porque era o Dia Delas, os programas não podem deixar de ser foleiros, tolos e vazios. O show de glamorosa infelicidade que, por esta mesma hora, escorre da SIC Mulher, com uma selecção do que de melhor temos em telelixo, deprime-me até ao vómito: o Dia Da Gaja virou uma celebração sexista totalmente idiota.

Passo para a Dois e Alberta Marques Fernandes tira-me da depressão profunda causada pelo enjoo de cor-de-rosa inócuo. Uma boa peça sobre o livro Vozes Insubmissas, de Lígia Amâncio e Isabel do Carmo ( link)-- com esta a apresentar o conteúdo do livro, que é um levantamento de 11 personalidades, mulheres e homens que, nos séculos XVIII e XIX, protagonizaram a luta pelos direitos das mulheres na Europa -- é uma lufada de ar fresco. Obrigado, Isabel do Carmo, pela sensatez. Seguiu-se uma entrevista no estúdio com a directora da RDP que também alinhou pelo discurso sensato.

Para um gajo farto da lamechice generalizada deste tipo de "Dias", ouvir pessoas a elaborar frases com nexo, cuidadas e positivas sem recorrerem ao patético discurso do queima-soutien nem ofender a testosterona, é um alívio.

Hoje o Dia Das Gajas faz um sentido: o sentido da luta pela igualdade social, o combate à desigualdade no (des)emprego. Right. À atenção da ONU: dentro do mesmo espírito fazem falta um Dia Do Gajo, um Dia Do Preto, um Dia Do Desempregado, um Dia Da Desempregada, um Dia Do Emigrante De Leste, um Dia... (preencha você mesmo, caro leitor).

(Pronto: eu tinha de escrever sobre isto...)

Posted by pTd at 10:02 PM | Comments (9)

março 04, 2004

A formiga está de volta, viva!

já foi no dia 25, discretamente, mas só hoje notei graças ao Francisco José Viegas. A Antcolony voltou ao activo! A Formiga de Langton renasceu! Tanto se fala da taxa de mortalidade nos blogs. Talvez devamos começar a falar também na taxa de renascimento :)

http://a-formiga-de-langton.blogspot.com

Posted by pTd at 02:42 PM | Comments (1)

Deco: eles sabem o que fazem?

A propósito de um estudo da Deco sobre os serviços Internet em Portugal, publicado na revista Pro-teste deste mês, o Rui Curado Silva considera oportuna a pergunta feita pela revista: Velocidade tartaruga por lebre?

Amigo Rui, eu li o estudo e mandei umas sonoras gargalhadas. Não vou defender que a qualidade de serviço dos ISP é boa, e muito menos rebater os pontos do estudo que considero pertinentes, como os relativos aos contratos e à assistência técnica. Ri-me, sim, dos testes de velocidade. E pergunto: será que a Deco sabe mesmo o que faz?

Desculpar-me-ás ser politicamente incorrecto, mas não tenho pela Deco o bovino respeito que aparentemente a maioria dos consumidores dedica a tal "deus" que veio à terra para os defender dos bad guys. Cá para mim, a Deco é primeiro uma máquina de fazer dinheiro igual ou até pior que muitas outras, e só em segundo lugar uma associação de defesa do consumidor a cumprir uma aplaudível função. Opiniões à parte, que são sempre discutíveis e não me apetece ir por aí (género, e quem fiscaliza a Deco?),nesta matéria tenho as maiores dúvidas sobre a efectividade do estudo de velocidade.

Eu fiz vários testes, ao longo dos últimos dois anos, acompanhando a evolução dos serviços de banda larga para um cliente. Fiz e pedi testes a técnicos independentes. E só te digo isto: as velocidades medidas andam muito acima das observadas pelo estudo da Deco. Tenho mesmo casos de dois ISP (um de cabo, outro de ADSL) onde as velocidades de download chegam pontualmente a superar as anunciadas.

Qualquer anormal sabe que a velocidade não depende só do ISP. Na maioria dos casos depende do estado das ligações ao servidor do qual está a puxar o que quer que seja, bem como da capacidade intrínseca desse servidor e da carga que ternha nesse momento.

Ó Rui: os testes de velocidade da Deco são para rir! Eu não confio neles. Ponto. Portanto, respondo assim à pergunta do teu post: não chegam a ser ladrões de serviço, embora a qualidade dos seus serviços deixe a desejar, sobretudo quando levamos em conta a relação qualidade-preço e a comparação com outros mercados.

Posted by pTd at 02:22 PM | Comments (14)

Golo de Torres

Francamente, não partilho da opinião generalizada de condenação das atitudes de Avelino Ferreira Torres no estádio com o seu nome. Eu, se tivesse um estádio com o meu nome, e a minha equipa jogasse mal, era capaz de desatar aos pontapés aos bancos do estádio com o meu nome. Concedo que não é uma atitude que fique bem na fotografia. Mas o politicamente correcto não serve para nada, excepto para conversas de renda nos salões de chá. Vão bardamerda com esta discussão. Não defendo o homem nem lhe vou por uma estátua. Mas francamente não alinho na condenação. Teve um passanço durante um jogo de futebol. Só isso.

Ainda bola: melhor que Avelino esteve realmente o gigante Moreira. Um herói no frio. Reproduzo aqui o doce que deixei à avozinha: «De acordo. Foi o herói do jogo. E não foi a primeira nem a segunda vez. Está no Benfica o melhor guarda-redes português da actualidade. O tempo dos Baías chegou ao fim. Até o guarda-redes do meu clube não aguentará a titularidade na Selecção Nacional para além do Europeu. Vai uma aposta?

(Moreira faz-me lembrar Bento, versão 2.0, modernizada.)».

Também melhor (esta é retroactiva mas mais vale tarde que nunca) esteve a equipa do FC Porto contra os ingleses, na semana passada. Foi um jogo de encher o olho. Não sou adepto do clube nortenho, como é sabido. Mas sei ver um bom jogo de futebol. E sei aplaudir. Aplausos públicos para a equipa e treinador, depois de ter dado os parabéns pela grande joga a um dos seus conhecidos adeptos por discreto SMS logo no final do jogo.

Posted by pTd at 03:45 AM | Comments (3)

março 03, 2004

Pst pst... eu também quero falar sobre o aborto, posso?

A Catarina, 11 anos, perguntou-me de chofre quando íamos para o concerto dos Limp Biskit: «pai, és a favor ou contra o aborto?».

Respondi-lhe mais ou menos isto. Filha, NINGUÉM pode ser a favor do aborto. Essa pergunta está mal formulada. O que tu queres realmente saber é se eu sou a favor ou contra a lei sobre o aborto. Sou contra a actual lei e sou contra qualquer lei que criminalize, sob qualquer formato e pretexto, a mulher que faça um aborto e as instituições a que ela precise recorrer para tal. Serei a favor de um pacote legislativo que abra às mulheres e homens o leque de alternativas e sobretudo retire ao acto de abortar as cargas ideológica e religiosa, as quais o acto e os envolvidos manifestamente dispensam.

Filha, quase todas as mulheres adultas que conheço fizeram pelo menos um aborto. Pela actual lei, bem como à luz da lei que alguns sectores da sociedade querem fazer aprovar, todas essas mulheres são criminosas. Tu conheces algumas delas, diz-me lá, achas que é justo considerá-las criminosas e serem julgadas como tal? A maior parte não fala disso, como é natural. Não é coisa de que se fale assim com facilidade. Não se remexe nas feridas. Se ainda por cima há o risco de serem tidas por criminosas, ainda menos elas vão querer abrir a boca.

Pelo que sei, nenhuma o fez por gostar disso. Fê-lo por imperiosa necessidade. Quem estipulou essa necessidade não fui eu: foram elas, foi a vida, foi o momento, sei lá, há um conjunto de razões, todas do foro individual e grande parte delas de ordem médica, para se tomar a decisão de ter ou não ter um filho. Ninguém pode estipular a necessidade de uma mulher fazer ou não um aborto, excepto ela própria (com ou sem recurso à posição do parceiro, se ele estiver por perto; nem sempre está, o que aliás é uma das razões para uma mulher não querer ter esse filho, mesmo que deseje ter um filho). Ninguém.

Filha, para alcançar o objectivo -- social, humana, sanitaria e civilizadamente necessário -- de diminuir o número de abortos é preciso abordar a questão de outras formas. A educação sexual e a informação em primeiro lugar. Em segundo, tirar as cargas política e religiosa associadas a uma questão que não ultrapassa os limites do indivíduo, quando muito do casal. Em terceiro lugar, dar aos edifícios médico e social a indicação (eles já sabem o "como", só precisam de uma indicação "de cima", das "chefias") de lidarem com o aborto pela perspectiva sanitária. Que vai do apoio psicológico às candidatas a abortistas ao apoio clínico normal em qualquer situação médica.

Não é por estabelecer limites de mais ou menos "semanas" que uma lei vai melhorar uma situação. Essa lei nunca será cumprida. Nunca foi. Uma lei assim é uma lei supérflua. Fazem-se muitas, infelizmente, isso tem a ver com o exercício da caça aos votos apenas, não tem nada a ver com a realidade do país ou das pessoas. E esta é mais uma. Inútil, ineficaz, contraproducente. Serve apenas para os deputados justificarem o seu ordenado, trabalhando sobre ela. E para os jornais venderem papel, os padres terem assunto para as homilias, as televisões abrirem dramaticamente os telejornais. Não serve a quem devia: às mulheres que engravidem e e tenham dúvidas.

Filha: se precisar de conselho espiritual [ufa! olha quem!], recorrerei naturalmente a um padre. Se preciso de conselho psicológico vou flar com a Graça, a psicóloga que acompanha a família. Se precisas de ajuda dentária vais à tua dentista. Porque carga de água uma mulher que precisa de conselho sobre ter ou não ter um filho é obrigada a não recorrer a quem está profissionalmente habilitado a dar-lho, e sim a ouvir as palavras de padres e líderes políticos que não sabem absolutamente nada sobre o aborto? Pensa lá um bocadinho, vá.

A actual lei e as leis que se preparam para aprovar não vão contribuir para minorar os efeitos dos abortos, filha. Pelo contrário, e não é preciso ser inteligente para deduzir isso, até os teus 11 quase 12 anos de inteligência são suficientes, vai agravar o problema.

Do ponto de vista social: o estigma mantém-se, como uma espada suspensa sobre o pescoço da mulher que se "atreva" a abortar, limitando a sua liberdade de expressão e de movimentos em sociedade.

Do ponto de vista do número: sem educação e informação as e os adolescentes de hoje vão amanhã engravidar sem o desejarem, engrossando as filas à porta das clínicas onde se fazem abortos.

Do ponto de vista do equilíbrio social: as ricas podem escolher boas clínicas em Espanha, as pobres estão condenadas a ir à abortadeira da esquina que avia cinco ou seis por manhã, de enfiada, em condições de higiene precárias.

Do ponto de vista económico: continuarão a ganhar muito dinheiro "sujo", porque isento de taxas, as clínicas condenadas a operar em regime de clandestinidade (algumas até gostam do "estatuto", mas nem todas).

Não sei que posição virás a ter nesta matéria. Isso é lá com a tua cabeça. Fiz o possível por te elucidar sobre o que realmente conta, e não sobre a insanidade e a desonestidade e a insensatez da actual discussão pública em torno de uma lei e dos políticos que a votam ou não.

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março 02, 2004

algo cheira mal no reino do Portugal digital

Passei o dia em investigações para o Expresso. Percorri dezenas de páginas de empresas e instituições. Passo a informar do seguinte, de tão horrível achei.

Cerca de 10% dos links internos estavam desactualizados, frustrando as investigações sobre o mais rápido supercomputador português, nomeadamente. Graças ao arquivo parcial que guardo da extinta Recortes, que foi desgraçadamente tirada do ar pela empresa que ficou com o título, e ao arquivo online do Miguel Vitorino, consegui repescar alguma coisa útil para o artigo em causa.

Uma boa meia dúzia de servidores estava desconfigurado, apresentando o respectivo relatório de erros em vez das páginas esperadas (ver imagem exemplificativa, não apresento outras por pudor...)

bit.png


Em cinco situações seria obrigado a mudar de browser para conseguir visualizar a página. É escusado dizer que, havendo alternativa (havia, para todos), fui buscar a informação pretendida a sites onde não me obrigam a usar o browser que a Microsoft deseja que todos usemos e "eles" bovinamente alinham. Conclusão: esses sites não me apanham lá tão cedo; perderam um cliente.

Recebi por mail um press-release todo pomposo sobre o «Barómetro Natal 2003/ACEP: Mais de 85% das lojas online em Portugal venderam mais este Natal». Quis saber mais, pois o assunto é do meu interesse profissional (e pessoal). Como «mais informações sobre a ACEP e sobre a Comissão Especializada podem ser encontradas no seu site: www.portugalacep.org», rezava o press-release, carreguei no link, fui redirecionado para http://acep.globals.pt e o resultado é visível na imagem abaixo: uma página em branco. Boa. Outro cliente à vida. Que se foda: é só um parvalhão dum jornalista...

acep.png

É risível. Algo vai muito, muito mal no reino do Portugal digital. Cá por mim, gosto cada vez mais dos blogs. Antes o drama dos arquivos do Blogger, que mesmo assim são consultáveis, que isto.

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março 01, 2004

Sopa de cação

Foi o que comi em Beja, no almoço de bloggers que antecedeu a sessão na biblioteca com o tema Blog - Um novo mundo da comunicação.

Estou disponível para mais confraternizações do género, de preferência que integrem a) gastronomia; b)convívio; c) sessão, debate, congresso, forum, o que lhe queiram chamar, onde falemos de blogs.

Num momento de reflexão que parece viver-se nalgumas zonas da blogosfera, o face-a-face é uma boa forma de desatar nós. Os nós das dúvidas e angústias que cada autor sente, aqui e ali. A presença física é reconfortante. E ajuda as pessoas a entrosarem-se. Os blogs são uma maravilhosa ferramenta comunicacional, right, mas o face-a-face é importante.

Penso que fazem falta mais encontros. Com sopa de cação e/ou outros manjares (a propósito, caro amigo Isidoro de Machede, as suas laranjas em mel, azeite e canela estavam divinais, aqui fica o reconhecimento público uma vez tratada a nossa conversa pelo mail).

PS: Achi melhor tornar pública uma ideia que já me corrói o espírito há umas semanas. Vejam aqui.

Posted by pTd at 04:05 PM | Comments (4)