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abril 30, 2004
brisa do mar
O bar Ovelha Negra tem as mais bonitas mulheres do mundo. Não duvideis. Hoje conheci a Brisa do mar. Fui honesto com ela. «Era capaz de me apaixonar por ti.» Ela retorquiu: «tens uns olhos lindos» e saiu para pegar o carro que estava no largo de São Francisco. Só espero poder voltar a vê-la. Tem mesmo tudo. Tem. Claro que não me apaixonei. Prefiro ir amanhã tirar a carta de Marinheiro. Mas tem.
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abril 27, 2004
Retiro alcoólico
Entrei em retiro alcoólico. É mais fácil encontrarem-me no Ovelha Negra que por aqui. Portanto não se espantem por não comentar os despedimentos "por causa dos blogues", o tremendo sucesso da iniciativa "Aqui posto de comando"que passou despercebido à Imprensa, o amúo do partido do Ministro da Defesa por causa de uma mulher ser condecorada pelo Presidente da República e outros assuntos para mim, neste interregno alcoólico entre o 25 e o 1º, absolutamente irrelevantes.
Prefiro a conversa com a Isabel. A Isabel é um achado. Uma mulher espantosa. Foram quê, Isabel, umas oito ou nove imperiais? Enquanto conversávamos sobre o problema da água no Algarve, a dificuldade de manter relações prolongadas entre casais de qualquer orientação sexual, ou a "política" do Governo para a investigação científica que é mais humorística do que qualquer sketch dos Monty Python? Foram muitas. Souberam a pouco. Vou continuar o meu retiro alcoólico, acolitado (espero) pelo Luís, com interregno esta quarta feira para um pulo a Lisboa para o É a Cultura, Estúpido. Tirando isso já sabem: estou no Ovelha Negra a conversar e a embebedar-me. Felizmente, e ao contrário da Isabel que amanhã tem de aturar alunos na Universidade do Algarve, posso ir ressacar calmamente para a cama. Mas ela tem menos uns anitos que eu, pode bem aguentar-se à bronca.

PS: O fim de tarde na doca de Faro é um dos mais belos espectáculos do mundo. Tinha imensas saudades, saudades com mais de duas décadas. Obrigado Luís. Amanhã a ver se tiro a foto do P800 e a ponho aqui, juro.
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abril 26, 2004
A heroína do 25 de Abril
Encontrar um herói que simbolize o 25 de Abril é fácil. Entre muitas escolhas possíveis a figura de Salgueiro Maia acabou por ser consensual. Um homem corajoso que fez desfilar a coluna do bluff -- bluff esse vital para desconcentrar e baralhar o regime -- e a instalou na Praça do Comércio. O homem que dialogou. O homem que fez o que a História lhe reservou e no dia seguinte se retirou de palco.
Mas o meu herói da Revolução e da posterior Evolução não é Salgueiro Maia. Aliás, nem é um herói. É uma heroína. Chama-se Isabel do Carmo. O 25 apanhou-a na clandestinidade. Fazia parte dos grupos da luta armada que tinham por missão picar a besta, chatear o regime, tentar pôr o pauzinho na engrenagem para acelerar a queda. Nesse mesmo dia abandonou a luta armada -- embora viesse ainda a ser presa por integrar as Brigadas Revolucionárias, nos calores do processo revolucionário.
Escolher uma mulher como símbolo da Revolução 30 anos depois é não apenas homenagear Isabel do Carmo (já lá vou) mas sobretudo chamar a atenção para um facto negligenciado: as mulheres foram as primeiras e principais beneficiadas pela mudança de regime. Felizmente. Hoje têm uma participação na vida activa do país quase de igual para igual. Antes de 74 elas pura e simplesmente não eram sequer olhadas como cidadãos. Não passavam de mulheres a dias, esposas, mães, telefonistas, prostitutas e enfermeiras. Hoje são autarcas, ministras, professoras universitárias, médicas, jornalistas. É o primeiro sinal de uma sociedade retrógrada que palmilha, tímida mas resoluta, o caminho da civilização.
«Antes da Revolução Francesa a democracia representativa como hoje a temos era uma ilha de sítio nenhum», disse Isabel do Carmo numa peça notável de televisão que Maria João Avillez nos ofereceu este domingo na SIC Notícias. É uma frase notável. Dessasombrada. Um hino. Um apelo ao sonho que comanda efectivamente a vida e o destino do ser humano, por muito que os conservadores de todos os quadrantes políticos se esforcem por relativizar.
É uma mulher serena, a que hoje nos diz que está confortável com a democracia representativa. O que não a inibe de na frase seguinte apontar que o desmoronamento do aparelho de Estado -- um dos "objectivos" das forças revolucionárias entusiastas do pós-25 -- não se cumpriu e ela tem pena (eu também) porque alguns dos males da actual sociedade portuguesa têm raízes no que sobrou desse mesmo aparelho centralista (uma verdade indesmentível).
Isabel do Carmo que após dizer com a maior tranquilidade do mundo estas verdade históricas logo avisa que continua a ter as mesmas paixões de há 30 anos. Como ver os cidadãos a ter uma maior participação no dia a dia, a todos os níveis.
Isabel do Carmo que não deixou a desilusão do fim do PREC tomar conta da sua vida. Não parou de lutar. Lutou de outras maneiras. Na sua profissão. Nos livros que escreveu e ajudou a escrever sobre temas fundamentais (como a luta pelos direitos das mulheres desde o século XIX ou os excessos do consumo). No dia a dia dando aos seus próximos um exemplo de preserverança. Nunca trocando os seus ideiais por coisa nenhuma mantendo a lucidez de análise e a memória. Respeitando e dando-se a respeitar.
Sem integrar movimentos, governos, grupos económicos e de pressão, ou partidos, Isabel do Carmo foi essencial nestes últimos 30 anos. A sua preserverança, a sua participação na escala individual, o seu amadurecimento como mulher e como ser humano personificam um punhado de pessoas que, por terem continuado a sua luta, ajudaram a manter sólido o país nos caminhos da evolução.
Eu acredito nisto. Na participação do indivíduo. Na responsabilização de cada um dos nosso actos para a construção da sociedade melhor que todos almejamos. Como ela, preferia ter mais justiça social e distribuição de riqueza do que aquela que a democracia representativa, necessarimente permeável aos lobis dos poderes, é efectivamente capaz de fazer distribuir, ficando-se demasiadas vezes pela aparência dos gestos simbólicos. Como ela, preferia que o peso do Estado fosse menor, a burocracia menos castrante, a iniciativa individual e cooperativa reconhecidas e recompensadas condignamente.
Estas comemorações do trigésimo aniversário do 25 de Abril revelaram-me finalmente uma coisa que nunca tive. Um herói, um símbolo pela positiva que me fique para o futuro como a personificação deste período histórico. Revelaram-me Isabel do Carmo. Cada um de vós, queridos leitores, escolherá -- se desejar -- o seu herói, o seu personagem representativo. Eu escolhi uma heroína. Para mim faz todo o sentido.
[Nota: não é fácil encontrar material na web sobre Isabel do Carmo. Esta entrevista do Centro de documentação 25 de Abril, feita (também) por Maria João Avillez por alturas da comemoração do 20º aniversário, é um bom texto. Também a Sandra Cristina Almeida (do menos conhecido mas importante blogue História e Ciência) refere uma entrevista recente ao Público. Na Webboom encontramos alguns dos seus livros. Não encontrei imagens, pelo que esperei pacientemente pela repetição da entrevista esta madrugada para tirar um foto ao televisor com o meu fraquito P800. Peço desculpa a Isabel do Carmo, que merecia melhor. Se alguem tiver uma foto melhor, esta será prontamente substituída]
[Nota segunda: Não esqueço outras mulheres que foram (ou são) importantes nestas três décadas. Destaquei Isabel do Carmo porque sim, porque me apetece, porque ela esteve em todas não apenas em 30 mas nos últimos 40 anos da vida portuguesa. E não falaria de mulheres como Maria Barroso -- uma edição maquilhada da geração da sua mãe devotada às "causas sociais" através da degradante caridadezinha cristã, não tendo verdadeira intervenção na sociedade. Mas podia lembrar mulheres injustiçadas ou traídas, como Leonor Beleza, ou malquistas e incompreendidas como Manuela Ferreira Leite. Ambas admiravelmente corajosas, estejamos ou não do mesmo lado da barricada]
Posted by pTd at 04:57 AM | Comments (13)
abril 25, 2004
O erre RegRessou a (o vento lá foRa)
Hoje acaba o peRíodo de humoR que vigoRou neste blogue duRante uma semana. PaRa os que entendeRam o significado da atitude de censuRaR o R e paRa os que lhe passaRam ao lado, um gRande aBraço...
Posted by pTd at 05:35 AM | Comments (3)
O povo
Hoje é dia 25 de Abril de 2004. 30 anos passados, mais de meio milhar de entradas relacionadas com a efeméride recenseadas no blog agregador criado para o efeito, "Aqui posto de comando".
Nesses mais de 500 posts discutiu-se o "R", falou-se dos heróis da Revolução, dos contras do PREC, dos cartazes, das experiências.
Porém, houve um elemento fundamental que muito contribuiu para o sucesso do golpe do Movimento das Forças Armadas destinado a terminar com o cancro da guerra colonial, que era o real impeditivo da evolução que a minoria liberal culta e burguesa esperou da Primavera Marcelista, e a devolver a Portugal as liberdades de forma a permitir de uma vez por todas a evolução social e económica de um país atrasado por 48 anos de negra letargia fascista.
Esse elemento foi o povo que saiu às ruas de Lisboa na manhã do dia 25 de Abril de 1974, que esteve ao lado dos tanques de Salgueiro Maia no Terreiro do Paço e que subiu depois ao Carmo para ver com os seus próprios olhos a vitória simbolizada na rendição de Marcelo Caetano. O povo que gritou vitória, vitória! e liberdade, liberdade!. O povo que em esmagadora, anárquica e ruidosa maioria se manifestou desde a primeira hora solidário com o MFA e apoiante da queda do regime opressor.
É para esse povo anónimo, barbudo, cinzento, oprimido que de repente pode explodir na diversidade da cor, do grito, da esperança, da crença numa vida melhor em liberdade, o povo ordeiro, o povo que colocou os cravos na ponta das G-3 que vai a minha homenagem nesta entrada comemorativa dos 30 anos da Revolução.
Foi preciso esperar 30 aniversários para ver convidados para o palanque das cerimónias comemorativas os cérebros táticos do golpe militar que devolveu a liberdade e (alguma) prosperidade ao povo silenciado e mortificado por uma guerra insustentável e sem solução militar nem política. E que permitiu a instituição da democracia parlamentar e de uma sociedade menos injusta e um tudo-nada menos sujeita aos poderes económicos da meia dúzia de famílias que possuía o País (e por arrasto os frutos do trabalho das classes burguesas e operárias). Uma sociedade um tudo-nada menos injusta para as minorias oprimidas, como as mulheres, a primeira minoria a tirar partido da Revolução. Os tudo-nadas podem parecer pequenos, e são pequenos e deixam a acratas como eu um sabor amargo na boca, mas antes tê-los que os não ter.
Para mim é um momento particular. Essa figura controversa e malquista chamada Otelo Saraiva de Carvalho recebe finalmente o justo convite -- vinda curiosamente de um governo... de Direita, a mesma Direita que já o tinha tentado riscar do mapa através da prisão e julgamento da sua participação num fervor revolucionário. Afinal, os partidos conservadores, nos quais milita e vota a maioria dos adversários da Revolução, acabaram por ser os que engoliram o sapo de convidar para o palanque os verdadeiros libertários do país. Uma lição para o desmiolado Partido Socialista, que se reclama injustamente como o líder da oposição.
As comemorações dos 30 anos do 25 de Abril foram as mais intensas de que tenho memória. Em grande parte devido ao entusiasmo mobilizador da blogosfera, que reuniu democraticamente tendências, paixões, discursos, provocações. Foi na blogosfera, reagindo à cena do "R" e cimentando a memória colectiva desde o início do mês de Abril, que se fermentou a melhor comemoração, a mais imparcial, a mais justa de quantas decorreram nestas três décadas.
O poder voltou ao povo. Por uma vez. Não nas ruas, mas nas novas "ruas" deste gigantesco bairro chamado blogosfera. Foi aqui que os comentaristas de serviço nos media vieram buscar a inspiração e a motivação para -- por uma vez -- recordarem o golpe de uma forma digna. Indo à sua origem de golpe militar e esquecendo as questiúnculas partidárias (que na realidade histórica só começaram a acontecer meses depois da Revolução). O trabalho dos media foi notório e merece palmas. Pena é que se tenha esquecido, aqui e ali, de mencionar a fonte. Tanto de inspiração como, em muitos casos, de documentação.
Que se lixe, a malta vive bem sem créditos, geralmente entregues a quem deles se alimenta curricularmente. O povo, anónimo, é sereno. E voltou a ser soberano por um dia. Bem haja.
Posted by pTd at 04:57 AM | Comments (2)
abril 21, 2004
Os víus estão cada vez mais espetos
Os víus são cada vez mais inteligentes -- se é que se pode empega esse temo. Vejam o que acabo de ecebe.
To: paulo@querido.net
Subject: Notify about using the e-mail account.
From: administration@querido.net
Dear user of e-mail server "Querido.net",
Your e-mail account has been temporary disabled because of unauthorized access.
For more information see the attached file.
The Management,
The Querido.net team http://www.querido.net
Attach: Readme1.pif
Escusado seá dize que não existe a conta administration@querido.net. Eu SEI poque sou eu o administador do domínio ciado para a família Queido. E, tá clao, não abi esse pif maado. Na ealidade o mail foi mandado de unknown (HELO oemcomputer) (81.84.225.175) . Isto é: de um Outlook caegadinho de víus.
Tem a sua piada, ecebe um e-mail do meu sevido que ninguém da família podia te mandado :)
Posted by pTd at 12:54 AM | Comments (6)
abril 20, 2004
Agoa a séio
Este senho é muito séio. Tem uma posa que vale bem a pena leem todos. Os que usam e os que não usam a leta-a-segui-ao-Q. Espigo um nacozinho só da posa dele que acho paticulamente boa. Apesa de demasiado séia. Ou talvez po isso:
«A via revolucionária não foi uma escolha, mas sim uma imposição, depois do falhanço da tentativa de liberalização de Marcelo Caetano, para cujo êxito havia algumas condições favoráveis, designadamente a avançada usura e deslegitimação do Estado Novo e a existência de tendências moderadas quer no campo do regime, quer no campo da oposição que poderiam ter protagonizado uma "transição negociada". Se a débil e fugaz "abertura marcelista" se frustrou rapidamente, com alienação inclusive da pequena mas influente "ala liberal" criada em 1969, isso não se deveu a uma indisponibilidade de compromisso entre as forças da oposição, que não foi testada seriamente, mas sim à incapacidade do regime para lidar com o intratável problema da guerra colonial e com o "tabu" correspondente.».
Posted by pTd at 11:31 PM | Comments (2)
Vou à minha pimeia manif!
Vejam lá isto, como uma pessoa muda de opinião de um dia paa o outo. Hoje acodei a pensa que estava enganado. A campanha publicitáia sobe o 25 de Abil que o Governo apovou é ealmente foa de séie.
Olhem: há muitos anos, talvez aí desde 1980, que não via tanta gente a fala do 25 de Abil. Com paixão. Com entusiasmo. Até paece que estamos outa vez no PEC, viva! Com toda a gente a fala alto sobre a Evolução e a evolução. Tudo ao aos beos e ao estalo (vebal, que eu sou anti-violência física, até fui um dos pimeiros objectoes de consciência quando nem havia legislação)! YES!
Mas não só. Eu nunca na minha vida paticipei no desfile da Avenida. Ea um puto anaca quando ea jovem, depois passei a te família e os feiados são bons paa esta com a família ou a tabalha paa ganha umas hoas extaodinaias. Hoje continuo um puto anaca e tenho família, mas como o desfile este ano deve se de aebimba o malho, a avalia pelo extaordináio feito do Goveno que foi uni as pessoas em tono da efeméide, não vou falta! Que se lixem as hoas extaodináias, a vida não é só ganha dinheio!
Terceia azão: deve lá esta o meu amigo Pipi, que não vejo há muito tempo. Ele sempe me disse: «Pá, é um acontecimento saca-mulas espantoso. Desde sopeiras a intelectuais, tens lá cona paa todos os gostos, tudo aos saltos, tudo tão bem disposto... é um paraíso do engate. Até vêm de Valladolid três amigos meus!».
Em quato luga, a leitua de alguns intelectuais de Dieita, como quando o Pedo Mexia esceveu sobe a Festa de um tal Bloco, abiu-me os olhos: estudantes univesitáias novinhas, de saias hippies, a fuma chaos? Mas que inteessante! Pedo seu maroto! Também vais ao desfile?
PS: Fiquei na dúvida se havia ou não de coigi a fase do Pipi à luz do novo acodo. Na dúvida optei por deixa confome o oiginal. Deixem lá: saudades de um velho piegas...
Posted by pTd at 01:32 PM | Comments (4)
Não é só nas Amoreiras que as obras do túnel do Marquês estão a empancar o trânsito. Desde que começaram tornou-se cada vez mais difícil chegar a Belém
Desculpa lá, Zé Diogo, o descarado copianço, mas não resisti. Excelente!
Gato Fedorento, link aqui.
Posted by pTd at 03:13 AM
abril 19, 2004
Tanto tempo paa evolui e conseguiam despedicá-lo todo
Esta macaca cena da leta que vêm no alfabeto a seguir ao Q é acima de tudo paa a galhofa. Há posições? Há. Eu tenho assumido aqui a minha, explícita e implícita: gozo puo!
Mas o gozo é com o episódio COMPLETO. A opinião à esqueda também é paa i. A foma como defendem a evolução sobre a Evolução chegou a raia o caicato. É clao que histoicamente se pode fala de uma evolução desde o dia 25 de Abil de 19764 até hoje. Pelo que a campanha do Goveno faz sentido... Onde eu acho que não faz é no opotunismo político. Dado estamos ainda muito em cima da data, omiti os símbolos tão queidos ao povo potuguês (ou pelo menos à pate do povo potuguês que tem cainho pela data históica que o livou de uma ditadua hoível e colocou o país na via do pogesso, que julgo se a maioia do povo potuguês) é uma povocação sem sentido e um eo político. Pelo que o Governo espondeá.
Quanto à agumentação da blogosfea de Dieita, basta cita uma passagem do Uitavaes do Banabé que é ceteia apesa de não espeita as novas egas gamaticais:
«Só que há aqui um grande problema: é que a ditadura teve 48 anos para evoluir para uma democracia - e não evoluiu. Depois do Estado Novo teve 41 anos para evoluir - e não evoluiu. Depois da IIª Guerra Mundial teve 29 anos para evoluir - e não evoluiu. Depois de Humberto Delgado teve 16 anos para evoluir - e não evoluiu. Depois da Guerra Colonial começar teve 13 anos para evoluir - e não evoluiu. Depois de Salazar morrer teve seis anos para evoluir - e não evoluiu.»
O Ui Tavaes tem total azão. Diga o que disse, mascae como quise mascaa, a Dieita consevadoa (a começa po um dos patidos do Governo) não é adepta seque das evoluções. Quando teve opotunidades falhou-as. E depois queixa-se dos evolucionáios do 25 de Abil? Não pode: pedeu a autoidade antes. Potanto, aguente-se à bonca. Viva a Evolução dos Cavos! Vivam os militaes do 25 de Abil que deam de bandeja à Dieita consevadoa a possibilidade de se goveno, coisa que ela nunca seia pelas suas pópias mãos! Caamba, não há pio cego do que aquele que não que ve!
[Update: «é muito, muito mais fácil escrever sem erres do que esquecer a revolução de Abril!]
Posted by pTd at 08:59 PM | Comments (5)
abril 18, 2004
Há vida depois da evolução?
Ouvi a missa da noite de Sousa na TVI. Entendo que ele diga aquelas coisas sobre a evolução e atentei no detalhe da omissão do PS nesta situação toda: sim, o PS não se manifestou sobre o 25. Do lado do mecanismo que bombeia o sangue colocou Sousa quem ele acha que ficou com menos neste tempo desde o 25 até hoje e do outro lado os que acha que hoje têm mais, enquanto ao meio o PS não se ouviu.
No entanto, se bem escutado entende-se o que Sousa falou: delicada e inteligentemente não se meteu no assado, isto é, não emitiu a sua opinião pessoal. Também não necessitamos dela no caminho até ao entendimento de que ele se coloca do lado dos beneficiados pelo 25. Sendo honesto, todos estamos, todos nos colocamos (e a sua missa nesse ponto foi uma falácia). Eu também estou. Ninguém ficou com menos no 25 e no tempo que se lhe seguiu. Todos ficámos com mais. Exemplo? A possibilidade de opiniões que não as de quem manda, da política ou dos media, ou a possibilidade de opinião pela via do gozo. Tão simples quanto isso: o gozo.
Fica pois entendido que há vida depois da evolução... Eu até consegui que vocês lessem a minha ideia. Se a entendem, isso é algo mais :)
Posted by pTd at 10:42 PM | Comments (6)
Em geve
Caos leitoes, peço desculpa das dificuldades, que não são técnicas: este blogue está em geve. Até ao dia 25, mais pecisamente. E poquê, peguntaá o amigo leito. Que eivindicações são as minhas?
Pimeio, que o Goveno escinda o contato com a empesa de publicidade que fez a campanha pomocional das comemoações da Evolução.
Segundo, que o mês de Abil passe a te apenas 24 dias. Matam-se dois coelhos duma cajadada, pecebem?
Teceio: paa chama a atenção da potó-candidatua à Pesidência da Epública do Galo de Bacelos (contibuições e assinatuas aqui)
Abaixo a Eacção, Vivam os Motoes a Hélice!
Posted by pTd at 03:16 PM | Comments (8)
A popósito de Saamago
Pimeio fiquei contente, o "meu" Eal Madid lá conseguiu ganha, depois... o "meu" Spoting deixou-se empata e pede conta o Boavista em dez minutos :( e eu fiquei tão depimido que me estalelei no sofá a faze zapping até paa na 5, no Flashback, onde José Magalhães, Pacheco Peeia e Lobo Xavie, pivoteados po Calos Andade, estavam a discuti, pedão, a convesa sobe o episódio Sousa Laa / José Saamago / Duão Baoso, uma cena tiste, que levantou um gande suuu neste país duas vezes!, e tudo po causa de uma oba do escito mais consagado de Potugal; pimeio, um membo do Goveno da altua (foi há doze anos) achou que o livo, intitulado O Evangelho Segundo Jesus Cisto, ea um atentado ao cistianismo e vai daí decidiu etia, ou não da, o apoio do Goveno à candidatua de Saamago ao pémio Nobel, o que foi cá um petado... o Goveno temeu, vacilou, mas lá teve de apoia o seu secetáio de Estado da Cultua, nem outa coisa se espeaia, mas ofendido Saamago etiou-se paa Lanzaote de onde exigiu um pedido de desculpas público,
teve-o um Nobel e doze anos depois, ou seja, esta semana, quando o Pimeio-Ministo, Duão Baoso, o convidou paa almoça em São Bento e chamou os jonais, ádios e televisões; no Flashback dissecaam bem o poblema político e a putativa dupla opeação de maketing, com José Magalhães a cumpi o seu papel apontando a tentativa de salvação do Goveno numa altua em que anda po baixo nas sondagens, mas foi um papel sem bilho pois Duão esteve bem, seja como fo, como de esto Pacheco Peeia viia a dize, enquanto Lobo Xavie foi demasiado politicamente coecto paa o meu gosto, mas o assunto ea popenso: não passa de um fait-dives e
eu cá encolho os ombos, acho que estão um paa o outo: um é ilegível poque não sabe as egas da pontuação; o outo não conhece as letas todas do alfabeto...
(agadecimentos à Intenet Paa As Domésticas Já, à Teache e ao Filinto Melo e póstumo a Luis de Stau Monteio, um dos mais injustamente esquecidos escitoes potugueses das décadas de 60 e 70)
Posted by pTd at 01:11 AM | Comments (6)
abril 16, 2004
Não duvides!
«Às vezes ocorre-me, mas tenho vergonha de o dizer. Que se lixe, aqui vai: os melhores blogs são os blogs dos meus amigos» (in Dicionário do Diabo)
Posted by pTd at 05:32 PM | Comments (6)
Está-se mesmo a ver que estes investigadores vão deixar os seus empregos estáveis e bem pagos para vir para Portugal receber uma bolsa
O Rui sabe do que fala. E fala bem. A medida do Governo para reter a massa cinzenta que Portugal exporta continuamente desde meados do século passado é uma falácia absoluta. Soa bem na televisão. Mas não terá os efeitos pretendidos. Desculpem lá mas é a verdade. O tempo dará razão ao Rui.
Link aqui
Posted by pTd at 05:28 PM
São fases, senhor
Ainda a leitura dos blogues. Está-se a assistir à "clubitização" dos blogues. Tal como os treinadores de bancada e os infalíveis ponta-de-lança de sofá, os leitores estão a alvorar-se em "directores". Lêem aquele blogue e passado algum tempo, é certo e sabido, estão a deixar bitaites e a tentar dirigir o editor segundo as suas preferências. O meu vento na carola (carinhosa expressão familiar) não sofre felizmente disso, dada a sua modesta temática. São sobretudo os blogues da política, e entre estes os mais ousados e marcantes, que geram paixões e ódios "clubistas". Eu sou assim como o Marítimo ou o Sporting de Braga, enquanto o Barnabé é o "Benfica" e o Abrupto o "FC Porto".
Nada tenho contra as paixões e ódios, desde que não gerem subprodutos extremos como a violência física, o suicídio e a morte de inocentes. Entendo esta corrente de manifestações "contra" e "a favor" nas caixas de comentários como uma fase. É como o Verão Quente de 75 :) E esse calor até que é confortável. Mas são fases. Tal como acredito que um dia todo o sócio do Benfica poderá garbosamente aplaudir uma jogatana divina do FC Porto (no vice-versa também acredito, mas demorará mais tempo), acredito que um dia os leitores aplaudirão os posts certeiros pela sua qualidade e não pela "cor da camisola" e patearão os posts insípidos ou mal conseguidos.
Posted by pTd at 05:09 PM | Comments (3)
Os leitores de blogues
Hoje almocei com um velho amigo que não via há uns anitos. Ele não tem blogue. «Não tenho tempo». Porém, é um leitor atento e dedicado da blogosfera e tem sobre ela uma visão nítida e esclarecida. Às vezes pensamos que escrevemos uns para os outros e que a blogosfera é composta por prodo-consumidores de informação (produtores e consumidores em simultâneo). É bom almoçar com velhos amigos. Não só pelo caril: também para arejar as ideias. Há uma massa invisível de leitores de blogues, gente que gosta, tem as suas preferências, aprende, lê. Lê, sublinho. E digo invisível porque raramente se manifesta. Mas estão lá. Fazem parte das estatísticas. É bom não os esquecer. Obrigado pelo almoço, pá.
Posted by pTd at 04:29 PM
abril 15, 2004
A censura e os blogues
O Barnabé fez um aviso à populaça: vai passar a ser mais rigoroso no controlo da linguagem usada nos comentários. Estipulou regras claras: total liberdade de expressão excepto propaganda nazi e racista e usurpação de identidade. Mais do que com as regras (cada um é livre de as fazer no seu blogue e não tenho nada que discutir esse tipo de opções) estou solidário com o Barnabé. Mais: aplaudo a iniciativa, que confirma o Barnabé como um blogue à parte, um blogue com uma linha editorial, com um sentido de responsabilidade.
De uma forma geral os leitores do Barnabé aplaudiram. Uma minoria nada silenciosa porém viu no aviso uma medida censória e lançou um falso debate sobre a censura no Barnabé e noutros blogues.
Ós meus amigos, vai por aí uma grande confusão. Apagar um comentário seja por que razão for NÃO É UM ACTO DE CENSURA. Um blogue não é um Orgão de Comunicação Social (OCS). Apesar de algumas semelhanças, não se lhe pode dar esse estatuto. Aliás, os blogues não carecem de um estatuto, nunca serão equiparados a OCS. Quanto muito carecem de um conjunto de normas, um "livro de ética" que permita futuramente distinguir os vários tipos de blogues e evitar a confusão e as generalizações.
Os autores dos blogues são inteiramente livres de apagar ou não os comentários dos leitores. Cada autor decidirá as suas regras e é conveniente que as explique aos leitores, claro, isto se previlegiam a transparência na comunicação. Mas falar em censura não passa de intoxicação mental, de tentar criar um facto bloguístico, de forçar uma discussão sem sentido algum. O(s) autor(es) de um blogue são soberanos no seu espaço. Esse espaço, embora seja publicado, partilhado em público, é um espaço privado. E na minha casa quem faz as regras sou eu. Chamem-me mal-educado ou mau carácter se uma dessas regras for a proibição de, por exemplo, dizer palavrões. Mas não me podem chamar censor: mesmo que eu abra as portas ao povo continua a ser a MINHA casa.
As virgens ofendidas que vão para... enfim, deixar de ser virgens: a censura é outra coisa, estão a confundir merda com pó de talco.
Posted by pTd at 10:34 PM | Comments (13)
Mas quem é que esse filho da puta julga que é?
«Bin Laden deu um período de tréguas à União Europeia». Mas quem é que esse grandecíssimo filho da puta desse boi de merda acha que é, para tratar a União Europeia como seu par? Desculpem lá a linguagem, mas com esta notícia passei-me mesmo dos carretos. Não defendi (nem defendo) as intervenções no Iraque por não ter engolido as patranhas da altura e também por ter a noção clara e exacta de que tal não traria um milímetro de avanço na luta contra o terrorismo. Mas esta posição não significa cegueira... Os EUA e a UE estão a lutar mal contra o terrorismo. Deram a Bin Laden a importância que ele queria. Deixaram-no tomar conta do espaço mediático ocidental e muçulmano. Agora arvora-se em chefe de Estado. Tanto dinheiro mal gasto em intelligence, foda-se!
Posted by pTd at 10:17 PM | Comments (12)
abril 14, 2004
Tiago Dores, Miguel Góis, Ricardo de Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela
São 6:52 de uma madrugada de insónias que nem o Kainever evitou. O Tejo amanhece vagaroso e um cargueiro passa por baixo da Ponte, puxado por um rebocador. O meu prédio acorda com um barulho estranho: são as minhas gargalhadas compulsivas ao ler as últimas do Gato Fedorento.
Tiago Dores, Miguel Góis, Ricardo de Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela: o meu sincero obrigado. Ricardo, pá, vou citar-te que não resisto: «ABRIL PARA TODOS: Não me surpreenderei se a revolução for perdendo letras todos os anos. Este ano, caiu o "r" (ou, para o ministro Morais Sarmento, mentor da ideia, o "g"). Ficou "evolução", porque a palavra "revolução" maça a direita. Mas "evolução" também não me parece consensual. Os católicos criacionistas, por exemplo, nunca foram à bola com a evolução. Para eles, o 25 de Abril foi certamente criado por Deus. Mais: eles levam a mal que se lhes diga que as coisas são produto de um processo evolutivo. Já com aquela história dos macacos ficaram muito indispostos. Mais vale tirar o "e". Para o ano, será: "Abril é volução". É um bocado estranho, mas faz tanto sentido como o slogan deste ano. RAP
posted by Gato 2:04 AM».
Posted by pTd at 07:00 AM | Comments (2)
Ruim por ruim votai em mim
Desculpem lá qualquer coisinha, queridos leitores, mas não posso deixar passar em claro a dupla evocação de cartazes eleitorais do tempo do PREC que muito me dizem. Foi um flash ver na passada madrugada no Barnabé e há pouco na Internet Para as Domésticas Já! o meu candidato de 1976 e das eleições seguintes! Abril não ficaria completo sem as honrosas menções aos Anarquistas que se não agitaram tantas mentes quanto as necessárias (a minha foi agitada) pelo menos coloriram as paredes e as almas desse Portugal pobrete e pouco alegrete!
Posted by pTd at 01:00 AM | Comments (4)
abril 13, 2004
O Gmail e questões da privacidade do e-mail
Às vezes perco o respeito pelos watchdogs dos direitos individuais, as organizações que zelam pela observância das leis que protegem a nossa privacidade, entre outras coisas. É o caso com esta história histérica em torno do Gmail, o serviço de correio electrónico gratuito que o Google testa neste momento para lançar ASAP. Numa carta aberta subscrita por 27 entidades a World Privacy Forum pede a Sergey Brin e Larry Page que suspendam o Gmail «até que sejam esclarecidos detalhes sobre a privacidade» dos utilizadores. A fogosa senadora democrata por Fremont, Califórnia, Liz Figueroa (que já brindou o povo canadiano com uma boa lei para impedir a selvejaria do telemarketing, btw) tem em rascunho uma lei para impedir o Google de levar por diante o projecto.
As preocupações até que são válidas. O Gmail coloca efectivamente questões relativas à privacidade, pois as mensagens dos seus utilizadores serão vasculhadas pelos algoritmos do Google a fim de estabelecerem padrões de comportamento e de incluir nas mensagens publicidade sob a forma dos simpáticos e nada intrusivos adtexts do Google. E as mensagens ficam em disco mesmo que o utilizador feche a conta, segundo os Termos de Serviço. Portanto, claro que gostarei de saber que o Google terá limites.
Mas -- e é aqui que se esfuma o respeito -- porquê agora, porquê só com o Gmail? Há ANOS que o Hotmail, o Yahoo, o Sapo, o Clix e todos (ou quase) os webmails gratuitos deste mundo se intrometem nas mensagens privadas dos seus utentes! Nunca ouvi ninguém gritar alto! Se colocam rodapés publicitários, quem nos garante que não "lêem" os conteúdos? Quem nos garante que as mensagens são apagadas do storage e dos backups?
O terceiro ponto da carta aberta da World Privacy Forum refere ERRADAMENTE que o «sistema Gmail estabelece um precedente potencialmente perigoso e reduz a expectativa geral sobre a privacidade nas comunicações por correio electrónico». O precedente está aberto há muito. E a expectativa é de facto muito baixa, não pode baixar mais.
Os media mundiais alinharam e não vi uma única notícia ou opinião a lembrar à saciedade que não é novidade alguma a invasão da privacidade da nossa correspondência sobretudo, mas não apenas, nos webmailers. Sábado no Expresso fá-lo-ei. Mas fica já aqui a observação. Alguém não anda a tomar os comprimidos...
Posted by pTd at 05:52 PM | Comments (6)
Estávamos na sala de aula e de repente a flauta do Serginho maluco vinha do jardim do Liceu. Saíamos a correr para o ir ouvir!
Conheci-o no jardim do Liceu de Faro, ele era mais velho (é contemporâneo da minha irmã) e já não frequentava mas volta e meia aparecia com a sua flauta. Levava-nos bocadinhos da cultura apaixonada que se ia fazendo em Lisboa, muito longe da pacatez provinciana que Faro vivia na década de 80. Saíamos das aulas para o ir ouvir! Arrepiou-me ver o seu nome no Aqui posto de comando. Obrigado, Helder Raimundo (via acultura)!
Posted by pTd at 12:19 AM | Comments (2)
Sobre a censura e outras histórias
Entre outras coisas mais importantes, como o acesso à educação e uma (apesar de tudo) distribuição um niquinho menos injusta da riqueza, a revolução de 25 de Abril de 1974 acabou com uma instituição que ao longo do regime salazarista teve efeitos altamente nefastos sobre todos os aspectos da vida cultural e educativa de Portugal: a censura. Ou, como lhe chama a minha querida irmã, «esse apêndice ridículo do Estado Novo castrador da comunicação» (link).
Pessoalmente, o meu contacto com a censura foi por interpostos exemplos. Profissionalmente também não conheci em primeira mão a censura do Estado Novo: comecei nos jornais em 78. Só por interpostos camaradas que me contaram as histórias, umas de estarrecer, outras absolutamente ridículas. A Comissão de Censura era um polvo e nem todos os seus tentáculos primavam pela inteligência. Mas o polvo sabia o que fazia. Muito bem.
Quando digo acabou com uma instituição não estou a dizer acabou a censura. Com efeito, a censura continua. Penso que ela faz parte do processo criativo, mas não é desse seu lado que vou falar. É da censura-censura. A auto-censura do jornalista, que omite certos detalhes por variadas razões, a começar pelo medo de perder o emprego num mecado dominado por três empregadores apenas. O lápis azul, símbolo da censura, desapareceu. Mas a censura não.
Na semana passada, numa das minhas raras noites de televisão, no intervalo de um filme qualquer piquei a 2: e tropecei na carantonha do meu querido chefe de Redacção no Diário Popular, o Acácio Barradas. O Acácio foi um modelo para mim. Um modelo, um exemplo, um estímulo -- e um chefe que me fez trabalhar muito duro. O Acácio está reformado, mas manteve há coisa de um mês uma guerra que me passou ao lado, a propósito do Diário de Notícias e de uma forma de censura. Uma guerra bem documentada na página dele. Mas não é dessa guerra que vos falo.
Nesse programa, responsabilidade do Clube de Jornalistas com um formato démodé, falou-se de censura. Do fascismo aos nosso dias! O Acácio disse uma coisa desassombrada. Disse (reproduzo de cabeça) o seguinte: «Hoje há censura nas Redacções, nomeadamente em relação ao PCP. Não há notícias sobre o PCP, a menos que seja para dizer mal. Alguém que queira ou precise de saber o que diz o partido, tem de comprar o Avante pois os outros jornais censuram as notícias sobre o PCP. Estou à vontade para dizer isto porque não simpatizo sequer com o partido».
Vindo do Acácio, não me devia ter espantado. Foi sempre homem de dizer frontalmente o que pensa e a sua conduta deontológica é irrepreensível. Mas espantou-me. É preciso coragem para dizer uma verdade destas hoje em dia, indo absolutamente contra a corrente, o politicamente correcto, o jornalisticamente correcto. Felizmente há homens que não se deixam manietar pela noção do que é e não é correcto.
Estou um bocado longe das Redacções, actualmente. Mas confirmo o que o Acácio disse. Há censura. Não vi nunca, nas várias Redacções que frequentei, regras escritas ou orais sobre isso. Mas não é necessário. Façam o seguinte exercício. Vejam as sondagens dos últimos seis meses antes de cada eleição. Vejam depois os resultados finais. Os resultados das coligações em que o PCP entra são por regra superiores aos atribuídos pelas sondagens, A inversa é verdadeira para o CDS-PP.
Segundo exercício: comparem o número de notícias sobre o PCP ou cuja fonte seja o PCP ou próxima com o número de notícias de qualquer outro partido com representação parlamentar. Verão que é muito, mas muito menor.
Terceiro exercício: comparem o número de opinion-makers ou colunistas afectos ou ligados ao PCP com o número de afectos a outras forças partidárias, isto em todos os media, dos títulos principais aos secundários.
Tal como o Acácio Barradas, eu não sou sequer simpatizante do PCP, portanto sinto-me muito confortável para dizer isto.
Sei que o PCP e o comunismo são hoje abencerragens sem sex-appeal, fora de moda. Razão para que sejam preteridos numa Imprensa que precisa de seguir as modas para vender e sobreviver? Depende dos pontos de vista. Par quem se importa com a verdade, não é razão. Para quem não se importa com a verdade, será. O que eu sei é que o termo censura é o mais indicado para descrever a situação. Seja qual for o seu ponto de vista, leitor.
Para quem se importe com a deontologia dos jornalistas ou queira saber casos engraçados, o prefácio de Acácio Barradas ao O uivo do coiote, de Luiz Pacheco, reproduzido aqui, é leitura obrigatória.
Posted by pTd at 12:02 AM | Comments (16)
abril 12, 2004
Eu também estou disponível!
«Vítor Baía voltou a manifestar a sua disponibilidade para representar a selecção nacional», acabou de dizer o locutor da SportTV. Ó pá, eu também! Manifesto solenemente a minha total disponibilidade para representar a selecção nacional de futebol!
Posted by pTd at 11:27 PM | Comments (1)
Afonso Dias
Ainda o bar Ovelha Negra, em Faro. Fica na Rua Capitão Mor, na Baixa, é uma transversal da Rua do Prior, mais conhecida por rua do crime. O destino prega-nos partidas engraçadas. Há 40, 30 anos o local onde está o bar era uma garagem. A garagem da minha casa. Nasci num quarto por cima desse bar. Tenho lá ido nos últimos 15 anos, desde que é bar. Primeiro quando era o NBA, o bar da Associação de Estudantes da Universidade do Algarve. Agora como Ovelha Negra.
Pois bem: como já sucedeu noutros meses, todas as quartas feiras deste mês excepto a de dia 21 podem lá ir ouvir dizer poesia. Quem a diz é o Afonso Dias. E quem é Afonso Dias?
Afonso Dias é um músico e poeta. Conheci-o em noites memoráveis em Miratejo: o Afonso chegava ao bar, ou a casa da minha irmã, ou café da esquina, pegava na viola e emocionava-nos com as suas interpretações de Brel. O Afonso Dias foi o primeiro deputado eleito para o Parlamento pelas pessoas que, se fosse hoje, votavam Bloco de Esquerda. O Afonso Dias foi o deputado eleito pela UDP para a Assembleia Constituinte -- fundamental na consolidação da democracia portuguesa e responsável pela Constituição que (ainda) hoje temos.
Em tempos de Abril, nada mais justo que recordar um dos esquecidos. Não foi uma figura de primeiro plano. Mas essa é uma perversão da democracia mediática: a História cede com demasiada facilidade ao mediatismo.
Mediatismo que é, de resto, uma das piores perversões do regime democrático: reza a teoria que elegemos partidos, programas políticos, mas acabamos a eleger as pessoas que, por razões não totalmente explicadas e explicáveis, a televisão nos vende. A televisão que é controlada por três grupos económicos. Que controlam 95 por cento dos media escritos, falados e televisivos. Pois é... É por essas e por outras desilusões do género que o Afonso Dias voltou costas à política. E eu também.
PS: De facto, a Internet é cada vez mais o repositório da História, o único meio de fácil acesso que permite informação desintoxicada, indo directamente à fonte. Graças aos excelentes arquivos online do Parlamento fui desenterrar as intervenções de Afonso Dias. Estão aqui. Retiro uma passagem (não ortograficamente revista) significativa, para que se perceba quem iniciou a luta pelos direitos das minorias:
Sr. Deputado Afonso Ditas, bem a palavra. Tenha a bondade.
O Sr. Afonso Dias (UDP): - Já nesta Assembleia foi reconhecido o direito das minorias. É necessário que esse princípio fique garantido em quaisquer circunstâncias.
A UDP pensa que, para evitar que algum futuro legislador venha limitar ou interpretar segundo as suas conveniências o princípio aqui proposto pela Comissão, princípio esse que merece o nosso apoio, é necessário concretizar melhor um aspecto:
Cabe perfeitamente no campo das possibilidades que haja a intenção de algumas forças políticas maioritárias tentarem neutralizar a acção de forças democráticas minoritárias. Essa atitude seria um atentado à democracia, seria uma clara manobra no sentido de impossibilitar a presença de Deputados de partidos democráticos pequenos.
A imprensa apresentou já, par diversas vezes, a possibilidade de ser aprovada uma disposição que impedisse partidos com menos de 5 % (por exemplo) do total de votos a nível nacional de verem eleitos Deputados, mesma que em um ou mais círculos tivessem conseguido o número de votos necessário.
Sem defender de forma alguma o regionalismo, parece à UDP que é possível que certos partidos tenham uma expressão regional maior que a nível nacional, de tal forma que seriam impedidos na prática de ver Deputados seus aleites.
Tomemos um exemplo. Se a UPM, União do Povo da Madeira, organização popular antifascista e anti-imperialista desse, arquipélago, resolvesse concorrer ás eleições, ela apenas obteria número de votos significativo nos círculos eleitorais da Madeira. De facto, ela aí é representativa. Mas a UPM, a ser aplicada a disposição da percentagem, não poderia ver nenhum candidato seu eleito.
Este exemplo extremo demonstra claramente o carácter antidemocrático que certas manobras podem vir a provocar a este artigo, se ele não for melhor explicitado.»
Posted by pTd at 07:39 PM | Comments (1)
O voto
«No primeiro ano que votei, o PSR teve três votos no Algarve. Um deles foi o meu e os outros dois de amigos meus», ouvi uma noite destas no balcão do bar Ovelha Negra, em Faro. O chavalo estava a impressionar a garina. Ou apenas a justificar-se, pois a conversa seguiu o seu curso para as razões porque ele não votava Bloco, pois achava que o PSR não era Bloco -- mas eu já não estava sintonizado, recordando com o auxílio do fundo da imperial o meu primeiro e único exercício democrático para eleições legislativas...
Eu tinha 18 ou 19 anos e cartão de eleitor fresquinho. Eram as primeiras eleições legislativas democráticas, graças ao 25 de Abril de 1974 -- uma revolução feita por um movimento das forças armadas destinada a acabar com um regime podre que impedia Portugal de prosperar. Uma revolução que, como qualquer revolução, teve erros históricos e desmandos populares, partidários e institucionais. Mas uma revolução, ainda assim.
Votei na UDP, União Democrática Popular. Teve 27 votos no distrito de Faro (e elegeu um deputado por Lisboa, se bem me lembro foi Mário Tomé). Resultado que me fez pensar no sistema partidário. A partir da segunda-feira seguinte iniciei o meu percurso pela estrada da anarquia e não voltei a usar o voto, essa viciada arma do povo.
A democracia partidária é teoricamente melhor que uma ditadura. Tem pelo menos a vantagem de evitar que os putativos ditadores se demorem mais de oito anos no Poder. E a vantagem teórica de acabar com a repressão dos direitos e liberdades individuais. Teórica porque a repressão faz-se na mesma em democracia. Faz-se é de outra forma: insidiosa, manipulatória e aceite pelas massas, enquanto no fascismo (e noutros ismos) ela é objectiva e instituída, levando à existência de corpos policiais encarregues de a fazer cumprir, pelo que não colhe obviamente a simpatia popular.
Não liguem à secura deste texto, pouco indicada numa altura de entusiasmo pela recordação do PREC de há 30 anos. Para os registos: recordo a revolução do 25 de Abril como o acontecimento histórico mais importante do século XX português. Digamos é que a "democracia" em que hoje vivemos me deixa envergonhado. Talvez eu fosse apenas demasiado novo em 1974, não sei... Sei que esperei mais do que aquilo que hoje temos.
PS: Ressalva: o meu voto foi nas Intercalares da I Legislatura, a 2 de Dexembro de 1979, tinha portanto eu 19 anos. A UDP elegeu não Mário Tomé mas sim Acácio Barreiros, com um total de 130.842 votos (2,18 %). Mário Tomé foi eleito pela UDP, sim, mas noutra altura. Acácio Barreiros passou noutra legislatura a independente do PS e chegou a Secretário de Estado da Defesa do Consumidor. Morreu deputado, já este ano (necrologia, entrada nos Estudos Sobre o Comunismo).
Posted by pTd at 06:57 PM | Comments (8)
abril 08, 2004
Excelente e obrigatório: um forward sobre forwards e emails colectivos
Um excelente texto cuja leitura considero obrigatória (e se pudesse obrigar cada leitor do meu blog a lê-lo, fazia-o). Um excerto fundamental: Muitos forwards circulam com o propósito único de ANGARIAR ENDEREÇOS DE EMAIL para usos ILÍCITOS. (via Barnabé Rebelo de Sousa)
Posted by pTd at 02:38 AM
abril 07, 2004
FCP
Até hoje achava que só uma equipa do mundo podia ganhar um jogo ao FC Porto em condições normais: o Real Madrid. E já ia antecipando o gozo de ver um final da Champions entre dois treinadores portugueses (na qual ia torcer pelo Real Madrid).
Mas a magia do futebol reside nisto: são onze de cada lado e a puta da bola é redonda. As variáveis são infinitas. As três surpresas dos quartos de final provam-no.
O FC Porto fez (mais) um belo jogo contra a equipa que mais dificuldades lhe causou esta época (e Mourinho disse-o claramente na flash-interview). Mereceu o empate e mereceu a eliminatória. Com dois golos lindíssimos de um jogador que muito aprecio: Maniche. Servido pela classe de Deco.
Mas... uma equipa que recupera 1-4 contra a) uma equipa italiana; b) uma equipa italiana chamada AC Milan; c) uma equipa que é só a campeã europeia em título; d) uma equipa que tem dois dos melhores centrais do mundo, Maldini e Nesta; uma equipa que tem o melhor avançado do mundo, Shevchenko, é uma equipa a ter em consideração. O Deportivo vai ser o "pior" adversário do FC Porto esta época, não me restam dúvidas.
Hoje acho que será muito difícil ao FC Porto chegar à final. Mas continuo convencido que verei um treinador português no último jogo da Champions. Não lhe chamo final porque acho que os minutos mais importantes da competição vão ser os próximos entre FCPorto e Deportivo da Coruña.
Posted by pTd at 11:23 PM | Comments (9)
abril 05, 2004
desculpem lá
A google-bomb que "vitimou" a biografia oficial do Primeiro Ministro já foi "corrigida" no Google, vejam com os vossos próprios olhos aqui. Tal como aqui escrevi, ficamos agora à espera que o Portal do Governo volte a mudar a página de endereço. Sugiro agora um traço (-) em vez do underscore (_). (obrigado, Pedro).
Posted by pTd at 04:51 PM | Comments (9)
O 25 faz 30
Pois é. Estamos em Abril. Temos uma data especial este mês. O dia 25. Passam 30 anos sobre a Revolução dos Cravos, ou simplesmente o 25 de Abril. Vai ser o tema do mês na blogosfera, não tenho dúvidas.
Só gostava de saber se Paulo Portas e Durão Barroso, mais os respectivos partidos, CDS e PSD, saberão que a memória das gentes se tornou mais perene devido à Internet e às iniciativas dos bloggers. A História reescreve-se todos os dias -- MAS por todas as pessoas.
Recomendo a ambos os ministros que ponham nos seus favoritos este link. E que acompanhem o que por lá se vai passar. Vão ser criticados por o Governo se alhear da ocorrência. O debate promete ser intenso, ou não fora a blogosfera portuguesa um refúgio das gentes cultas de Direita, havendo uma parte da Direita que não traga o 25 nem com molho de tomate (argh, é vermelho!). Seja. Debate significa liberdade. E essa temo-la graças à revolução, o resto são cantigas.
Saudo em especial o Barnabé e o Grão de Areia pelas recordações plásticas da altura. Belíssimos cartazes! Sei que o tema agitará as massas. Há quem não goste da efeméride. Eu gosto: para mim, que era um chavalito, foram uns tempos belíssimos, os do PREC. Havia côr nas ruas e nas pessoas. Cada gesto tinha significado. Alegria. E também partes gagas, claro, como há em todas as revoluções.
Não tenho os dotes desses dois (e de mais bloggers) para trazer à luz dos dias que correm essa parte fundamental do Portugal democrático e vagamente livre em que hoje vivemos. Ajudo como posso: fornecendo alguns instrumentos para celebrar a memória dessa data. "Aqui posto de comando" é um agregador das memórias da blogsfera e da Web e de quem quiser sobre o 25 de Abril de 1974. Enjoy.
Posted by pTd at 04:25 AM | Comments (2)
abril 01, 2004
World domination, at last
Quando inventaram o Google Sergey Brin e Larry Page tinham uma ideia: mudar a Internet.
Ontem anunciaram (e muita gente pensou que foi hoje e achou que era pêta de 1º de Abril...) a terceira e final machadada para tal: o Gmail (link via von Freud <- bOING bOING).
Um Gigabyte de storage por utilizador! Os nerds passaram-se. Não era possível. não vejo porquê. É possível. No Google tudo é possível.
Com esse anúncio a Google vai acabar a terceira fase do seu Projecto Global. A primeira fase fora fazer o Google-motor de pesquisa. Em cinco anos tornaram-no no vencedor incontestado e a longa distância dos segundos no mercado das pesquisas. A segunda fora pôr a vaca a dar leite: a publicidade altamente dirigida e o licenciamento do seu brilhante software trouxeram a saúde financeira à empresa e os primeiros trocos aos investidores.
Mas para ser A Nova Internet (i.e., construir um autêntico império que se fundirá a prazo com a própria Internet) ao Google faltava aquilo que os rivais já tinham: uma base de dados de pessoas, gente. Clientes. Convém recordar que o Google nunca pediu dados pessoais a ninguém. As pesquisas e vários servios são rigorosamente anónimos. O Google NÃO TINHA uma base de dados com milhões de endereços de correio associados a pessoas com perfis de consumo e padrões... A Microsoft tem, à pála do Hotmail. O Yahoo! idem, em todos os seus serviços.
No início de 2003 o Google começou a construir a sua base de dados... Primeiro passo: comprou o Blogspot, maior alojador de blogs do mundo. Comprou duas coisas (além da tecnologia, claro): uma base de dados de pessoas e vários milhões de montras para os seus discretos anúncios altamente dirigidos.
O segundo passo foi dado em Janeiro último com o Orkut. Toda a gente está no Orkut. Toda. Eu tenho lá os meus dados pessoais.
O terceiro passo, e provavelmente final, é o Gmail. Num mês ou dois o serviço captará facilmente vários milhões de clientes. Dá um tiro no porta-aviões da Microsoft chamado Hotmail. Um tiro, não: uma bomba atómica. Depois, imaginem os textads do Google indexados aos subjects e às mensagens, aos biliões de mensagens que por ali vão circular... Já imaginaram? Cool.
A jogada é brilhante. Foi uma surpresa de nível mundial. Deixou especados até os mais nerds dos nerds. A estratégia está agora mais visível.
E reparem como uma empresa conhecida (e amada) pelo seu low profile surge nos últimos três meses com um peso crescente nos media. Nunca as suas iniciativas comerciais eram mediatizadas. Agora são. Vem aí a IPO. Pior (melhor, depende dos pontos de vista): vem aí o world domination. By Google.
Posted by pTd at 11:50 PM | Comments (9)
Ainda o estúpido
Primeiro, aqui recordo a anterior episódio em que o principal partido da coligação governamental fez um flick-flack à rectaguarda que motivou risota geral.
Segundo, esta madrugada não me lembrei mas tanto o Idiotbox como o jcraveiro.com recordaram-mo. O Portal do Governo vai ter em breve de voltar a mudar o endereço da biografia oficial do Primeiro Ministro. Em breve a palavra estúpido estará no Google a apontar quer para a antiga morada, quer para a nova...
(E este post é auto-explicativo...)
Posted by pTd at 11:13 PM | Comments (13)
Seja radical: no dia das mentiras escreva só VERDADES!
Posted by pTd at 05:49 AM
Legítimo, sim. Mas ridículo
Enquanto escrevia a longa e trabalhosa entrada abaixo (Quanto vale um underscore! -- para efeitos do arquivo) fui diversas vezes quer ao Google, quer aos blogs citados, quer ao endereço da biografia do Primeiro Ministro português no Portal do Governo. Fosse por razões de algum proxy vagaroso, fosse por andarem a mexer lá no portal, o endereço inicial duas vezes respondeu correctamente e duas vezes deu o erro 404 Object Not Found. Esta é a verdade que eu vi. Decidi não alterar mais a entrada depois do update, feito quando descobri que substituiram o endereço inicial pelo novo, com o underscore. E abri nova entrada porque o assunto passou a ser outro.
Pessoalmente acho a cena lamentável. Admito que seja uma forma legítima de combater os efeitos de uma google-bomb. É legítimo modificar um endereço. Não era legítimo (à luz da História) falsificar um documento fotográfico, por exemplo.
Admitida a legitimidade, os homens do Portal do Governo iniciaram uma nova era na Internet. Nunca antes alguém modificara um endereço por esta razão. Nem Bush -- e o episódio miserable failure correu MUNDO, enquanto o episódio estúpido não passará de Portugal.
Comparados os episódios, Bush teve coragem e Barroso foi cobarde. Ambos me custam reconhecer...
Tudo bem. Para mim é absolutamente caricato. E por isso antecipo que ninguém no mundo seguirá o precedente aberto pelo Portal do Governo...
Os efeitos práticos da mudança de endereço valem zero. Ou antes, valem um valente punhado de linhas nos logs de erro do servidor do Portal do Governo... E a ira dos inocentes, gente e instituições, que por razões que a mim não me passariam pela cabeça tenham no passado "linkado" honesta e inocentemente a página da biografia de José Manuel Durão Barroso: vão ter de refazer o link. E valem as horas de trabalho pagas pelo Estado para modificar todos os links para aquela página nas centenas de websites da administração pública.
A mudança só contribuirá para aumentar os efeitos mediáticos, que não são nada dispiciendos. Toda a gente ficou a saber do sucedido. É até provável que o episódio ainda apareça nas televisões e nos jornais, assim haja falta de assunto-chouriço. Seguramente aparecerá em dezenas de blogs. Ficará na História.
Durão Barroso lá sabe. Eu não mudava de link só por alguém me chamar de estúpido numa brincadeira moderna. É ridículo.
Posted by pTd at 05:17 AM | Comments (8)
Quanto vale um underscore!
UPDATE! Ah, fizeram pior lá no portal! Agora tiraram outra vez o link directo e substituiram-no por outro, muito muito muito discretamente! Vejam as imagens e reparem na subtileza (assinalada a vermelho) do novo endereço oficial... Nos regimes ditatoriais era costume retocar as fotografias, agora retocam-se endereços oficiais... Que coisa. (Dica: clique nas imagens para as ver em tamanho natural.)
O título original desta entrada antes do episódio do _ era: Bush, Barroso, Moore - e o Google

Os zelosos técnicos/funcionários que cuidam do Portal do Governo meteram duas vezes a pata na poça. É obra. Primeiro, tiraram apressadamente do ar a página com a biografia oficial do Primeiro Ministro. Depois voltaram a metê-la no ar -- provavelmente porque alguem no aparelho deu um sonoro berro. (Sim, eu sei... vão justificar a cena com umas 10 razões "técnicas"... como já ocorreu no passado). E porque fariam eles este erro dois-em-um?
Vão ao Google e introduzam a palavra estúpido. Carreguem no I'm Feeling Lucky, que vos conduz directamente ao primeiro resultado do Google para o termo. Sim, o primeiro resultado do Google para a palavra estúpido é a página oficial da biografia de José Manuel Durão Barroso, nascido em Lisboa, em 23 de Março de 1956, casado, pai de três filhos. (Ou dêem só ENTER e confirmem que é efectivamente o primeiro resultado.)
Eu soube esta tarde pelo UoRE. Eram umas três da tarde. Os zelotas deram pela coisa e a página já lá não estava. Mas estava o link, o permalink, o endereço: http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Primeiro_Ministro/Biografia/. Que não deixava margem à imaginação sobre o 404 que a página apresentou durante parte do dia.
Entretanto a coisa propagou-se pela blogosfera como fogo no mato. Há instantes atrás reparei que também o Jorge se referia ao assunto. E o UoRE fazia notar num update à entrada original: «Parece que alguém notou, e alterou o link no site de destino.
Verifiquei de novo. À pergunta no Google por "estúpido" respondeu-me a cara sorridente do Primeiro Ministro de Portugal. Estava feita a emenda. Num caso em que, infelizmente, nem o soneto nem a emenda se salvam. Tirar a página -- isso sim -- foi um acto perfeitamente imbecil. Nem os zelotas do amigo e companheiro de guerras de Durão, George W. Bush, foram capazes de tamanha cobardia: a expressão miserable failure continua a conduzir-nos, no Google, à biografia oficial do 43º presidente dos EUA, agora num honroso segundo lugar na lista do Google, destronado desde Março por Michael Moore...
Terá sido isto uma resposta divina à famosa entrevista de Durão Barroso à Economist? (E a propósito não percam este e este artigos do Barnabé.)
Não. Foi apenas mais uma google-bomb. Só que esta foi de fabrico artesanal, enquanto a outra, a de Bush/Moore, era uma bomba requintada, programada, assumida.
As google-bombs andam aí há anos. Desde pelo menos aqui que se fala nelas. Até eu já falei delas num artigo no Expresso, em finais de Dezembro último, intitulado Bombas sobre o Google. Excerto esclarecedor, quiçá inspirador?, publicado no resto desta entrada juntamente com um manual de fabrico de google-bombs.
Citação do artigo: «A frase «miserable failure» nem sequer aparece na biografia de George W. Bush. Porque surge então a página como o melhor resultado? Será uma tomada de posição política por parte do Google?
Não. Tirando partido dos algoritmos matemáticos que fizeram a fama do Google permitindo listar os resultados com um índice de sucesso que nenhum outro motor de pesquisa consegue, um punhado de bloggers é o responsável pela "brincadeira". A prática é conhecida como google-bomb. O algoritmo do Google atribui um peso às páginas de acordo com uma complicada fórmula que privilegia os links que elas contém. De forma simples: se muitas páginas hiperligam determinado site, então esse site tem maiores probabilidades de ser o site que as pessoas pretendem.
É fácil portanto fazer uma google-bomb. Basta que muitos bloggers publiquem uma entrada que contenha a mesma frase com o mesmo link, mesmo que versem temas muito diferentes e até não relacionados.
A mais popular é mesmo esta de George W. Bush (segundo a BBC bastaram 32 páginas com o link, confira http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/americas/3298443.stm). Mas há mais e recomenda-se a leitura de um artigo da Microcontent News datado de 3 de Março de 2002, altura em que começaram, ainda que por brincadeira, as bombas sobre o Google (www.microcontentnews.com/articles/googlebombs.htm). A partir deste mês [Dezembro], porém, o assunto ganha outra dimensão pois activistas de todos os quadrantes poderão seguir o exemplo do «miserable failure».»
Duvido que o artigo tenha inspirado o(s) autor(es) da bombinha artesanal que levou a confusão ao Portal do Governo...
A "bomba" de Bush foi elaborada por uma rede de pessoas que escreveram posts públicos.
Aparentemente, a "bomba" que vitimou a biografia do Primeiro Ministro não é proveniente da blogosfera.
Como se faz então uma google-bomb? (bocejo) Explico amanhã, tá?
Posted by pTd at 03:31 AM | Comments (7)