Directamente do baú
Ele há coisas que nos trazem uma lagrimita ao canto do olho... Como (ainda!) desenterrar o baú do web.archive.org uma prosa que marcava a diferença em 1996, ainda não havia blogues mas já discutíamos um bocado em páginas pessoais, onde fazíamos aquilo que hoje se chama "opinião". Saudosistas, ler a continuação.
O meu encontro com Nicholas Negroponte
Cena 1. São 13:15. O homem senta-se.
Petisca um pãozinho. Espera que o buffet se esvazie. 13:20. Levanta-se.
O prato fica quase deserto. Petisca raros átomos. Mas a mente vagueia
no digital. 13:35. Levanta-se de novo, acena ao chefe dos organizadores
e diz: «às 14:30 na sala». O outro confirma com um aceno. Nicholas Negroponte
vai até ao seu quarto. Provavelmente checar a mail-box. 14:30.
Profissionalismo à prova de sono. O homem reenceta o discurso. O tal
discurso que já chateia uns, mas que outros pagam centena e meia para
ouvir. 15:30. O chefe dos organizadores avisa: «esta é a última pergunta, os átomos de Nicholas Negroponte vão ter de se ausentar». Pergunta da audiência. Resposta do guru. «Peço desculpa, mas os meus átomos têm de estar num aeroporto daqui a uma hora. Adeus».
Cena 2.
São 15:35 e estamos na rua. Abre-se a porta do BMW. Não sinto coisa
alguma, apesar de estar a apertar a mão ao homem mais famoso do
planeta, logo a seguir ao Deus Bill (cuja mão também já apertei, o que
faz de mim um português raro). Deuses, deuses. Estamos prestes a
iniciar a mais famosa e polémica entrevista dos últimos meses:
represento o único media autorizado a abeirar-se de Nicholas Negroponte.
Para trás ficaram vários colegas e amigos, barrados pelos porteiros do
Instituto Superior de Transportes. Toni, Sarah, Gonçalo, não vos
deixarei ficar mal!
Cena 3.
O Jorge Nascimento Rodrigues aperta-lhe a mão e lembra uma entrevista
que lhe fez. Por mail, claro. Tenta uma nesga de calor humano. Népia. O
Ser Digital só se atinge no éter. Volta à carga lembrando-lhe que
também assina a coluna no Expresso, repetida com mês e meio de atraso
face à Wired, compromissos contratuais. O homem lembra-se lá. Isso é
com o sindicato. Ele só fala e escreve. A metro. E recebe. Ao quilo.
Dígitos numa conta bancária digital.
Cena 4.
Eu aperto por minha vez a mão do homem. Anuncio-me. Digo-lhe: li
praticamente todas as suas prosas na Wired. Li o Being Digital,
primeira edição no original Inglês americano. Estive em Boston, sede do
Media Lab. O homem abre a boca e articula pela primeira vez uma frase
não-monossilábica: «Então porque estamos aqui?». é a assumpção pelo visado de uma verdade há muito insuspeita na comunidade: Nicholas Negroponte
já deu o seu contributo para a Revolução Digital. Está tudo escrito.
Agora, como confirmará ao longo da entrevista (que pode ler aqui
em versão integral, se não leu o caderno XXI do Expresso de 23 de
Novembro, pág 8 e 9), é um homem de negócios e um respondedor
automático de e-mail. Além de editor de si próprio (50 mil dólares por
conferência, preço de tabela, eventuais interessados contactem Nicholas Negroponte). Para quê dar uma entrevista, se eu sei tudo sobre ele? Merda.
Cena 5.
Ataco-o dizendo que a ciber-rapaziada está careca dele, quem o ouve são
os novatos e os info-pobres. Porque ele é um bom simplificador, traduz
bits e packets em linguagem de gente pobre. Eu trabalho para um meio
dirigido sobretudo a novatos e info-pobres, a ciber-rapaziada pouco me
lê (e goza a simplicidade do que lê, como é natural). Tenho de lhes
indicar caminhos. Locais. Gente. Ele. Justificada a entrevista, ele
responde. «Os hackers - suponho que trata neste mesmo saco todos nós, reais hackers e vulgar ciber-rapaziada-estabelecida - deviam ouvir mais as questões das pessoas recém-chegadas à Net».
Touché. Mesmo a dormir, touché. (O homem esteve no dia anterior a dar
na cabeça da malta da Wired, onde - confirmou-me off record - é
accionista de peso. Eu julgava que ele só tinha meia dúzia de acções,
tipo Miguel Esteves Cardoso no Independente.) De San Francisco a Lisboa
com escala em Londres são muitas horas de avião. Horários. Sono.
Desculpa-se três vezes durante a entrevista. A tal famosa e polémica
entrevista que eu tive a honra duvidosa de ser o único a fazer.
Cena 6.
A tal famosa e polémica entrevista que eu tive a honra duvidosa de ser
o único a fazer dura o tempo da viagem de BMW (sem escolta) entre o
Marquês de Pombal e o aeroporto, numa pequenina balda aos compromissos
contratuais pois afinal estamos em Portugal. Nos compromissos não havia
entrevista alguma. São vinte minutos mal medidos. Nicholas Negroponte
não olha uma única vez pela janela, como seria de esperar. é como se a
paisagem atómica enfadasse O Ser Digital. (Será que me vai acontecer o
mesmo, à medida que me torno um Ser Digital? Ufa, espero bem que não).
Os travões não chiam mas param o carrito à porta das Partidas da
Portela. Desligo o gravador com um caloroso e vagamente insultuoso «Well, our time is over». O homem nada diz. Mãos apertam-se. Prefiro atribuir ao sono o total desinteresse das coisas terrenas evidenciado por Nicholas Negroponte
durante as horas (poucas) que o tive debaixo de olho. Pensar noutros
motivos é doloroso. Enquanto a mala do carrito se abre para tirar o
saco das camisas, onde repousa o seu Mac e as famosas baterias
suplementares, pergunto-lhe: «foi a sua primeira vez em Portugal?» «Não». Fico na mesma. O avião vai partir com os átomos de Nicholas Negroponte. Ficamos com a sua (omni)presença digital, a vermelho nestas páginas nos «browsers» competentes.
Cena 7.
Há uma palavra única para englobar a amálgama de sentimentos que acolhi
com dificuldade nesta quarta feira famosa e polémica. O meu encontro
com Nicholas Negroponte foi pungente.
Lisboa, na quinta feira a seguir.
Paulo Querido
Comments
Posted by: Sérgio | julho 8, 2005 12:11 PM
Posted by: pTd
|
julho 8, 2005 03:39 PM
Posted by: batatas | julho 10, 2005 12:40 PM