A lata
Se afirmar que Cavaco Silva é um dos grandes responsáveis pelo Portugal que hoje temos, a frase será relativamente bem aceite. É quase inócua e consensual (e disso tira ele partido evidente para a sua proto-candidatura a Belém). Pelo menos enquanto essa lembrança significar mais estradas, desenvolvimento "estratégico" das vias de comunicação entre os principais centros urbanos e o interior, algum apaziguamento da política nacional que permitiu menos sobressaltos na entrada de facto na União Europeia, e um clima propício aos empresários.
Mas um estadista fica na História para o mal, como fica para o bem. Queira ou não, queiram ou não os seus defensores, Cavaco Silva abandonou (inaugurando com o abandono uma nova forma de sair da política que deixou infelizmente seguidores) o Governo deixando à nação os germes que, hoje, se transformaram num défice de 6,83% nas contas públicas. Mesmo com a distância temporal, não é dispiciendo invocar o contributo do ex-Primeiro Ministro para o actual estado de coisas. Sobretudo a partir do momento em que Cavaco abre a boca para fornecer a receita "infalível": reduzir o Estado e reformar a Administração Pública.
Apetece perguntar porque não tomou ele conta da ocorrência enquanto PM. Haveria outras coisas mais importantes? Não sabia disso, mas entretanto evoluiu (talvez por passar a ler jornais)?
Se proveniente de altos cargos na função pública e no sector privado, nenhum dos candidatos a grilo falante de José Sócrates deve merecer a nossa atenção. E ainda menos a atenção do Executivo. A existirem receitas infalíveis, não serão certamente as que estes putativos conselheiros dão agora, depois de terem tido a sua oportunidade de as porem em prática. É tão óbvio que até irrita.
Até este episódio eu estava convencido que as eleições presidenciais eram favas contadas para Cavaco. Mesmo que a esquerda apresentasse um bom candidato. Agora não estou tão certo. A memória do eleitor é curta, é uma verdade que conta em benefício de Cavaco. Mas pouco mais. Cada vez que abre a boca ou saca do teclado, diz algo de profundamente irritante, que logo evoca o Cavaco dos seus melhores tempos: um homem arrogante e auto-convencido, com limitações políticas, muita habilidade para números e desdenhoso das reformas de que o Estado necessita. É bom relembrar quem foi, enquanto governante, o homem que agora ambiciona voltar ao poder, para mais com indisfarçáveis tiques de presidencialista na pior acepção da palavra. Uma espécie de Soares, para pior. Tão pior que peço perdão pela comparação.
Por outro lado, à esquerda também esta semana o clima desanuviou-se. Com Guterres finalmente emprateleirado na ONU, pode o PS respirar e fazer pela vida. Esqueçam Vitorino: é suficientemente novo para ainda aspirar a ser PM, a presidência antes de tempo seria um erro. Esqueçam Constâncio: entre dois sisudos, o povo escolheria Cavaco de olhos fechados.
A vida chama-se Manuel Alegre. Alegre é o único candidato socialista que não irritaria os sectores mais à esquerda do partido e, por inerência, os partidos mais à esquerda do PS.
Ao contrário das legislativas, que em regra se conquistam ao centro, as presidenciais ganham-se sobretudo pela personalidade. Soares não precisou do centro, ocupado exaustivamente por Freitas. (Sampaio não conta, não tinha concorrente.) Alegre não precisa do centro, embora, claro, Sócrates pudesse dar uma mão para roubar a Cavaco alguns votos nessas águas. Apesar das naturais desconfianças, mesmo nas franjas do PSD e até do CDS há simpatias pela figura renovada de Manuel Alegre, que mais que um emblema da esquerda típica do pós-25 de Abril funciona como um símbolo de um homem com convicções, paixões e sentido de solidariedade social. Precisamente o que se quer de um presidente.
Alegre poderia beneficiar, até, das reticências com que alguns sectores liberais e neo-liberais recebem hoje Cavaco.
Com a esquerda por conta e um Cavaco representante da ingovernabilidade sustentada do país e da classe política que hoje faz uma coisa e amanhã diz o contrário, a vitória não será uma miragem para o PS com Manuel Alegre. Este, pelo menos, não tem a lata de aconselhar as "infalíveis" receitas para a crise que até uma candidata a miss será capaz de debitar (sendo certo que nunca as terá de tomar...). Este, ao menos, ousa pensar para a frente, pensar novo. Como se gosta de ter num presidente, já que não se pode ter num primeiro-ministro.
Não sendo seguidor de um nem de outro, sabendo que em política raramente o que parece é, estou hoje convicto de que afinal não é garantida a vitória de Cavaco Silva nas próximas presidenciais.
Comments
Posted by: jpt | maio 24, 2005 10:06 PM
Posted by: pTd
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maio 24, 2005 11:36 PM
Posted by: jpt | maio 25, 2005 09:49 AM
Posted by: cachucho | maio 25, 2005 10:30 AM
Posted by: pTd
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maio 25, 2005 02:10 PM
Posted by: Canguru | maio 26, 2005 12:28 PM
Posted by: Rui Martins | maio 26, 2005 12:50 PM
Posted by: peregrino
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maio 28, 2005 04:05 PM
Posted by: Rui Martins | maio 29, 2005 12:58 AM
Posted by: eva lima | junho 1, 2005 03:09 PM