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abril 30, 2005

Nova oportunidade!

Este dia 1 de Maio, pelas 17:00, na FNAC do Almada Forum, é apresentado o livro Mil e uma pequenas histórias, do Luís Ene. Se não teve oportunidade de estar no lançamento na Ler devagar, tem agora nova chance de ouvir, e estar à conversa, com o Luís e também com o editor (eu mesmo!). Haverá espaço também para falar dos blogues e do projecto editorial leiturascom.net. Apareçam!

Posted by pTd at 10:57 PM | Comments (2)

Do simbólico

Era o fim do piquenique e recordámos a época em que este blogue mudou de subtítulo. De empedernido passou o acrata a amolecido e só parou no derretido!.

Mesmo que (e geralmente é assim) não o seja conscientemente, sou um homem de símbolos. Talvez os símbolos sejam o fio que tece as ligações no meu espírito, uma vez que a minha liberdade intelectual deixa pouca margem a elos, não sei.

A autoria deste blogue evoluiu nos últimos meses de acordo com o prenunciado no subtítulo em finais de Novembro, inícios de Dezembro de 2004. O pTd, avatar algo truculento do Paulo Querido, perdeu o cinismo à flor do teclado (o empedernido), amoleceu e abriu a porta a um pTd mais perto do essencial do Paulo Querido: um pTd derretido pela magia da vida, do amor (aqui usado com a latitude das relações de bem estar entre as pessoas, familiares, amigos e mesmo desconhecidos).

Os valores simbólicos são em mim (Paulo Querido e seu avatar, pTd) valores seguros, fortes.

Posted by pTd at 04:08 PM

abril 29, 2005

Sharecontent

Vai funda a conversa à volta dos conteúdos pagos. Mas é mais um combate de wrestling do que de boxe. Trata-se de uma polémica em torno de uma evolução natural -- e legítima -- da web e seus "habitantes". Pelo que um pouco de história não faz mal, pelo contrário.

Ainda antes de conhecermos a Internet já existia, no mundo da informática, um conceito comercial revolucionário: o shareware. Penso que toda a gente já usou, ou usa, shareware. O shareware distingue-se do freeware e das licenças GPL e da generalidade das licenças open source.
O freeware, como o nome indica, consiste em dar os programas de forma totalmente livre, ou seja, sem nenhuma espécie de compromisso entre o autor e os utentes (algum apoio técnico não passará de um exercício facultativo, as mais das vezes prestado pela comunidade de utilizadores). O autor produz o freeware por diversas razões, como a de fazer evoluir as suas competências técnicas com programas reais em vez de simulações de laboratório. Ou então a de se promover, tornar conhecido, conquistar respeito e admiração -- valores que acabam, mais tarde, por lhe facilitar a entrada no mercado de trabalho ou o simples recrutamento tarefeiro.

As licenças de código aberto seguem uma lógica semelhante.

O shareware também. A diferença está em que um programa shareware tem (pelo menos) duas versões: a de utilização gratuita e a licenciada, paga. A licenciada apresenta ou funcionalidades indisponíveis na versão gratuita, ou apoio técnico, ou acesso ao autor, ou então uso por tempo indiscriminado (com a versão gratuita limitada a um mês, como é vulgar).

É curioso verificar que as maiores software-houses sempre conviveram bem com o shareware e o freeware, e menos bem com o código aberto. Aquelas não constituem ameaça, apenas assentam num modelo comercial alternativo. Aliás, mesmo grandes casas distribuem muitas vezes programas em regime de shareware. Historicamente, o shareware foi essencial ao rápido desenvolvimento da indústria do software.

Programas que começaram por freeware, evoluiram para shareware e se tornaram comerciais, acabando comprados por alguma das casa grandes. Dos antivírus aos compactadores, os exemplos são diversos. Nuns casos os autores originais mantiveram algum controlo, continuando a testar as novas versões pelo circuito shareware antes de as passar "para cima".

Do ponto de vista do marketing, o shareware é uma espécie de ovo de Colombo. Trata-se de promover e distribuir um produto pelo mercado, que o testa antes de comprar. É um conceito irresistível para produtores e consumidores. Usou, gostou, quer mais? Paga.

Na "indústria dos conteúdos" segue-se o exemplo dado pelos early-adopters das tecnologias de partilha de informação e conhecimento, vulgo Internet.

[ "Partilhar" não significa obrigatoriamente "dar". Aliás, a partilha é em regra uma troca; que a troca seja feita em espécie em vez de em bens ou serviços, é apenas um detalhe -- e a História do comércio comprova isto mesmo. ]

Hoje, é vulgar vermos as grandes empresas analistas usarem as técnicas do shareware: distribuem livremente conclusões dos relatórios, promovem-nas nos media e entre a comunidade; quem desejar /precisar de aprofundar o tema, adquire o relatório. Ninguém é obrigado a fazê-lo. Uns relatórios / conteúdos são mais apetecíveis que outros, obtendo naturalmente maior sucesso. Este "darwinismo" segue a lógica do mercado livre.

Tendencialmente, os produtores de conteúdos (palavrão que aqui designa qualquer bem passível de distribuição em formato digital) estão a adoptar o "novo" modelo, projectado e testado com amplo suceso na indústria do software. Músicos partilham os seus temas através deste canais, dispensando em parte as labels. Cartonistas evoluem histórias por encomenda dos leitores. Fotógrafos exibem as baixa resoluções das suas obras, vendendo as altas resoluções necessárias à impressão e distribuiçã noutros formatos.

Ao contrário do que supõem os rezingões "velhos do Restelo" cá do burgo, a "comunidade" gosta do modelo e participa com afinco, esportulando os cêntimos necessários (ou as centenas de euros, se for o caso). O modelo é adequeado às necessidades de todos. É um modelo justo para produtor e consumidor. É um modelo confortável e alternativo ao comércio dos átomos.

Penso que o sharecontent, por assim dizer, é uma evolução natural na web. É já uma realidade. Considero natural e desejável promover livremente artigos, textos e análises através do "balcão" que é um blogue, tendo a possibilidade (privilégio de cada um de a explorar ou não, conforme a sua conveniência) de estabelecer com o leitor um acordo comercial para lhe facultar uma visão mais profunda de alguns desses artigos, textos e análises.

Como no shareware, teremos multidões que apenas precisam da versão gratuita e minorias que desejarão aprofundar a ligação ao autor.

Como no shareware, teremos uma incrível, exponencial distribuição de conteúdos excitantes e espectaculares, a esmagadora maioria partilhada sem envolver dinheiro.

Como na indústria do software, teremos na indústria dos conteúdos (de que a blogosfera faz parte) a sã convivência entre informação livre (a maior quantidade, de longe), informação partilhada em regime de troca de serviços, e informação distribuída contra pagamento em espécie.

Não quero "educar" os velhos do Restelo por considerar tonta tal tarefa, uma desdenhável perda de tempo, de resto. Este assunto é mais sério do que isso.


[ Follow-up: há adeptos do "sim" e adeptos do "não". Leia, por ordem decrescente de data de publicação: Bloguismo pago? Carta ao José Pimentel Teixeira; Bloguismo Pago; e Conteúdos pagos nos blogues: conceito e testes. ]

Posted by pTd at 10:11 AM | Comments (8)

abril 27, 2005

Bloguismo pago? Carta ao José Pimentel Teixeira

Caro jpt: estás no teu direito de achar um perfeito disparate isto de serviços e conteúdos pagos. E de fazer humor com isso ;) Também ri com essa dos brasileiros, LOL!

Ao contrário de ti não acho que o futuro dos blogues passe por aqui. Ao contrário de ti, penso que o serviço de conteúdos e serviços pagos irá dar jeito a alguma gente com genialidade que pode, assim, ter uma forma de obter recompensa directa por algum do seu trabalho. Será uma pequena parcela de um todo imensamente mais vasto.

Espantar-te-ias se eu te contasse quantos bloggers já me perguntaram se não haveria forma de obterem receitas com o seu trabalho; nem todos estão nisto por puro prazer, alguns gostam de, de permeio com a escrita de puro prazer, produzir textos com outro alcance.

Pessoalmente tenciono retomar as experiências de conteúdos pagos no meu blogue. Já a tive antes, não correu nem bem nem mal, mas as ferramentas eram más. Isso não significa que o meu blogue se torne num negócio; ele será o que sempre foi, parte da minha memória em formato digital partilhável. Se lhe adicionar uma "montra" com produtos meus de baixo pagamento, não vejo onde isso seja um problema, ou sequer uma "desvirtuação" dos blogues.

Nos EUA existem já milhares de pequenos e médios produtores de conteúdos (não gosto do termo, mas pronto), desde bandas desenhadas em episódios a fotografia, infografia, música e video com formas de pagamento similares, próprias para transacções de baixo valor e adaptadas a este meio específico que é a Internet. Vendem e - o que te parecerá mais espantoso! - há quem lhes compre! (Para um entre vários exemplos, segue isto: Bitpass.)

A única novidade aqui é arranjar uma ferramenta que permite estender a possibilidade de ter uma montra com produtos vendáveis a mais gente; nos sistemas actuais é necessário possuir algum tipo de acesso a um servidor e um background técnico mínimo para os activar. Na solução que busco nada disso é preciso - e estou certo que alguns bloggers gostarão da ideia.

Alguns, uma minoria, e não certamente tu, ok. Da mesma forma que ninguém te obriga a pagar para lro Expresso ou o Público online, também não serás obrigado a comprar conteúdos em blogues. Há sempre alternativas grátis, certo?

Um abraço.

Posted by pTd at 03:14 PM | Comments (7)

Entre os intervalos da chuva

Fevereiro já lá vai, o "novo" Governo já não é novo senão entre aspas. Desde então o circus tem-nos sido proporcionado pelos sparring-partners eleitorais do Partido Socialista e outras vulgaridades sociais, a saber:

- um congresso no PSD que elegeu um líder de transição para arrumar a casa nos próximos quatro anos;
- um congresso no CDS-PP (ler: CDS menos PP) que elegeu um líder de surpresa para rearrumar a ideologia no seu lugar e varrer os resquícios do portismo que quase matava uma agremiação histórica da nossa democracia;
- um PCP ainda a levitar em torno de um secretário-geral bem educado, bem falante e bem parecido, coisa a que as massas comunistas têm manifestamente de se habituar;
- um BE que ainda não parou de admirar o brilhante bilhete de identidade que ostenta, finalmente, a palavra maioridade;
- a clientela política do centro na expectativa, uns de serem varridos do sistema, outros à coca do lugar que lhes caberá em sorte;
- um Presidente da República nos afazeres próprios de um alto dignatário em fim de comissão de serviço pela pátria;
- os opinion-makers a apontar baterias às picuinhices governamentais, depois destes dois meses de distracções "menores";
- um povo que respira, finalmente, serena que está agora a classe política e que o Benfica lidera o campeonato.

No meio disto, o Governo lá vai passando entre os intervalos de uma chuva que teima em não passar de uma figura de estilo. O Primeiro Ministro adoptou um cuidadoso low profile que lhe renderá força lá mais para diante. Da acção governativa sabe-se vagamente que vai andando, ainda nas arrumações dos dossiers e na distribuição do tarefário colectivo. Os mais inquietos dos analistas são, claro está, os da zona económica, preocupadérrimos com os inexistentes sinais da retoma, os efeitos das macro-políticas e o espaço que é preciso preencher todos os dias à volta dos anúncios publicitários que alimentam os respectivos ordenados.

Falam (ou escrevem) basicamente para o boneco: a pátria está serena, confiante num timoneiro que não prometeu nada que não possa cumprir, que parece perceber alguma coisa, pelo menos, da governação; no mínimo ainda não cometeu nenhum deslize grave, nem da sua boca, ou das dos seus subordinados dilectos, saiu gaffe comprometedora -- o que, tendo em conta o registo da última década, pode ser considerado um recorde absoluto e motivo de grande alegria!

É mais ou menos adquirido que o Governo ainda não fez nada de especial, certo. Mas ninguém no seu perfeito juízo que habite Portugal espera(va) actividade divinal, milagres económicos num país pobre de uma economia global e adversa, um golpe de asa, um coelho da cartola. Ou esperava?...

Há a sensação de que o país está pelo menos a ser gerido. De forma competente ou incompetente, não só é demasiado cedo para julgamentos, como depois das duas últimas legislaturas usar a palavra "competência" é extremo! Basta a palavra "gestão" para ficarmos contentes. Por agora. Por uns tempos.

Sócrates mostra querer ser um corredor de fundo, parece estar a preparar-se para oito anos. Nada a apontar, é uma estratégia legítima. Legítima e desejável. Legítima politicamente. E legítima governativamente. Desejável idem aspas: era bom, para variar, ter alguém ao leme que pensasse em mais que no noticiário televisivo da noite, nos jornais do dia seguinte e nos almanaques de fim de semana.

A rarefacção de factos é mais preocupação de comentaristas ociosos que das massas governadas. "Aquilo" dos Hospitais SA não pegou fogo, não havia lenha. "Isto" do "choque tecnológico" é mais sensível -- mas Sócrates está a gerir a conta-gotas a informação. Aparentemente, a avaliar pelos primeiros passos, o uso da palavra "tecnológico" induziu em erro os teclados ansiosos: é "tecnológico" como em "científico" e não "tecnológico" como em "informática & telecomunicações". O choque é no ensino superior e seus afluentes, não nas empresas "de ponta", seja lá isso o que for em Portugal. O choque é na geração emergente e nas próximas, não outra distribuição de gasolina para os actuais Jaguares.

Por mim, preferia que o Governo tivesse tido o bom senso de não aparecer na operação de marketing chamada PT Escolas com que o grupo Portugal Telecom tenta acalmar os accionistas mais nervosos (e mais sabidos). Mas é desculpável: aparecer nas fotografias ao lado de criancinhas do secundário em frente a computadores é sempre bom para um governante, especialmente quando não é o dinheiro dos contribuintes que paga as facturas da propaganda. E não vem mal ao mundo por uma empresa montar uma tenda de circo para um concurso de jovens e chamar-lhe pomposamente "Escola do Futuro", "Aventura do Conhecimento" e vacuidades do género. Em nome da saudável cooperação com os chefes da empresa onde o Estado é accionista de gabarito, até se deseja que um secretário de Estado debite frases-powerpoint como «este projecto combate a info-exclusão e leva a sociedade do conhecimento e da informação a todos os jovens» ou «é uma grande iniciativa e é uma aposta no futuro do país».

Em suma, parece que o "choque tecnológico" não será a versão 3.0, corrigida na maquilhagem e insuflada de dinheiro comunitário, da "Sociedade da Informação e do Conhecimento", paz à sua alma. Confesso que fico aliviado. E expectante -- mas por ora fica o "choque tecnológico", como o Governo, em banho-maria.

Posted by pTd at 08:58 AM | Comments (5)

Teaser: entre os intervalos da chuva

Entre os intervalos da chuva é o título do próximo artigo da secção Um jantar em Nova Iorque, a publicar neste blogue às 08:58 desta quarta-feira. Às voltas com o Governo, o país e o "choque tecnológico".

Posted by pTd at 12:08 AM

abril 25, 2005

Uma dentro

Surpresa para todos, a começar por mim, o resultado do congresso do CDS. O partido afinal mostrou querer continuar a ser um partido e afastar-se do trampolinismo e da demagogia barata da última década. Em vez de um Telmo Correia, que sempre seria visto como uma versão 2.0 (e menos vistosa) de Paulo Portas, elegeram Ribeiro e Castro. Teremos mais CDS e menos PP. Mais calculismo e menos popularuchismo. Deram uma dentro. Ainda bem -- para todos nós.

Posted by pTd at 10:51 PM | Comments (1)

Há 31 anos

Há 31 anos houve o 25 de Abril de 1974. Celebrações, parabéns e essas coisas que eu isto este ano está escasso.

Posted by pTd at 02:45 PM | Comments (1)

abril 21, 2005

Então,

amar é domesticar a paixão.

Posted by pTd at 10:50 PM | Comments (6)

Da irrefutabilidade

O amor é a paixão domesticada.

Posted by pTd at 10:43 PM

abril 20, 2005

O trampolim extraordinário

O Centro Democrático Social / Partido Popular já não é um partido. Tornou-se na última década numa rampa de lançamento de ambições pessoais. Não admira que esteja a passar uma crise de identidade e que, a escassas horas do seu congresso, andem ainda a suplicar a alguns militantes mais destacados o favor de se candidatarem à liderança. Num momento em que não há nenhum político ambicioso (mas com os mínimos políticos feitos, "lebres" como Miguel Matos Chaves não contam) que queira usar o trampolim do CDS para fazer carreira na política, terá de assumir funções burocráticas um qualquer dos seus dirigentes. Eventualmente será Telmo Correia -- tem grande experiência no Parlamento e é um excelente amanuense, esperando-se assim que consiga o milagre de manter o partido vivo pelo menos na Assembleia até às próximas legislativas.

Dirigir o PP é um cargo pouco apetecível, dizem. Sim, é. Não há moral que resista a comandar um exército fantasma que não tem massa crítica própria. O CDS sempre sobreviveu encostado às ambições pessoais, subsidiado pelos fundos de figuras interessadas no contravapor da direita portuguesa e pelos votos de "órfãos de pai político". Sem o leme dos ambiciosos (purgados brilhantemente pelo Último Grande Líder), com as quilhas recolhidas dos financiadores, enamorados de um PS amaciado (num ciclo de quatro a oito anos não será preciso injectar fundos no contravapor), e com as velas do eleitorado tradicional a morrer, o CDS/PP é um iate à deriva. Não invejo Telmo Correia.

Tudo começou em 1974 com a fundação do CDS por, entre outros, Adelino Amaro da Costa, Diogo Freitas do Amaral, Basílio Horta, Valentim Xavier Pintado, Vítor Sá Machado e Luís Moreno. Desde então o CDS/PP foi liderado por Freitas, Lucas Pires, Adriano Moreira, Manuel Monteiro e Paulo Portas.

Destes, Freitas do Amaral foi e é quem se sabe. O brilhante cérebro de Lucas Pires fugiu para a Europa antes de morrer cedo demais. E Adriano Moreira foi o mais verdadeiro dos seus chefes, o único verdadeiro líder pois personificava efectivamente alguma "base eleitoral" do partido, que se revia no antigo ministro de Salazar. Mesmo ele foi, antes e depois do partido, uma figura maior que o partido.

O único líder do partido que teve um pensamento político digno de nota era um europeísta convicto -- algo que aparentemente nunca esteve no ADN do partido, que acabou por o exilar. É extraordinário que tendo sido ele a dar ao partido o maior score eleitoral da sua História, não tenha deixado doutrina e seguidores. Quando penso em Lucas Pires e no seu valor fico sempre a falar com os meus botões, que suspeitam que o CDS/PP aparentemente nunca quis existir como partido político coerente.

Fechado com Moreira o ciclo do CDS enquanto partido fundador da democracia portuguesa, a natural extinção da espécie parecia próxima. Foi salva pelo balão de oxigénio da ambição e pelos interesses no agit-prop da direita.

Os outros dois líderes conhecidos, ou "modernos", do CDS/PP são Manuel Monteiro e Paulo Portas, exemplares de cartilha de ambição pessoal capaz de subjugar toda uma estrutura partidária aos seus caprichos, às suas agendas e às suas estratégias privadas de tomada de poder.

A "corrida" à liderança, neste ano de 2005, afigura-se aos olhos do cidadão comum como patética, pungente até. Sempre muito bem educados, surgem dirigentes a dizer que em último caso se candidatam, mas NUNCA contra um colega. É extraordinário que num organismo democrático os "candidatos" recusem algum tipo de confronto eleitoral. Apareceu um candidato a artista de trampolim, Miguel Matos Chaves, tão desconhecido que a Imprensa nem se lembra dele, e os putativos candidatos encolheram-se até hoje. Embora nem no partido o levem a sério, esquecendo-se de o mencionar -- é no entanto, até este preciso momento, o único candidato assumido, de papelada assinada e entrevista enquanto tal na televisão.

[ Não há lugar a dúvidas, o CDS/PP é extraordinário: têm um candidato e afirmam que não têm. Pensamento óbvio: como se sentirá o invisível Matos Chaves? Porque não diz nada? Será que retirou a candidatura mas se esqueceu de mandar o motorista levar a fotocópia à Redacção da TVI? ]

Tal como no seu "simétrico" no espectro partidário, o PCP, onde o chefe não é eleito contra um concorrente, pelas bases, mas por uma espécie de colégio eleitoral, (algo parecido com o colégio de cardeais, só que o fumo é vermelho) que lhe confere ainda assim algum cunho democrático, no CDS /PP o líder é encontrado por exclusão de partes -- embora sem o "branqueamento democrático" de um comité central eleito. É extraordinária a existência de tal organização na vida de um país onde a democracia demorou a instalar, mas está instalada. Um autêntico case study para politólogos e sociólogos.

Se a extinção da espécie tem sido salva pelos interesses no agit-prop da Direita, os novos partidos conservadores vêm engrossar as opções das ricas bolsas que nas vésperas das eleições distribuem por esses lados trocos para confetti e balões que engalanem a quermesse eleitoral. Desconfio que do ponto de vista do povo (eleitor ou financista) mais vale o ar fresco (e balões com novas cores garridas) que mais do mesmo. Sendo que algumas dessas noveis agremiações se apelidam a si próprias de liberais, forçando o posicionamento ideológico mais perto do centro da moda que da direita em baixa na bolsa de valores da opinião pública, na esperança de captar os televisivos holofotes para as suas bandeiras. É um falso liberalismo. É mais um bushismo em segunda mão.

Em Portugal os liberais andaram historicamente perto da direita, para não dizer do extremo conservador; nunca um partido liberal aguentou muito tempo: mais cedo ou mais tarde havia cisões e uma ala ia cair, redonda, nos fortes braços dos conservadores. Estes escolheram para si ao longo da História os mais hilariantes nomes, como Partido do Progresso (mais tarde surge um Partido Progressista) e o (meu preferido) Partido Republicano Evolucionista, fundado em 1912 pelas sobras mais revolucionárias do movimento que levara anos antes Teófilo Braga a Primeiro Ministro. Evolucionista!

Falamos dos verdadeiros liberais. Que hoje infelizmente se confundem com os seguidistas locais de George W. Bush, o presidente americano oriundo da ala mais radical da direita nacionalista americana, um verdadeiro duro e homem muito pouco liberal nos costumes, nos dinheiros e ainda menos na definição política (com efeito, liberais na política dos EUA são os Democratas), cuja única relação com a palavra teve a ver com o objectivo de ganhar as eleições usando liberais piscadelas de olho ao centro, uma manobra conhecida nos EUA por triangulação.

Estes liberais verdadeiros (um punhado ainda assim não dispiciendo que se materializou em 1985 no Partido Renovador Democrático, conquistou votos suficientes para ser a terceira força no Parlamento e dois anos depois despediu um governo PSD, para morrer de seguida) nada querem com o CDS/PP: habitam o centro real e ora indulgenciam o PSD, ora estendem o voto ao PS, conforme o vento. Só têm um problema: não conseguindo a autonomia, acabam sempre vítimas da voracidade dos líderes de direita, num movimento que pelas esquerdas, democráticas ou não, é conhecido como voto útil. Mas como quatro a oito anos à frente, e uma sociedade civil descansada e com mais tempo para pensar, os liberais de marca dispõem de uma oportunidade de ouro. Sobre o azul desbotado do CDS/PP.

Posted by pTd at 08:58 AM | Comments (10)

abril 19, 2005

Papa Benedetto XVI, o Reaccionário

Típico. A um Papa forte, de intervenção, segue-se em regra um Papa fraco, com os pés para a cova de preferência. Eu até percebo o colégio eleitoral (ou o Divino Espírito Santo, que é igualmente caridoso): trata-se de dar um brinde a um dos cardeais que gostariam de ter sido Papas no lugar do Papa. E ao mesmo tempo tocam a reunir, preparando o Papa que se segue, tendo este tempo para as indispensáveis vassouradas num Vaticano ainda impregnado de João Paulo II.

Desconfio que o reaccionário Ratzinger, o Papa Benedetto XVI, terá um pontificado curto e inócuo. De saúde débil, com contrato a prazo, um grão-vizir a conspirar em cada coluna do Vaticano, os fumos do Banco Ambrosiano ainda mal dissipados, esperem dele pouco mais que missas e benzeduras.

Sopram-me aos ouvidos algum temor que eu não tenha infelizmente razão. O homem que foi descrito em entrevistas de rua, na sua Alemanha natal, como "esse nazi" poderá exercer com mão de ferro um pontificado curto, sim, mas negro, bem pior que Karol Wojtila, que ao lado de Ratzinger não passava de um menino-do-coro. Duvido. Os tempos não andam grande coisa para os lados da ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana), cuja magistratura de influência na sociedade quase se evaporou desde Paulo VI. João Paulo II, o Mediático, iludiu o trambolhão com as suas orações pela Paz no Mundo, ao melhor jeito das misses nos concursos, e meia dúzia de piscadelas de olho às outras religiões. Mas ninguém no seu perfeito juízo, lá no Vaticano e fora dele, esquece que a ICAR só volta às boas graças do rebanho sofredor se estiver ao lado deste nas várias lutas que pelo mundo se travam contra os cães que infligem os sofrimentos às pobres ovelhinhas. Se o Reaccionário pisar o risco, ainda lhe dão da mesma manja que a João VIII.

Posted by pTd at 11:27 PM | Comments (5)

Como combater a cobardia electrónica? (act)

Em primeiro lugar, poderiam os jornais portugueses com edições pagas na Internet ter uma política um pouco mais aberta no que toca á divulgação de textos fundamentais, eu diria mesmo de interesse público, que publicam nessas edições.

É o caso de «Combater a cobardia electrónica», peça da autoria do Pedro Fonseca, uma dupla página publicada no suplemento Computadores do Público de ontem (a remissão para a publicação online é esta, a visualização está sujeita a subscrição paga).

Responsabilidades dos bloggers, o que podem esperar da Justiça, os dilemas desta -- está lá tudo, muito bem desenvolvido pelo Pedro. A quem faço um apelo para que a peça possa ser lida por todos os bloggers.

Actualização: o Pedro colocou online o texto e informou nos comentários, mas obviamente o link é importante, pelo que o puxo para aqui: cecinestpasunblog.

Enquanto isso não acontece, podem ler este texto meu que refere a fonte principal do Pedro. Ou melhor ainda: comprar o jornal, se ainda conseguirem (é de ontem).

Nota: uma parte da peça, a parte menos significativa, é uma pequena entrevista à minha pessoa com cinco questões. Mas não é por isso que recomendo a peça, como é óbvio. As minhas respostas resultam da prática de alojar blogues; o grosso do trabalho, e o que lhe dá brilho e consistência, é da responsabilidade de Hugo Lança Silva e do jornalista que elaborou a peça.

Posted by pTd at 01:51 PM | Comments (2)

abril 18, 2005

Teaser: o trampolim extraordinário

O trampolim extraordinário é o título do próximo artigo da secção Um jantar em Nova Iorque, a publicar neste blogue às 08:58 da próxima quarta-feira. O artigo versa o CDS/PP e a sua liderança.

Posted by pTd at 05:25 PM

abril 17, 2005

Estranheza estranha

«Juíza compromete Pinto da Costa», e «FC Porto viciou campeonato». Respectivamente, manchete e título (na pág. 17) do Expresso deste sábado, dia 16.

Leio a notícia e verifico as datas. Sim, é mesmo actual. É estranho, isto. É uma manchete diacrónica. Porque relata factos agora comprovados em tribunal mas que eram da convição pública há anos. Esta estranha estranheza de ler uma notícia verdadeira mas que... não parece notícia pela simples razão de que já toda a gente sabia. Só faltava mesmo apurar as picuinhices dos detalhes. Coisa de tribunais.

Posted by pTd at 04:29 PM | Comments (4)

abril 16, 2005

Conteúdos pagos nos blogues: conceito e testes

O primeiro dia de testes da futura feature do weblog.com.pt -- a possibilidade de qualquer autor editar conteúdos pagos -- correu bem. A "coisa" faz-se. Como?

Com um alargado leque de opções para cobrir todas as necessidades.