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agosto 30, 2004

Sempre em cima: VMA 2004

Apesar do azar (o PC estoirou logo no momento em que tinha uma dúzia de print-screens da actuação da Christina) a Catarina conseguiu esta madrugada uma proeza. O seu blog ***xtina*** terá sido o PRIMEIRO a nível mundial a publicar imagens do Video Music Awards 2004, snapshots da emissão da MTV sacados através da placa de TV (tive de inventar uns cabos manhosos meia hora antes, mas funcionou).

Claro que deu destaque à exibição de Christina Aguillera. Mas tem lá a lista dos vencedores. Vibrámos juntos com o Viewer's Choice, os Linkin Park com "Breaking The Habit" (que vimos ao vivo este ano no Superbock). Foi-se deitar toda satisfeita: em Portugal nem tinha concorrência, só no Brasil, mas deu as notícias e as fotos praticamente em directo e como no Brasil a emissão passou com um diferido de duas horas, foi provavelmente a primeira blogger em todo o mundo a publicar o VMA 2004. (Eu também fiquei orgulhoso.)

Posted by pTd at 02:21 PM | Comments (3)

agosto 29, 2004

Vacas frígidas

Texto forte, intratável como só os anti-despenalização merecem, escrito por vieira do mar no controversa maresia (via Bomba Inteligente).

A minha posição sobre o aborto é clara e está publicada desde o dia 3 de Março. Sobre a história do barco do amor e do governo do aborto também já escrevi o suficiente. Resta-me aplaudir o texto de vieira do mar e outros que exponham a insanidade e a hipocrisia.

Posted by pTd at 10:21 PM | Comments (8)

A elevação do debate na blogosfera

jcd escreveu um post sobre Eduardo Prado Coelho. Eu peguei numa frase marginal à temática e reflecti sobre os índices de leitura nos países da ex-URSS com um exemplo concreto tirado das minhas memórias. Nos comentários jcd isolou uma frase marginal e a discussão rumou ao capitalismo versus comunismo. Paralelamente João Miranda dedica-me um texto no Blasfémias sobre o bem que o comunismo faz à literatura. Reajo com um segundo texto a defender-me do ataque de cegueira ideológica (fonix... eu só tinha ido ao baú das recordações buscar pistas sobre o grau de cultura dos povos de Leste...) e a desmontar a bomba que os blasfemos me estavam a armadilhar e de passagem falo dos índices do desenvolvimento humano. O blasfémias volta à carga isolando uma frase minha como ponto de partida para um post sem pés nem cabeça sobre o per capita do Bangladesh.

Efectivamente os debates na blogosfera são riquíssimos e decorrem dentro de padrões de conversação extraordinariamente elevados com um grau de rigor sem paralelo.

Posted by pTd at 07:16 PM | Comments (1)

O governo do aborto

Como se fosse preciso, o caso do barco da liberdade veio recordar aos portugueses em particular e ao mundo em geral a supina formação e finura política do governo nomeado em exercício. A proibição da entrada nas águas de Paulo Portas do barco da associação Women on Waves é uma medida de um alcance espantoso. Reparem: o governo nomeado tornou a visita, que em tempo de Jogos Olímpicos quase passaria despercebida ao grande público, num festim mediático e num banzé tonitruante na sociedade, levando o bom nome das mulheres portuguesas ao aerópagos internacionais e voltando a criar lastro para o debate que nunca se fez (o que houve foi ideológico e deixou de lado as mulheres e homens que enfrentaram, enfrentam e vão enfrentar um problema nas sua vidas).

Este é o governo do aborto, não haja dúvida!

Posted by pTd at 06:42 PM | Comments (1)

agosto 28, 2004

Sozinho em casa

É uma luta desigual, esta. De um lado o colectivo do Blasfémias mais jcd do Jaquinzinhos mais alguns comentaristas avulsos (e eventuais outros blogues que ainda não vi). Do outro, eu. Sozinho em casa. Só prova que os libertários são poucos e individualistas. Felizmente. Mas a solidão nunca me incomodou. Muito menos a solidão das convicções. Mas caraças.

Posted by pTd at 09:14 PM | Comments (15)

A dinâmica da riqueza, oh yeah

«A riqueza é dinâmica, é um fluxo variável, pelo que o combate à pobreza, só por miopia, é que que pode concentrar-se apenas na ideia peregrina de que tudo se resolve através de políticas de redistribuição! Há, sobretudo, que criar mais riqueza.» (PMF em Basfémias)

1º Nunca mencionei "políticas de redistribuição". Por um facto simples: não acredito que algum sistema político actual (e no futuro próximo) se atreva a agir contra os detentores da riqueza. Só uma revolução poderá por fim a esta realidade que liberais capitalistas como jcd e os blasfemos escamoteiam com gráficos e quadros gerais sobre o aumento efectivo da riqueza colectiva: o fosso entre a casta rica, detentora da maior parte da riqueza, e as hordas médias, remediadas e pobres não diminuiu nos últimos 200 anos bem pelo contrário.

2º A riqueza é dinâmica, sim. Basicamente, nos dois últimos séculos os mais ricos ficaram ainda mais ricos enquanto os mais pobres se tornaram um bocadinho menos pobres. Ou seja, a população mundial gerou mais riqueza -- mas quem dela mais beneficiou foram os que já detinham riqueza. A progressão não é aritmética, como o liberais querem fazer crer, mas sim logarítmica.

Falando em termos colectivos, «over the past two centuries the world also became a much more unequal place. Economic growth in the industrial core vastly outstripped economic growth at the periphery, so that the gulf between rich and poor worldwide widened to an almost unbelievable extent. The purchasing-power-parity gulf beween per capita income in the United States and in India today is not a factor of two but a factor of twenty. It is not that Indians are poorer than their predecessors of two centuries ago: today in India almost no one dies of famine; there is one television for every four households, and one radio for every two households. But standards of living and levels of material productivity in India have grown only a tenth as fast as standards of living in the developed industrial core.» (J. Bradford DeLong in The World's Income Distribution: Turning the Corner?, leitura obrigatória para os candidatos a liberais e para marxistas, ex-marxistas, etc.

Ainda em termos colectivos:

«There is an uneven distribution of resources in the world.
• About one-fifth of the world’s people live in the developed countries in the Northern Hemisphere.
• These people use two-thirds of the world’s resources.
(link)

3º Não encontrei data para basear outra convicção resultante da minha análise porque estou cansado do Google e de citações do óbvio, mas passando do geral para o individual temos o mesmo cenário: no capitalismo quem é rico torna-se mais rico do que quem é médio, remediado ou pobre numa proporção absolutamente desigual. Um exemplo de cabeça: numa sociedade capitalista que produza numa década mais 50 unidades do que na década anterior, 45 ficam nas mãos de 5% da respectiva população e 5 são "distribuídos" caritativamente pelos restantes 95%. É este o modelo defendido pelos liberais. Yeah, right, por cada televisão a mais nas casas das classes médias e baixas, por cada barraca demolidada e família que passa a ter um T3 com água canalizada e acesso ao ensino básico, a classe alta somou mais um iate de luxo, outro BMW e a terceira casa de campo com piscina. É este o modelo defendido pelos liberais. Afinal de contas, a riqueza é dinâmica: quem a tem quer ter ainda muito mais, quem a não tem contenta-se em ter um bocadinho mais.

O complexo mundo capitalista consegue escamotear estas irregularidades na distribuição da riqueza produzida pelo colectivo (e vão-se foder os que venham com argumentos tipo os ricos produzem mais que os pobres porque é uma falácia total, a interdependência é absoluta) em grande parte mantendo adormecidas as classes inferiores com as pílulas douradas do costume: fátima, futebol e fado, aqui usados como meros símbolos dos diversos ópios produzidos para entorpecer as massas enquanto as convencem que o consumo de tais ópios (o telemóvel e a roupa de marca, a moda, as férias em manada, os "exemplos" de atletas triunfantes, de VIP que sorriem nas capas da revistas, etc etc etc) as torna em pessoas "ricas" ou no mínimo burguesas.

4º Criar mais riqueza -- oh, eis a panaceia do capitalismo para se aguentar nas canetas! Por princípio nada tenho contra criar mais riqueza, caro PMF. Um mundo equilibrado com gente sã, pois claro que o seu objectivo será sempre o da espécie humana: criar mais riqueza, dar novos mundos ao mundo, sair da árvore, crescer, melhorar -- até chegar às estrelas, yes.

Mas -- caro PMF -- eu por mim acho que estava na altura de parármos para reflectir um pouco no modelo de crescimento em vigor, que continua a criar assimetrias gritantes por todo o lado (a guerra em curso contra o terrorismo é consequência de algumas delas) ao mesmo tempo que, em nome do progresso, exaure os recursos do planeta de forma muito pouco inteligente (com o Saber que acumulámos podíamos estar a explorar esses recursos nao só melhor como mais eficientemente) e que condena as gerações vindouras.

Para terminar este amargo texto de sábado à tarde, se quer saber a minha VERDADEIRA opinião, caro JMF, não acredito na capacidade das actuais gerações (sim, começando por mim e por você e acabando em Bush ou Bill Gates, para citar líderes conhecidos) de inverter o processo. Conclusão: prevejo um mundo crescentemente mais difícil e "quente" com problemas de todo o tipo e problemas novos e com cada vez meno harmonia, saúde e felicidade. Parafraseando Pacheco Pereira há uns meses no Abrupto, vamos dar corda aos programas espaciais porque a nossa trágica permanência no planeta Terra tem os dias contados. Só espero que levemos para outro lado as lições aprendidas neste com a deficiência do capitalismo.

Posted by pTd at 08:07 PM | Comments (5)

agosto 27, 2004

Que nem ginjas

«Entre duas soluções escolhe sempre a terceira» (ditado hebreu, citado de memória de Treblinka, de Jean-Francois Steiner).

Dedicado a jcd e a João Miranda.

Posted by pTd at 04:59 PM | Comments (6)

O terror

«O comunismo é o terror vestido de humanismo. Por isso me assustam tanto os bloquistas», diz Rui. «O liberalismo é o terror vestido de humanismo. Por isso me passaram a assustar tanto os liberais» cai igualmente bem e enquanto silogismo para as massas é tão verdadeiro quanto o primeiro.

Posted by pTd at 03:57 PM | Comments (2)

São os bovinos, estúpido!

«Nos países ocidentais os índices do HDI não param de subir. O que é que vês de estranho nos índices?» (jcd em comentário à entrada É the kultura, estúpid).

Não percebo. jcd, não vês nada de errado na tua frase? Se esses índices de suposto bem estar só sobem de um lado então não fazem mais do que agravar um desiquilíbrio que tem cinco séculos. O teu bem estar é adquirido à custa do bem estar de alguem noutro lado. A felicidade é mais que o nome de um boneco da Mafalda desenhado por Quino. A liberdade é mais que um pretexto para um bando de iluminados enganar e explorar as maiorias alheias. E quanto a ser o factor mais decisivo na produção de bens culturais deixa-me dizer duas coisas: a melhor literatura portuguesa do século XX, a melhor literatura russa do século XX e a melhor música brasileira do século XX (para citar somente três exemplos) foram produzidas quando esses países viviam em ditaduras, primeira coisa; segunda, a cultura é mais do que um "bem cultural" e, como a felicidade, não é mensurável em índices, que mais não fazem do que expor o ideário e os objectivos de quem os elaborou, de quem escolheu que vectores e trends contam e de dados são desprezíveis. (googla que vais encontrar um relatório a contrapor exactamente os dados desse, vai uma aposta? Eu hoje é sexta, não me apetece.)

(Para os epidérmicos cavalheiros que quiserem reagir intempestivamente à ideia de que é em cativeiro que se produz obra de nível: pensem duas vezes, leiam duas vezes, não foi isso que eu escrevi, não caiam na típica esparrela blogueira da tresleitura.)

A propósito do mesmo texto João Miranda publicou n'A Blasfémia o post Algumas contribuições da revolução russa para a cultura dedicado à minha pessoa. Um tal de AAA acha que eu tenho cegueira ideológica.

Não sei se ria se chore... Mas devo desmontar a bomba que eles prepararam.

«Sobre o bem que o comunismo faz à literatura» é como João Miranda começa insidiosamente o post que em boa hora me dedicou. Subliminarmente deixa nos leitores dele (como se prova com o comentário de AAA, que manifestamente não leu ou leu atravessado o meu texto) a certeza de que eu escrevi ou defendi que o comunismo faz bem à literatura, o que é desonestidade intelectual (e passei a perceber melhor as queixas da malta de esquerda) e abuso da mentira.

Sendo a blasfémia a melhor defesa contra o estado geral de bovinidade, deixem-me blasfemar contra jcd e João Miranda que andam manifestamente bovinos em relação ao capitalismo: ingenuamente eu julgava que o liberalismo era mais do que um garruço para esconder o porco capitalista selvagem típico, jcd obrigado por me teres esclarecido do contrário; eu julgava que a discussão ia mais longe do que "se não és pelo capitalismo és comunista", portanto obrigado João por me teres tão brilhantemente elucidado através do maniqueísmo mais básico que a Humanidade já conheceu. Podem convencer a papa mole dos cérebros dos vossos leitores e outros basbaques em geral que não distinguem Pasternak de manteiga pasteurizada, de que a vossa escrita não passa de uma falácia. Têm se fazer melhor do que isso, porém, se me querem convencer a mim.

Posted by pTd at 03:03 PM | Comments (7)

agosto 26, 2004

P.u.n.h.o. (tm)

A direita passa o tempo a usar os foragidos de Cuba para criticar o regime e glorificar O Grande Sistema Capitalismo Que A Todos Nós Enriquece, Exultai! A esquerda resistente tenta a via do humanitarismo e tal. Uns e outros usam factos como quem maneja um garfo e uma faca ao pequeno almoço. E ambos o que realmente querem é ir passar férias a Varadero. Como a areia já lá está, levem de cá um P.U.N.H.O.(tm).

Posted by pTd at 03:12 PM | Comments (4)

É the kultura, estúpid

Leio o bom liberal do jcd e reflicto. Sempre me enjoou a conversa sobre a alegada superioridade do sistema capitalista, glorificado no seu máximo expoente, os EUA, e a inferioridade do "comunismo" personificado no ex-bloco de Leste e na ex-URSS. Ou vice-versa, se for o caso de um interlocutor alinhado à esquerda.

Quem mais polui o planeta? Os EUA e a Rússia.

Quem fomentou as guerras nos últimos 50 anos dividindo continentes para tentar reinar? Os EUA e a URSS.

Quem roubou no Médio Oriente e pilhou no Extremo Oriente? A URSS e os EUA.

Quem distribui melhor a riqueza que produz? Nenhum dos dois, seguramente.

Quem, em nome da supremacia, esbanjou em marionetas desportivas e artísticas colossais fortunas que resolveriam esse problema basilar de milhões chamado fome?

Mas não é por aqui que me detenho. jcd escreve (o tema do post não me interessa, quero é partir [d]esta frase): «estará ele a pensar comparar a produção cultural norte-americana com a produção cultural dos tempos soviéticos, que por tantos anos idolatrou? É que a comparação entre a produção cultural dos agentes livres e a produção estatizada é de tal modo esmagadora a favor do mercado livre que só a má-fé ou a cegueira ideológica poderiam chegar a tão enviesada conclusão...»

O meu bom e liberal amigo jcd que me desculpe, mas ponto um está errado, ponto dois medir a cultura por aí é um disparate.

O que mais me impressionou na minha única visita à então URSS (a Lvov e Dniepropetrovsk, hoje na Ucrânia) foi a inteligência e a cultura das pessoas, tomadas como indivíduos. Costumo contar a coisa com todos os detalhes, mas vou omiti-los. Eu e o Octávio Ribeiro (hoje TVI) conversámos no inevitável Parque Gorki com idosos que em Portugal (ou no quente Sol do liberalismo que dá pelo nome de Estados Unidos da América e é chefiado por um idiota) passariam por indigentes homeless em três línguas (eles sabiam mais, nós é que não) sobre literatura mundial (eles conheciam a literatura portuguesa MUITO MELHOR, mas de longe, que nós a russa) e sobre isto e aquilo -- sempre sem interromperem a sua partida de xadrez.

Logo à chegada ao lusco-fusco da tarde a Dniepropetrovsk (onde o Benfica iria dar três secos ao Dniepr) eu tinha ficado intrigado. Havia lojas abertas! E bancas de rua! Via-as do autocarro. Assim que poisei a mala no quarto (que partilhei, na única vez na vida, com o saudoso José Neves de Sousa) sai a correr de máquina fotográfica em punho (tenho as fotos a 300 kms daqui, ou publicava algumas).

Espanto. As únicas lojas abertas àquela hora, depois das 19h e até ao jantar, eram livrarias. Nas bancas de rua vendiam-se... livros. Para desespero da comitiva que demandava já o ouro ucraniano de baixo quilate e o que mais houvesse. (Recordo que a viagem de regresso foi perfeitamente atípica: em vez dos relógios, sapatos e tecidos de marca habituais exibiam-se no avião , com ar de desconsolo, instrumentos musicais - quase a única coisa à venda nas lojas matinais.)

Com outros ucranianos falei de política. Era o tempo da Glasnost e o muro ainda não tinha caído mas todo o Ocidente esperava que Gorbatchov colocasse a URSS no caminho certo. Eles sabiam muito, mas muito mais que eu. Previram-me, quase ao pormenor, o que iria acontecer com a União Soviética (queda de Gorby, ascensão dos mafiosos do aparelho, podridão da economia, incapacidade democrática a curto prazo, incompetência generalizada nos meios de produção). Queriam fugir. Para qualquer lado onde pudessem ter oportunidades. Como qualquer ocidental com 28 ou 30 anos, queriam uma oportunidade.

O muro quebrou, as mafias inquinaram as economias de Leste. A liberdade de circulação trouxe a Portugal nos últimos anos milhares de imigrantes desse Leste. E hoje qualquer português que não seja (ou não se queira fazer) totalmente burro percebe as vantagens cultural e intelectual dessas gentes que chegam, humildes, para trabalhar. Basta conversar com elas. Em PORTUGUÊS.

Portanto, caro jcd, meta lá o ukeléle no saco que o mercado livre não é o único, e desconfio que nem é o mais adequado, bom produtor cultural. A liberdade de escolha não é uma aspirina que resolve as dores de cabeça da (falta de) cultura da Humanidade. E cure tudo o resto. O capitalismo gera mais pobreza que riqueza. Monetária e intelectual. Basta medir.

Posted by pTd at 02:14 PM | Comments (10)

Quando eu for grande

Quando eu for grande quero ser um blogger como o Rui Curado Silva da Klepsýdra.

É estranho... Conheço o Rui da net há uma década, ainda ele andava com os livros às costas lá por fora. Continuo a pensar nele pelo nick dele no PV (um talker, um antepassado do MSN, onde um grupo heterogéneo de malta se divertiu à brava durante uns belos anos), só ponho aqui o nome porque é o nome que ele quis assumir na blogosfera. Nunca nos encontrámos fisicamente, embora tenhamos tentado. É estranho lê-lo no blog (monólogo) em vez de discutir no PV (diálogo feroz). É como ver um sonho tornar-se realidade.

Posted by pTd at 01:58 PM | Comments (2)

agosto 25, 2004

O único que se lembra do que é o socialismo

«Manuel Alegre é o único do partido que ainda se lembra do que é o socialismo» (in Ovelha Negra, 2:37 de uma noite destas)

Ouvi a frase a anotei-a logo no meu P800 com a intenção de a reproduzir no blogue, dada a sua pertinência. Mas escapou-me (sei lá, pode ter acontecido alguma coisa no caminho para casa!). Recordei-a de imediato e fui buscá-la ao tlm depois de ler o (uma vez mais) excelente e recomendável artigo que Vital Moreira escreveu para o Público, Debates Socialistas, publicado também ontem, dia 24, no A Aba da Causa.

A propósito deste blogue, que serve de "aparador" de (outros) textos dos autores do Causa Nossa: e se a moda de publicar na net fora das edições electrónicas dos jornais pegar?

Posted by pTd at 10:57 PM | Comments (2)

Nós, os labregos

«O despesismo no seu auge. E depois andam os labregos a apertar os cintos e a contar os tostões para beber um café ao fim da noite.» (Cachucho em comentário no Barnabé)

Eu ao fim da noite é mais é cerveja -- mas vai dar no mesmo: somos uns labregos e eles aproveitam-se disso.

Posted by pTd at 10:37 PM | Comments (2)

Isto dos resultados quase 50-50 tá-se a tornar um hábito em mim...

I AM 59% METROSEXUAL!
59% METROSEXUAL
I am styling. I may have a bunch of fashion sense, but my macho man side leaks out here and there (mainly out my nose, I should buy some nose hair trimmers for Christ’s sake!)

[kudus para A falta de Sexo e a Cidade ]

Posted by pTd at 06:42 PM | Comments (1)

Há gajos que insistem

«Quando lhes tento explicar a fragilidade do argumento, pareço esbarrar numa parede de incompreensão que parece inultrapassável.» (Jorge Candeias in BdE como itálico)

Amigo Jorge, porque insistes? Não se pode falar à séria com judeus, cristãos, islamitas (linha fundamentalista) e marxistas sobre certos temas. Por exemplo a religião e a geopolítica. É impossível: é qualquer coisa que tem a ver com a lobotomia.

Estou bem à vontade: não sou permeável a gritos de anti-semita ou anti-católico pois tenho orgulho nas minhas raízes judaicas e fui educado como católico até aos 11 anos (quando chegou a altura da lobotomia, fui-me embora).

Posted by pTd at 03:11 PM | Comments (1)

agosto 24, 2004

O assessor

Um pouco atrasado mas cá vai. Vou defender os assessores. Merecem.

Antigamente a política era feita por políticos em instituições políticas. Um bom tribuno tinha lugar na Assembleia da República. Um bom tribuno regional, na Assembleia Municipal. Um líder com ideias, ou com pulso, ascendia com naturalidade no seu partido e eventualmente ao Governo ou a um cargo público onde fossem precisas ideias ou pulso. O peso mediático da política derivava do bom ou mau desempenho dos titulares. 95 por cento trabalho político tout court, cinco por cento imagem projectada para os media.

Hoje o exercício da política é realizado ao contrário. 95 por cento na arena mediática, 5 por cento nos gabinetes. O que se faz na realidade, em prol da comunidade, passou a ser menos importante do que o que se diz e faz pensar que se faz. A Assembleia da República é uma cadeia de produção ligada aos interruptores governamentais e aos lóbis financeiros. A Presidência da República tem a competência de assegurar que os padrões morais por que se rege a actividade das demais instituições nao resvalam demasiado. O governo tem a missão de aplicar localmente o que a Comunidade decidir globalmente -- com os ajustes necessários à realidade económica e financeira local (leia-se: assegurando os interesses do grande capital e fingindo que protege o cidadão).

Assim sendo, a função do assessor de imprensa e do assessor de imagem sobrevalorizou-se na política actual. Com naturalidade. É a vida, é a evolução do sistema de representatividade democrática dependente do capitalismo. Só não vê quem quer fingir que não quer ver. Não entendo porque resmungam tanto os resmungões do costume.

Agora, os assessores. Claro que nas universidades os cursos de comunicação já apontam para a via da assessoria. Alguns assessores -- sobretudo no poder local -- vêm de lá. Mas a tarimba continua a ser um valor importante. Tal como os contactos. A manha. A capacidade de detectar horas antes aquilo que vai acontecer nos media daí a bocado. nisso, um jornalista é perito. É craque. É a vida dele. Aperfeiçou-se nisso. O emprego dele dependia disso.

2+2=4. Um governante não (mostra que) governa sem um assessor ou uma bateria deles. Estava bem fodido se o fizesse: era triturado, feito em picadinho pela máquina mediática dos colegas e dos rivais. Onde o vai buscar? Onde estão os melhores profissionais do ramo. Aos media. Jornais, rádios, televisões.

Agora, os assessores. A carreira de jornalista é curta e é ingrata. Aos vintes um(a) gajo(a) cata notícias, está na rua, no meio. Desenvolve uma rede de contactos. Aos trinta está cansado da rua e dos ciclos repetitivos; o noticiário é sazonal, seja em termos naturais (os incêndios em Julho/Agosto, a época balnear em Maio/Junho, as cheias no Inverno), seja em termos políticos (os comícios de Setembro, as eleições de dois em dois anos), seja em termos financeiros (o sobe-desce da bolsa dia a dia, os relatórios trimestrais cm as inevitáveis entrevistas aos líderes empresariais).

É um ciclo cansativo, asseguro-vos. Aos trintas um(a) gajo(a) quer descanso. Os mais aguerridos optam pela grande reportagem, pelos palcos internacionais, pelas guerras. São poucos em grande parte porque a procura é menor. Uma parte maior sobe um grau na cadeia de comando e passa de aviador de notícias a gerente delas. São os editores, chefes de secção, etc.

Entrados nos entas uma percentagem consegue bons cargos de chefia, como director-adjunto, editorialista; outra parte fica com cargos de chefia menos bons, como sub-director, chefe de redacção ou editor especial; uma minoria é emprateleirada sob a a designação genérica de Grandes Repórteres, um eufemismo para os gajos(as) que não se conseguem meter em mais lado nenhum mas que adquiriram um peso específico tal que também não se pode corer com eles da Redacção, ficava mal; raros conseguem uma comissão de serviço numa embaixada no estrangeiro. A maioria vive desalentada nos intervalos do lufa-lufa da redacção, um parte dela torna-se alcoólica ou agudiza problemas de adições.

Como se vê, o campo de recrutamento é vasto. Há uma imensidade de jornalistas de grande competência que não está a exercitar devida e condignamente essa mesma competência por vários motivos (os cargos e chefias não são tantos que dêem para colocar todos e não é altura de entrar pelas vias processuais de escolha deste e daquele, ok?).

O apelo de fazer algo útil e basta pronunciar a palavra "público" para que as motivações irrompam, qual bandeira portuguesa à janela quando nos apelam à cidadania futeboleira. O apelo é muito forte. Não tanto pelo ordenado. Se acham que os 600 contos que se diz por aí vai ganhar uma assessora de imagem do Primeiro Ministro são um escândalo tenho pena de vocês, tirem os cornos da areia, hello? Isso ganha um chefe de secção de qualquer pasquim nacional digno do nome.

Talvez pelas regalias. A isenção de horário. O não ter de aturar o director e a porcaria das hierarquias da Redacção. E, claro, há casos em que o vínculo à função pública é um poderoso afrodisíaco. Olhem, para mim, que já tenho 44 anos, 25 dos quais a trabalhar, e não tenho nenhum cargo de chefia, era!

Um destes dias um familiar disse, meio a gozar meio sério, que dava uma palavrinha a um presidente de Câmara (que foi aluno dele) para me tornar assessor. O presidente em causa bem precisa de um, acreditem! Mas ri-me alto, claro. Tanto que, duas mesas ao lado, o dito cujo autarca olhou para a nossa familiar mesa... «Só devemos fazer aquilo em que acreditamos», filosofou finalmente o familiar confrontado com o meu escárnio. Eu não era capaz de assessorar um alto funcionário público em cujo trabalho não acreditasse, ou cuja figura não respeitasse (verdade em ambos os casos na pessoa em questão). Em caso contrário, com uma pessoa que eu respeitasse pelas qualidades intelectuais e ou capacidade de trabalho, e cujo projecto tivesse ambições de efectivamente contribuir para o bem comunitário (ambições fundamentadas, bem entendido, sou demasiado puta velha para alinhar em conversa de caca) era bem capaz de ponderar a aceitação. Tanto da "cunha" (pôrra! vivemos NESTE país!) como do cargo.

A finalizar. Para um jornalista ser assessor não é nada de mau. Para muitos é mesmo a única saída profissional digna (só tem mesmo de entregar a carteira profissional e inibir-se de tentar fazer jornalismo). E o melhor futuro que podem ambicionar num panorama jornalístico que atravessa tempos muito difíceis e uma crise encapotada mas bem real. Para o alto funcionário moderno o assessor, ou uma bateria deles, é absolutamente indispensável ao exercício do cargo político e público, tal é o grau de mediatismo -- e também a complexidade -- da sociedade democrática contemporânea.

Remate final: quem diz alto funcionário público diz alto funcionário privado, a diferença não é grande. Ele há é grandes empresas menos sujeitas à saraivada dos media onde se nota menos a necessidade. Mas noutras, e abstenho-me de dar exemplos, a valorização bolsista, nomeadamente, depende em grande medida de uma "boa" ou "má" imprensa e quem modula esse grau é... a bateria de assessores.

Posted by pTd at 10:02 PM | Comments (8)

O barco do amor

Estou com a blond girl. Farto de hipócritas e falsos moralistas. Vão todos comer no cú.

Posted by pTd at 09:58 PM | Comments (2)

1640

Regresso à a blogosfera e à mediasfera. Leio o Barnabé. Leio o BdE. Ouço MST e Marcelo na TVI. Leio o Expresso e o Público. Cada palavra, cada linha, reforça uma ideia que cresce em mim há algum tempo mas que só agora vou tornar pública. Portugal cometeu um erro histórico. Foi em 1640. Desde então é sempre a descer. E com a viragem do século entrámos na zona mais inclinada da montanha. Felizmente para a população desde bocado de terra (refiro-me às classes média e daí para baixo) a "corrida" acabará depressa. Dentro de uma geração.

Posted by pTd at 09:01 PM | Comments (3)

Glande

Paulinho, Obikwelu e Silva: obrigado por terem levantado a bandeira de Portugal nos Jogos Olímpicos.

Bom povo português: cadê o raio das bandeiras? É só a pôrra do futebol que vos excita a glande, é?

[Este tema merecia um texto mais profundo; contudo, Agosto é o mês do disparate e afundar por afundar, que o faça nas águas]

Posted by pTd at 08:28 PM | Comments (2)

agosto 20, 2004

Antes e agora

Antes: read my lips! Agora: read my blog!

Posted by pTd at 08:29 PM | Comments (4)

Friday night fever post :)

Conversas de banhos (imperiais) e massagens (emocionais) antes do jantar, numa sexta feira à noite...

«Bute beber umas ali abaixo ao conódromo?»

«Conódromo??!»

«Sambódromo, rocódromo -> porque não conódromo?»

«Ah. Fodódromo.»

«Boa! "Vou ali ao fodódromo", bahahahaha!»

«Orgastódromo.»

«Ah, isso é cá em casa. Isto é um verdadeiro orgastódromo...»

«Osgastródomo.»

«Pois. Domo, casa, tens razão.»

(Desconfio que vai ser uma sexta-feira de arromba...)

Posted by pTd at 08:20 PM | Comments (3)

Me desliga, vai...

A frase do mês, lida numa janela do MSN às 2:48 (a hora É fundamental): «me desliga, vai...».

Posted by pTd at 02:52 AM | Comments (2)

agosto 18, 2004

Há 5 dias

Há 5 dias que não escrevo no blogue. Preguiça. Falta de assunto. A única coisa interessante, além dos exercícios de ginástica e da natação dos JO, foi uma entrevista de Mário Soares à SIC Notícias. Devíamos ouvir mais vezes os anciãos que ainda dão uma dentro da lucidez quando se entusiasmam. Desde que não fosse sobre as presidenciais, até uma opiniãozeca de Cavaco era bem vinda, nos tempos de miséria intelectual que se vivem na política. Fonix, eu a escrever isto... A coisa está MESMO mal...

Posted by pTd at 08:11 PM | Comments (6)

agosto 13, 2004

Da cobardia

«Nos dias que correm quase toda a gente acha que tem algo a perder e, consequentemente, não está para se meter em confusões -- daí o meu descrédito na possibilidade de rebelião» (zt em comentário a O espectro da insurreição).

Mas porque é que só vemos o que temos a perder e não pensamos no que temos a ganhar? Que sistema social é este que nos instila tão profundamente o medo e a cobardia? Quem nos convenceu de que as nossas misérias (prestações da casa e do carro por pagar, um quintalito lá na terra herdado da família) têm valor?

Posted by pTd at 01:47 AM | Comments (14)

A propósito dos candidatos à liderança do PS

Acompanho desleixadamente o tema. Não tenho interesse directo no PS, pelo que nada tenho a ver com a eleição do seu secretário-geral. Só remotamente, enquanto cidadão, poderei dizer algo.

Pois é como cidadão que digo. A primeira análise ao que dizem os politólogos de serviço aos media informa-me do seguinte:

1. Há um candidato que não conta porque comete o crime capital de ser filho de um ex-secretário-geral.

2. Há um candidato que não conta porque representa o passado do partido e -- horror dos horrores -- tem pensamento próprio e um ideário de esquerda, ainda por cima "antigo". (O facto de ser um homem de Letras em vez de um homem de Ciências é também profundamente negativo.)

3. São os supracitados meros clowns para animar plateias antes da coroação do candidato-sabonete, homem com charme televisivo e sem ideias, logo um verdadeiro candidato a Primeiro Ministro.

A segunda análise aos politólogos não-alinhados e por conseguinte imaculados -- no sentido em que ainda não comem da panela do poder -- sempre aprofunda a coisa. Fico a saber que:

4. Clowns à parte, importa saber o que pensa o futuro secretário geral pré-designado antes mesmo das eleições. Sobre temas capitais e candentes como, por exemplo, o casamento entre gays e a adopção de rebentos por essas felizes famílias, o rendimento mínimo garantido e as arribas da Praia do Meco.

5. Sendo o pré-designado futuro secretário-geral um homem do "centro", não negociará com a "verdadeira esquerda", o que é preocupante.

Os pintaínhos da democracia deviam preocupar-se com o confrangedor rumo que ela toma, até no numericamente mais importante partido de esquerda. Digo numericamente porque é apenas nisso que o Partido Socialista se distingue; em termos de contributo para a oposição a importância de vozes independentes do centro político e de vozes agrupadas no Bloco de Esquerda é notoriamente mais importante. Sem esquecer algumas vozes esclarecidas do mediaticamente proscrito Partido Comunista.

Vamos aos pontos.

1. Não entendo porque não há-de ser João Soares um candidato "sério". É um político com estaleca, tem obra e passado, pode ser julgado por ele e dá a cara para o ser. É frontal e democrata no que a palavra tem de melhor. Acho absurdamente redutor transformá-lo num "sucessor" do pai; (merecidos) orgulhos à parte, João tem pouco ou nada a ver com Mário -- felizmente para o próprio, aposto.

Soares tem um programa e saber defendê-lo e defender-se. Soares não é propriamente uma arara desmiolada. Soares somou rica experiência na Câmara lisboeta, onde não fez pior do que, que me lembre, Sua Excelência o Presidente da República, Jorge Sampaio, ou que o eng. Abecasis. Soares é combativo. Soares não é temeroso. Mas alguém acredita que, com a sua preparação, Soares seria pior líder (partidário e governativo) que Guterres, o Pio?!?

2. Eu, se fosse PS, tinha em Manuel Alegre o meu candidato natural. Em boa verdade se diga que nunca fui seu fã. Via-o como apenas uma figura que ficava bem nas tribunas do poder partidário, bom tribuno of course, homem para contar com ele no dia-a-dia da labuta política mas nunca uma primeira figura. E a sua poesia nunca me cativou. Respeito, sim. Preferência, nem por isso.

Porém: é um homem com sólidas convicções fundamentadas num humanismo verdadeiro e numa longa experiência de vida e política; não parece nada mau estratega; adivinho que em seu redor saberia escolher uma plêiade de bons cérebros, capazes de governar um país e até acho que seria inteligente ao ponto de separar o cargo de secretário geral do partido do posto de candidato a Primeiro Ministro. Recordo que não é de lei serem os dois cargos ocupados pela mesma pessoa.

Considero um ultraje, uma ignomínia, que em política (sobretudo em política, foda-se! ainda se fosse um concurso de beleza ou uma prova desportiva!) o "antigo" seja não apenas desconsiderado como ainda tratado como lepra. Não defendo que a antiguidade seja um posto mas a sabedoria e o conhecimento acumulado, bem como a experiência, são valores a levar em conta. Desde as Comunas de Paris que os ideários estão marcados; as adaptações de figurino e discurso são isso, adaptações; do ponto de vista dos eleitores de esquerda, só vejo vantagens em ser governado por alguem que tivesse lido os clássicos e se inspirasse nos avôs da democracia moderna e do socialismo. (Desculpem; não é uma questão meramente formal, simplesmente não é concebível uma esquerda não-socialista, seja qual for o flavour desse socialismo.)

É inconcebível que se menospreze um candidato a líder pela sua cultura de origem. Canudo por canudo, porque é o canudo de engenheiro ou de advogado mais adequado ao exercício da liderança partidária?

3. Serei o único a achar no mínimo suspeito que os analistas políticos em particular e o povo em geral considerem que o melhor candidato a Primeiro Ministro seja aquele que tenha menos ideias e melhor aspecto na televisão? Será José Sócrates assim tão bom na televisão? E não terá de todo ideias?!?

José Sócrates foi um Ministro do Ambiente relativamente bom. O melhor que o país teve -- não foi grande coisa tendo em conta as necessidades urgentes do Ambiente do país, mas foi corajoso, até tomou medidas e tudo!, e pronto, foi o melhor que já tivemos e isso é evidentemente de levar em consideração. Domina decentemente a linguagem, o timing e as relações subterrâneas dos media, items ao que consta fundamentais para governar nos dias de hoje.

Ao contrário de Alegre, nutri no passado alguma admiração pela sua figura (a marca dele no Ambiente). Porém ainda não lhe ouvi discurso que não me soasse a mero soundbyte. É pena: com o capital de esperança que parte significativa do eleitorado olha para ele, poderia atrever-se um pouco mais.

4. As questões para Sócrates não são essas. Sem menosprezo algum para os gays, preferia perguntar ao já designado futuro Secretário Geral do PS a eleger formalmente um dia destes (quem se importa com a data? Aliás, o acto formal não passa de um desperdício de tempo ihmo) o que pensa ele sobre o excesso de influência do poder económico na sociedade portuguesa em particular e na europeia em geral, e se tenciona mexer um dedo e como no sentido de a diminuir; o que pensa ele sobre a justiça da repartição da riqueza gerada pelos trabalhadores portugueses, e se tenciona mexer um dedo para a tornar mais equitativa; o que pensa ele sobre o capital e sobre a sociedade capitalista e até que ponto tenciona pactuar ou romper com ela.

5. O "centro" não é necessariamente mau nem é necessariamente bom. É comumente aceite que se têm vencido as eleições no centro -- mas isso não significa que não se possam ganhar eleições à esquerda ou à direita. Em democracia as teorias eleitorais valem tanto como as sondagens: nada. Todas as teorias, mesmo as comprovadas durante um período de tempo, podem ser postas em causa num instante: basta haver um agente que ouse ir contra e, claro, reúna a capacidade pessoal, de persuasão e os meios fundamentados para a derrubar. Logo, não colhe esse fatalismo do "centro".

Embora considere o Eng. Sócrates um homem culto e inteligente, calculo que não lhe passe pela cabeça conquistar o executivo pela força das convicções e das melhores ideias em vez de pelo voto dos 100.000 estúpidos que, votando como borboletas em quem os atrai pela beleza, cor e cheiro, há 30 anos decidem quem governa Portugal. [O que explica muita coisa sobre o rumo do país, mas deixemos isso para outra altura.]

Talvez seja melhor para ele ir pelo centro. É óbvio que se dá mal com ideários e não aparenta grande afinidade com a história do socialismo, além de não evidenciar tipo algum de doutrina social (as frases feitas sobre os reformados e a segurança social não contam; estou a falar de doutrina, não de panaceia). Seria um desastre querer inovar. [Ao invés o "antigo" Manuel Alegre, ou um candidato da sua esfera, nunca seria um desastre nesse sentido de inovar, de romper o marasmo governativo, podendo embora sê-lo -- até pior, admito, embora me palpite que não, pelo contrário -- a nível de votação.]

Resumindo e concluindo: nada de auspicioso deve o país esperar da próxima liderança do Partido Socialista. Tudo será como até agora. No pasa nada.

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agosto 12, 2004

O espectro da insurreição

Há 25 anos que me rio íntima e pudoradamente dos pintaínhos da democracia. Hoje apanhei um período de texto genuinamente esclarecido sobre a matéria no qual se defende que, em liberdade, não é o voto a arma do povo mas sim o espectro da insurreição sempre e sempre pendente sobre os mandantes. Porque o manipulam a seu bel-prazer, não é o voto que os assusta; o que seria dramático, sim, era a maioria oprimida e mal paga rebelar-se. (Julgo que as instituições democráticas estão a soçobrar porém o "sistema" é mantido a golpes de ópio pelo poder económico.) Mas preciso de uma introdução.

Ontem à noite cumpri a minha peregrinação anual à feira do livro de Faro, um evento de difícil classificação tal é a sua escorregadela contínua, mas que possui dois atractivos irresistíveis (para mim). Um deles meço-vos numericamente: comprei onze livros da colecção Argonauta numerados na casa da centena! Como os connaisseurs da modalidade sabem, apanhar -- mesmo em alfarrabistas -- argonautas abaixo dos 300 é motivo de felicidade, portanto imaginem a minha infantil alegria e o nervosismo com que, olhando para os lados não fosse alguem desconfiado vir roubar-me o tesouro, ia tirando os livritos da pilha!

O outro é passar pela banca da Sotavento, de Júlio Carrapato, o mais diligente arauta dos temas acratas em actividade. Comprei uma preciosidade para a estante, A verdade sobre Cronstadt, de Stepan Petrichenko -- uma edição de A Batalha datada de 1975 e que custava na altura 20 escudos (esportulei, contentíssimo, o décuplo agora em moeda nova; uma pechinha moderna). Para ler adquiri Democracia ou Anarquismo, publicado em 2001 pelas Edições Sotavento. A troca de galhardetes entre Francesco Saverio Merlino e Errico Malatesta, o mais destacado pensador anarquista italiano e um inspirador do movimentos socialistas transalpinos.

Não conhecia Malatesta, só o nome. Comecei hoje a ler. E, como sempre acontece quando volto à literatura anarquista oriunda do profícuo século XIX, apetece-me logo transcrever passagens fatais para os dias que correm sobre isto a que uns continuam a apelidar de "democracia" e outros a engolir isco, anzol e linha.

Das "Notas da primeira parte", por Júlio Carrapato: «Quanto ao maranhão do Parlamento defender direitos, liberdades e garantias do Homem (esse ser abstracto, saído das páginas de qualquer bestiário fabuloso) e do Cidadão (essa coisa pública, oriunda do poder jacobino e do radicalismo burguês), é uma peta, ou treta, cada vez mais datada e que já fez o seu tempo, a despeito dos desesperados esforços da ideologicamente pobre e moralmente estafada retórica democrática. Historicamente, o esquema foi quase sempre este: as masas populares puseram as classes dominantes diante do facto consumado e arrancaram as ditas liberdades (de expressão, de reunião, de associação, etc) pel via insurrecional, de maneira mais ou menos espontânea e com uma auto-organização ainda insuficiente e descontínua, para logo a seguir, como crianças afectadas pela menoridade e incomodativas, serem instigadas a delegar poderes constituintes e legislativos em em representantes providencialmente amnésicos, que tratam logo de cerceá-las o mais que podem, até as reduzirem à mais ínfima expressão, preparando o caminho para a nova ditadura, ou transformando a democracia naquilo que, de facto, ab initio, ela sempre foi: o despotismo democrático dos representantes da maioria, infiéis por natureza e vocação, tanto à maioria que os elegeu quanto, a fortiori, à minoria que neles não votou, e sempre dispostos a valorizarem os assentos penosamente conquistados, como se de um investimento se tratasse» (negrito meu). Pensem nisto se puderem.

Posted by pTd at 04:54 PM | Comments (22)

agosto 11, 2004

Paneleiro não, foda-se

Em A merda do Verão eu referi o gin entre as bebidas paneleiras, o Fred e o pfig, amigos de copos e outras coisas engraçadas, atiraram-se à cena protestando pelo gin mas com eles posso eu bem:) não pude foi com quem pegou pelo outro lado, o lado do termo paneleiro, por isso aqui fica uma explicação: ao usar o termo bebida paneleira, que não retiro porque foi assim que saiu no momento e eu sou um bruto empedernido e dou a cara por isso, estava na realidade a querer dizer uma bebida de meninas, uma bebida de gente que (ainda?) não sabe beber; quis claramente ofender quem bebe gin, porém não quis ofender os paneleiros - em especial os que sofreram algures na vida tratos inumanos por serem alvo de chacota com essa palavra só porque têm preferências sexuais não-alinhadas com a pretensa maioria, eu uso a palavra paneleiro com um sentido pejorativo (que ela tem na origem) mas sem a carga discriminatória (que ela comportou e ainda comporta), e quem me conhece sabe que isto é verdade e pronto, Ricardo, tá esclarecido, obrigado, tinhas razão e desculpa não ter conseguido ser brilhante :( ele há noites... como a de hoje (e fica só entre nós).

Posted by pTd at 05:15 AM | Comments (8)

agosto 10, 2004

Efeito sacamulas

Meus amigos! Ando desiludido com a blogosfera. Nomeadamente com o seu efeito sacamulas, que até hoje se revelou inexistente. 579 posts e 0 quecas? Tá mal... Pelo que ando a pensar parar com o blog uns tempos e voltar-me para o Orkut, a Multiply e a PTNet (vulgo mirc). Se não me lerem, é por uma boa causa.

Posted by pTd at 04:19 PM | Comments (15)

Luta de classes

O Luís também escreveu hoje sobre utopia e libertação. É o que eu dizia ;)

Aponta uma entrevista de Carlos Díaz, ainda do Milénio passado, em que se vai no mesmo sentido em que eu fui: dava um jeitão à Humanidade ter novos sujeitos capazes de construir uma nova utopia. Excerto: «De todos os modos, fracassou a realização concreta da utopia, mas a necessidade de libertação é cada dia objetivamente maior: três quartas partes da humanidade passam fome. Fazem falta sujeitos históricos, pessoas e grupos que demonstrem com sua vida e sua reflexão que é possível outra civilização.» (in Carlos Díaz: um humanista libertário perdido em Madri)

Posted by pTd at 03:03 PM | Comments (6)

Raridades

Ainda este texto do Rui Tavares, sobre o qual tergiversei ali: é uma raridade preciosa! A qualidade do post. A temática. E, helás!, a qualidade dos comentários. Nem parece o Barnabé. Um momento alto da blogofonia.

Posted by pTd at 05:26 AM

Libertários

batalha.jpg «Como libertário, também tendo a desconfiar das utopias e a preferir-lhes a espontaneidade» escreve o Rui Tavares no Barnabé. Nada contra o post, pelo contrário. É a palavra. De repente vejo montes de gente da esquerda blogueira a reclamar-se de libertária, acrata e essas coisas. Já ando a pensar mudar o meu cabeçalho, pois claro. Não é por eles (gosto de todos os que encontrei até hoje). É por mim. Sou egoísta. E lá por ter lido A Batalha quatro lustros atrás não fiquei cliente do "novo" anarquismo que consiste num bando de putos que leu umas coisas antigas engraçadas, compradas por euro e meio nas arcadas do Terreiro do Paço, e as aplica ao mundo de hoje com o mesmo zelo e sapiência com que os médicos do século XIX prescreviam penicilina.

Não é só a esquerda que precisa renovar-se. Não é só a direita que anda completamente a leste do que conta. Também os pensadores libertários precisam de novos ideários. Bakunine está mais perto do final do século XX do que parece à primeira vista e a luta de classes permanece mais actual do que nunca -- só que, horror!, não se pode pronunciar o chavão em salão nenhum sob pena de enfrentar um pelotão de fuzilamento. Porém o calendário dobrou o milénio e enfrentamos desafios ainda maiores. Globais.

Estou inclinado a concordar contigo, Rui, mas uma utopia das boas agora dava um jeitão do camandro, essa é que é essa!

(imagem tirada há instantes do site do jornal A Batalha, vítima de um defacement há sabe-se lá quanto tempo. Premonições.)

Posted by pTd at 04:50 AM | Comments (8)

A merda do Verão

Noite de pastorear o rebanho. As segundas feiras são, neste Verão que corre manso, o melhor dia da Ovelha Negra - atrevo-me a dizer. Hoje não foi excepção. O que gosto eu realmente naquele bar?

O alinhamento das garrafas, da esquerda para a direita, em quatro filas: os vodcas; os rums; os uísques; as bebidas paneleiras (gins e essas merdas brancas e coloridas). O blend de salgadinhos, provavelmente o melhor do mundo. O impenetrável facies da Carla quando a coisa está a correr mal, a calma da Carlota idem e o charme da Cristina aspas. Os djs. As gajas. O barril de Superbock.

Não contei antes, conto hoje. Aproveito a embalagem. Na sexta passada estiveram lá bloggers famosíssimos como o Luís Ene e dona Vitriólica, acompanhada da sua menina Cèlinha. Fartei-me de dançar com a Cèlinha e de beber com o Luís e de conversar com a Vitriólica. Mas foi a pior sexta-feira anos 80 de que tenho memória. Se não fossemos eu e a Cèlinha a animar a pista... A merda do Verão, é o que é.

Posted by pTd at 04:02 AM | Comments (12)

Geeks, nerds e tribos tech

A propósito do meu texto sobre a MCP e do seu alvo (target para os gajos/as metidos/as a modernaços) decidi fazer algum trabalho póstumo sobre aquilo que mencionei como os geeks, nerds e outras tribos da informática/internet/tecnologia. Em Português não encontro (haverá?) uma palavra que una o conceito. Aliás, em inglês também não. Alguém a invente que eu hoje não me apetece.

Assim temos os geeks:
n. Slang
1.a A person regarded as foolish, inept, or clumsy.
1.b A person who is single-minded or accomplished in scientific or technical pursuits but is felt to be socially inept.
2. A carnival performer whose show consists of bizarre acts, such as biting the head off a live chicken.
geek is now chiefly associated with student and computer slang; one probably thinks first of a computer geek. In origin, however, it is one of the words American English borrowed from the vocabulary of the circus, which was a much more significant source of entertainment in the United States in the 19th and early 20th century than it is now.

Porreiro. Agora os nerds:
nerd also nurd
n. Slang
1. A foolish, inept, or unattractive person.
2. A person who is single-minded or accomplished in scientific or technical pursuits but is felt to be socially inept.
The word nerd, undefined but illustrated, first appeared in 1950 in Dr. Seuss's If I Ran the Zoo: “And then, just to show them, I'll sail to Ka-Troo And Bring Back an It-Kutch a Preep and a Proo A Nerkle a Nerd and a Seersucker, too!” (The nerd is a small humanoid creature looking comically angry, like a thin, cross Chester A. Arthur.)

Fixe. Agora o resto das tribos é mais difícil. Façam por mim o seguinte exercício. Imaginem-se num festival de música pop ou em qualquer outro acontecimento de massas de um jogo de futebol a um cinema a um comício político a uma Festa do Avante! Reparem nas pessoas. Estão em grupos de variados tamanhos e sortidos consoante os seus níveis de ajustamento ao acontecimento em causa. Cada grupo é uma tribo. Juntas, são a tribos da música/bola/cinema/política. Há os que não pescam patavina mas querem (os wannabees). Há os que fingem que pescam e dão-se ares. Há os que pescam e tentam não dar ares. E há os que se estão a cagar para esta merda toda das prateleiras, estão lá só para curtir.

Got da picture? As tribos tech, por assim dizer, são iguais. Juntem-nas todas e têm o ambiente da MCP. Dah.

(Definições segundo o Dictionary.com)

Posted by pTd at 03:43 AM | Comments (1)

Blogroll I

Admito: a minha blogroll já cheirava mal. Acho que não a mudava há seis eternidades. Comecei hoje a mudar. Cadáveres para fora e duas entradas novas [Estremoz in loco e A Falta de Sexo e a Cidade]. Para já.

Posted by pTd at 12:25 AM

agosto 09, 2004

Como comer amigas, parte 3

A Falta de Sexo e a Cidade: blogue a seguir com muita, muita atenção! Nota cinco para a séria Como comer amigas.

Posted by pTd at 08:14 PM | Comments (1)

Wazap, a origem do berro

A mão amiga da Catarina Teixeira, da Bairro Alto que partilhou os inesquecíveis momentos da MCP, enviou-me filmes dos anúncios da Budweiser que estão na origem do Waazaaap!. Seguem-se links.

o meu favorito :D (1,3 M)
yo! (952 K)
uátsabi! (2,4 M)
yes! yes! wha gam you're watchin'?... (4 M)

Posted by pTd at 05:03 PM | Comments (6)

Waazaaaaaap!

[Texto original, sem processamento, destinado à publicação no Expresso/Única de sábado dia 7 de Agosto]

Relato de quatro dias de arromba na Minho Campus Party, o maior acontecimento tecnológico em Portugal.

Já estamos instalados com os dois computadores ligados e a funcionar há uns bons 20 minutos quando ouvimos o grito ecoar pelos 10.000 metros quadrados que este ano acolheram a Minho Campus Party, MCP para os amigos. Centenas de gargantas fazem coro, a Catarina olha-me surpresa. Limito-me a sorrir. É estranho e arrepiante mas depressa se torna familiar. Em breve juntamos as nossas vozes ao coro que grita «Waazzaaaaaap!». Está apresentado o símbolo do acontecimento: um berro gutural espontâneo soltado dezenas de vezes ao dia durante os cinco dias que dura a maior festa “geek” realizada em Portugal.

É preciso descrever o ambiente para compreender o símbolo. Estão perto de 2.000 pessoas no mesmo espaço, este ano o parque de estacionamento subterrâneo do novo e lindíssimo Estádio Municipal de Braga. Sejam participantes (cerca de 1600), sejam membros da organização (160 para mais), praticamente todos estão a teclar frente a um monitor. O som ambiente é mais baixo do que seria de esperar. Largas centenas de pessoas e silêncio, eis uma combinação rara. É quase como numa igreja só que aqui a actividade é frenética. A maioria participa em jogos cheios de acção e ruído: se não fosse proibido o uso de colunas (usam-se auscultadores) o barulho seria caótico, ensurdecedor.

De tempos a tempos o grito surge. Umas vezes é uma única voz que berra, noutras um grupo previamente combinado através do canal de IRC lança o grito em uníssono. De imediato há réplicas com dezenas, centenas a fazerem coro. As repetições duram três, cinco segundos no máximo, e logo regressa o relativo silêncio. É uma maluquice, certo. Mas é a forma de todos dizerem que estão ali, vivos, presentes também de corpo uma vez que a sua presença é sobretudo virtual, através da rede, e a interacção mútua passa quase em exclusivo pelos cabos. É o sinal de comunhão.

HORRÍVEL! NÃO HÁ COCA-COLA!
Para a integrar no ambiente deixo a minha filha procurar por ela própria a explicação do «wazap», também grafado “wazup”. É uma abreviatura corrompida de “what’s up” e remonta a um anúncio publicitário que esteve na moda nos EUA há anos. A MCPTV (Minho Campus Party TV, a emissora de televisão que este ano se estreou no evento) passou o respectivo “clip”. Perdida para sempre está a oportunidade de saber como e porque começou esta estranha tribo da Internet a usar o grito. Perguntei a diversas pessoas que estiveram nas outras três MCP. Ninguém recorda. O berro tem evoluído. Este ano houve uma “nuance” em Português com um «ózééé!» que, gritado, soa quase igual. Há mais berros soltados enquanto expressão colectiva de um grupo que apesar de estar junto comunica quase exclusivamente através dos dedos em cima do teclado e do rato.

Na sexta feira, tarde em que o calor se fez sentir, cada intervenção da porta-voz que anuncia os eventos (fases dos jogos, provas de telemóveis, conferências) era calada com um sonoro «Água! Água!» Um protesto a dois níveis. Primeiro, contra o barulho pois a aparelhagem sonora nunca acertou com o volume. «Tínhamos poucas colunas, para o ano temos de espalhar mais pela sala, de forma a poder fornecer um som decente», explicou-me Filipe Vale, membro da Associação Industrial do Minho encarregue da comunicação da MCP. Segundo, a falta de abastecimentos líquidos. Em termos gerais esta quarta MCP foi a melhor a quase todos os níveis, o que é reconhecido por toda a gente, dos participantes à organização. Porém, noutras edições as bebidas (água e coca-cola sobretudo, mas também as energéticas) não se esgotavam nunca por mais de meia hora; desta vez quase não havia bebidas na sala e, horror dos horrores!, o bar não vendia Coca-Cola ou, vá lá, Pepsi, mas sim uma cola de uma marca impronunciável.

A noção de que as coisas estavam a correr bem, tive-a mal entrámos no recinto. Chegámos, pai e filha, ao fim da tarde de quinta-feira, o segundo dia. Segundo dia é forma de dizer porque na realidade o evento é declarado aberto por três vezes. A primeira na tarde de quarta-feira quando se abrem as portas e o fluxo começa a entrar. Vêm em grupos ou sozinhos, os mais novos trazidos pelos pais (há quem use a MCP como um mini-campo de férias, baratíssimo atendendo aos 70 euros da inscrição com direito a rede, energia, tendas, lavabos e três refeições quentes por dia) e fazem uma longa fila. Este ano o tempo de espera nunca superou uma hora, para alívio geral. Em 2003 houve quem desistisse indignado com as seis horas da fila.

A segunda abertura é o momento solene, com contagem decrescente, em que os “routers” passam a fornecer à rede interna conectividade para a Internet – geralmente acontece à meia noite de quarta para quinta.

Finalmente há a inauguração pomposa: ministros e autarcas, rodeados de um séquito de jornalistas episódicos e assessores de Imprensa zelosos, fazem o “tour” da praxe entre a maquinaria que sustém a rede e as filas de pessoas ligadas à máquina e passam revista a colaboradores, seguranças e pessoal da Cruz Vermelha, tudo aprumado e ainda sem olheiras. As imagens que passam depois nas televisões são captadas nessa altura. Correspondem a um vôo de mosquito sobre o evento.

BITS E AMENDOINS
Chegámos nesse preciso momento, pelo que, na minha qualidade de jornalista, lá fui arrastado pelo séquito, desconfortável na minha “t-shirt” de guerra e com uma filha de 11 anos ansiosa por se ligar à máquina. Mas aproveitei para sacar informações. Porque é que a Portugal Telecom decidiu este ano apostar tanto na MCP? Porque tinha necessidade de boa comunicação e nada de relevante para comunicar. Daí que tomou de assalto os media – ao ponto de parecer, a quem lesse os “takes” da agência noticiosa oficial, que a PT é a grande responsável pela Internet do Futuro, pela Minho Campus Party e ainda a Grande Inventora do IPV6 e arredores... Dei os parabéns ao responsável: do ponto de vista dele, o assalto ao castelo jornalístico foi uma vitória. PT, 1-Jornalismo, 0.

Quanto aos verdadeiros organizadores, a Associação Industrial do Minho ficou estrategicamente contente com a colagem da PT porque esta garante à MCP maior amplitude mediática, o que vai no sentido do seu objectivo principal: dar a conhecer o Minho como a principal região do país em termos de novas tecnologias. O que permite duas coisas: captar investimento de fora e sobretudo assegurar condições para que o capital técnico e humano desenvolvidos na região, com forte destaque para a Universidade do Minho, assente praça por lá em vez de ir alimentar as economias lisboeta e portuense. Bem visto.

O investimento da PT no acontecimento fica-se na realidade pelos amendoins. O sapo insuflável gigante coloria a entrada do recinto que de outro modo passaria despercebida. Os 455 Mbits de conexão entre a MCP e a rede da PT, com um estrangulamento posterior para cerca de metade em termos reais de Internet, são trocos para o operador incumbente. E o “staff” cumpriu a sua função de aparecer nos momentos-Imprensa e deixar o pessoal da Cisco, Universidade do Minho e Eurotux trabalhar em paz no resto do tempo. Os interesses são outros. Até aqui a MCP tem dependido da conectividade da PT, único operador capaz de garantir tamanha ligação, mas no próximo ano o cenário adivinha-se bem diferente. «Até eu ponho cá facilmente dois Gigabits e a preço simbólico, tenho a fibra a dois quilómetros, bastará negociar com alguma antecedência», garantiu-me um amigo de um operador em expansão. E, claro, no Verão de 2005 já deverá estar operacional a ligação de 2 Mbits da Universidade do Minho à Internet graças a um acordo firmado há menos de um mês com a Refer Telecom, num concurso que a PT... perdeu. Portanto, a AIMinho tem as costas quentes e capacidade negocial. Mas a PT é sempre um parceiro de peso. Bem visto.

PASSAR PELAS BRASAS NO CHILL-OUT
Seja como for, quem ganha é o Minho e os felizes participantes da MCP. Felizes é a palavra certa. Com mais ou menos olheiras, nunca vi tanta gente feliz. Além da falta de Coca-Cola a principal queixa que registei foi a da qualidade da comida, este ano abaixo da bitola do ano passado. Não é que fosse má: apenas era inferior. Quando passava pela equipa da Cruz Vermelha via-os a combater o sono, sem nada que fazer. Bom sinal. No ano passado um ataque epiléptico ainda causou transtorno. Este ano, «nem disso houve talvez porque esteve menos calor no recinto», reflecte Ricardo Oliveira, o homem da Eurotux responsável pelo bom estado da rede – mas também um amigo e confidente, um poço de informação graças à sua larga experiência na MCP. Aliás, quando entrámos disse à Catarina que se tivesse algum azar e o pai não estivesse por perto, era só dirigir-se ao Ricardo. Não foi preciso.

Ainda uma palavra sobre o Ricardo e a minha convicção de que as coisas estavam a correr bem: este ano não tivémos as nosas habituais conversas nocturnas, nem lhe punha os olhos em cima depois das duas da manhã. Explicou-me que a parte técnica correu bem. Acredito nas suas palavras, é boa fonte, mas nem precisava responder. Bastava saber que ele ia dormir mais de cinco horas por noite para compreender que não havia problemas.

Os casos mais graves para a Cruz Vermelha foram o de uma colaboradora do “catering” que teve uma quebra de tensão e necessitou tratamento hospitalar e o de um participante que não conseguia mexer as pernas depois de vários dias sem se levantar do seu posto. E não, não era aquele fulano que estava à minha frente e que nunca vi levantar-se, juro. Teria uma aligália, levar-lhe-iam a comida? Ou esteve a soro? Sei que só o via ou a disparar, ou reclinado na cadeira a dormir, aconchegado no saco-cama.

O saco-cama é um objecto conveniente, todavia dispensável, para participar na MCP. O único indispensável é mesmo o computador. No entanto há quem leve mais coisas. Como confortáveis cadeiras de executivo, de couro, largas, com braços, daquelas que até dão para... adivinharam: dormir. Mas dorme-se em qualquer lado. Nas tendas fornecidas pela organização, obviamente. Mas o chão é duro. No segundo dia fui a um supermercado comprar um colchão de campismo. Idade obriga... Há quem durma no “chill-out”, zona que é um misto de descanso, ponto de encontro e local de conferências. Tem habitualmente uns “pufs” altamente confortáveis. Durante a noite é impossível encontrar um vazio. Se alguma vez for convidado para uma conferência na MCP, escolha a quarta ou quinta feira: a partir de sexta metade da plateia está a dormir.

Compreendam: não é que as tribos do computadores sejam dorminhocas, longe disso. Em 1500 almas há sempre uns fracos que não aguentam três directas seguidas, só isso. Lá por passar pelas brasas no “chill-out” não nos caem os parentes na lama...

PRÓPRIO PARA RAPARIGAS
Mas afinal o que se passa na Minho Campus Party – está por esta altura o leitor a perguntar. Resposta politicamente correcta: um ajuntamento de “nerds” e “geeks” e “wannabees” e outras tribos da informática, todos ligados em rede e à Internet durante quase cinco dias. A rede é única em Portugal. Tem uma logística diabólica capaz de atrair as multinacionais do sector, como a Cisco, que ali testam produtos e soluções num ambiente real que não se consegue reproduzir em laboratório. (Num laboratório não se colocam 1500 malucos a levar a rede aos limites com truques impensáveis e usos extremos.) Quinze quilómetros de fibra óptica, 25 quilómetros de cabo de rede, um pouco mais de cabos eléctricos e 35 mil euros de prémios. É um acontecimento capaz de colocar Braga, a capital portugues do “software”, no mapa e nos noticiários. Que à quarta edição atingiu a maturidade em termos de organização e não só: as empresas começaram a aderir (e a obter retorno, como foi o caso explícito da Vobis) ao espaço de feira e as apresentações passaram do voluntariado para oradores de peso.

Mas a resposta do coração é outra. Trata-se de uma festa. A maior festa nacional das tribos tecnológicas. A melhor comparação é esta: o que se faz num festival musical de Verão? Basicamente o mesmo que se faz em casa: ouvem-se os grupos favoritos. Com a diferença de se participar num festival com outras pessoas de gosto semelhante. Como num festival musical aqui há vários tipos de pessoas com diferentes objectivos. Uns vão jogar. Outros sacar ficheiros. Outros ainda participar nas competições. Outros, menos, apenas respirar aquele ar. A diversidade é característica base da MCP. O mais novo era o Bruno, cinco anos, emérito jogador de Unreal e uma das principais figuras: não houve jornalista que o não entrevistasse (excepto eu) e fotografasse. A maioria entre os 15 e os 30, estudante, homem. Contudo, esta quarta edição da MCP registou – para agrado de todos! – um súbito aumento da participação feminina, cinco por cento contra o um por cento de 2003. Foram cerca de 80 as mulheres inscritas, em parte porque havia descontos para os clãs com elementos femininos, em parte porque mais jovens se atreveram a convidar as namoradas, em parte porque o ambiente da MCP já ficou definido nas anteriores edições como de “próprio para raparigas”.

O ambiente – eis a magia da MCP. É por ele que se grita tolamente «waazaaaaaap!». É por ele que todos querem voltar na próxima edição. «Até os colaboradores!», confidencia-me Filipe Vale. «Pedem-nos para marcar lugar de um ano para o outro». É por ele que se suspira às 13:00 de domingo, quando a rede é desligada. É por ele que em 2005, seja em Braga, em Vila Real ou até em Lisboa – onde a AIMinho gostava de vir mostrar a eficácia da equipa que tão bem oleada foi ao longo destes quatro anos –, eu e a Catarina voltaremos. Com colchões de campismo, menos roupa e uma caixa suplementar de CDs graváveis.

Posted by pTd at 04:10 AM | Comments (8)

agosto 06, 2004

72 horas

Foi quanto duraram as minhas férias. A água em Porto Covo esteve um espectáculo, valha-me isso [a massa de cherne, os perceves e o sexo, melhores ainda]. Regresso amanhã ao trabalho. Aos leitores e clientes que ainda não receberam resposta: durante o fim de semana avio o expediente. Um abraço.

Posted by pTd at 07:49 PM | Comments (3)

agosto 03, 2004

Waazaaaap!

No próximo sábado são 4 páginas na Única/Expresso sobre a Minho Campus Party. Depois porei aqui o texto completo, pois para a edição papel tive de cortar 3.000 caracteres. Abaixo a foto do pior momento da festa: a minha apresentação sobre blogues :P

paulo querido na Minho Campus Party

Posted by pTd at 07:00 PM | Comments (12)

Diferenças

A idade esbate todas as diferenças. ____________________________________
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(o amigo leitor que preencha a gosto as diversas ramificações filosóficas da frase que a mim dá-me seca.)

Posted by pTd at 04:42 AM

Com a herança da minha avó comprei uma aldeia em Tetuan

Durante duas semanas toda a gente da aldeia comeu produtos alentejanos. Cheguei a Faro com os calções que tinha, mai nada.

Não o via há uns quinze anos. Continua desdentado.

Posted by pTd at 04:38 AM | Comments (1)

3:33

Às 3:33 Luís? A tequilla fez-te mal?

Posted by pTd at 04:36 AM | Comments (2)

Nas tintas

Na mesma noite e no mesmo bar foram-me apontadas três pessoas como sendo cocainómanas (porquê a mim, foda-se, terei cara de dealer?). De uma sei e não digo (desilusão, Rita, não sobrou nada, né? Mas gostei de te ver anyway e sabendo que não foi recíproco). De outra se for verdade terei pena (a expressão boa comó milho diz-vos alguma coisa?). Da outra, nas tintas. Brancas.

Posted by pTd at 04:35 AM

agosto 01, 2004

Ela era a rainha do baile e depois casaram

Para o Carlos, que faz hoje anos, uma lembrança do antigamente:

a-rainha-do-baile.jpg

Posted by pTd at 05:47 PM | Comments (2)

Dois doces a quem adivinhar quem são estas famosas bloggers!

Esta é muito mais difícil, pelo que o prémio duplicou: dois doces a quem adivinhar quem são estas duas bloggers de intensa actividade!

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Posted by pTd at 05:22 PM | Comments (8)