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O "país"

A maioria das respostas de leitores ao Entreguem as chaves em Bruxelas, um texto onde iniciei uma reflexão pessoal sobre a utilidade da ferramenta histórica chamada "país", foi de acinte. Os respondentes preferem acicatar espíritos em torno dos (seus) preconceitos -- que julgam transversais, de que o conceito de "patriotismo" é o mais avultado -- do que debater a minha reflexão: terá (ou não) chegado a hora de admitir a nova realidade da história do homem e, pragmaticamente ou nem por isso, deixar para trás o "país", essa entidade abstracta, de espírito, quantas vezes queimando as fronteiras físicas das nações naturais, que já deixou de ser necessária?

"O erro histórico de Portugal foi 1640", escrevi eu, e o anónimo leitor António (Antónios, como anónimos, há muitos) respondeu, se é que isto é resposta: «É fácil dar uma resposta sem conteúdo, mas com justiça, a essa afirmação, dizendo "ó caro amigo, tenha a primeira atitude patriótica da vida e emigre para Madrid".»


A invocação da pátria enquanto sustentáculo da razão é auto-demonstrativa, pelo que não gastarei bytes a urrar contra ela. Eu falei de países, não de pátrias. Lisboa é uma belíssima cidade, melhor de viver que Madrid, embora pior de trabalhar, mas disso a culpa não é da cidade nem dos seus habitantes: é na maior medida de quem desgovernou Portugal na última janela de oportunidade, estas três décadas que, perante os actuais candidatos à presidência, ameaçam perpetuar-se (poderes perpétuos, eis algo muito português...)

Posso defender (defendo!) línguas mas não (mais) esgrimirei teclados por uns riscos no mapa que já nada dividem pois nada há para dividir, à luz do que sabemos hoje. Se o "país" é uma questão burocrática, temos amanuenses q.b. em Bruxelas, por um lado, e por outro os amanuenses de cá, empertigados, são uns autênticos inúteis, como se comprova diariamente em qualquer ramo da actividade em que era legítimo esperar deles uma atitude.

Não quero destruir o "país" pela simples razão de que não vejo país algum, aqui (é, aliás, uma das razões para achar que está na hora de enfrentar o novo ciclo histórico em que a geografia deixou de ser um item). O que vejo quando olho para isso a que se chamava "país" é um organismo algo complexo, moribundo, num movimento incessante que visa exclusivamente evitar a sua própria auto-destruição.

Os anti-castelhanos que me desculpem, mas não encontro razões para outra coisa que não um iberismo assumido num contexto europeu, isto se preciso definir (e os ventos do Futuro dizem-me que preciso, ou ninguém me verá) onde estou eu na economia global.

Somos livres de viver o processo histórico para trás ou para a frente, num ou noutro sentido ou num terceiro. Cada um escolha o seu. Eu defino por onde quero ir, não sou homem de aceitar "ordens".

Comments

Já me contentaria se importássemos ao menos a orgânica administrativa de Espanha. Para que a Segurança Social não pudesse dizer que desconhecia a que "famílilia" pertencia a criança (Vanessa) morta, para que os centros de emprego funcionassem e não houvesse, ao mesmo tempo, pessoas com prédios a receber rendimento mínimo e outras que, recebendo-o, podem recusar empregos hipotecando às próximas gerações as respectivas reformas. Para que um cidadão cumpridor fique impotente para fazer valer os seus direitos perante qualquer incumprimento grave de uma qualquer autarquia. Para não ter que assistir à impunidade, à tradicional prescrição, ao poder impune e corruptor do futebol e do betão.
Muito bem, Paulo! Qualquer desses patriotas empedernidos que tire o rabo de Lisboa e vá até à raia alentejana, por exemplo, só te poderá dar razão - contrafeito ou não!
talvez «o erro histórico de 1640» seja um exagero próprio duma saudável provocação, mas fica aqui o meu SIM a tudo o resto. nem menos nem mais uma vírgula.
Olha vizinho, sei que és um querido, mas tás enganado. Não foi 1640; a culpa foi da padeira de Aljubarrota e, por causa dela ainda temos a mania de ganhar aos espanhóis no óquimpatins. Mas Portugal, o meu Portugal, é assim um caso de força maior, uma urgência, uma imperiosidade, uma caganeira que ninguém pode parar (como aquela força dos dez estádios de futebol). Portugal, como país (essa coisa assim administrativa) desfaz-se em merda. Entretanto ainda vou ali ao largo do mercado comer uns caracóis com muitos orégãos. Eheheh!!!!
São penas. São sinais. Principalmente sinais da vossa incapacidade «existencial» de serem vocês próprios países/indivíduos livres. Invocando a liberdade, mascaram/escondem a vossa condição de homens não-livres. Porque vós não desejais a utopia de qualquer melhor país que Portugal. O que vós desejais é que vos abram com fragor a porta do túmulo em que viveis. O problema não está no «país» Portugal. O problema está no vosso imo interior «país existencial», «país» somente vosso, que somente pertence à vossa miragem quimérica ilusória. Porque o «país» que vós rejeitais é ilusório. Tal como é ilusório o «país» que vós desejais. Vós sois de Maio-68. Exigís nada mais do que o «impossível». Vós tendes o espírito inquieto e inquietante (espírito de ave «migratória» que já sabe da existência de caçadores pelo seu caminho evolante) de António Variações. Vós sois anjos com asas que desconheceis trazer. Todavia, tendes a sensação permanente de terdes perdido asas. É isso/isto que mais vos dói. É isso/isto que vos faz rir/escarnecer de vós próprios. «Antigamente», chamava-se a isso/isto perder o oriente, estar «desorientado». «arbeit macht frei»!
Paulo, Estou a comentar completamente off-topic. Era apenas para responder ao teu comentário sobre os VDGG (estou de férias e só agora, num net-café, é que te li...). Sim; também vi o Hammill no SCP, e num comício do PS e no S. Carlos. Aprecio bastante os Area, que tive o prazer de ouvir na festa do Avante, há um ror de anos!
tenho saudades de quando conseguia ler este blog. o raio da Rosa a mais os legumes envolventes causam um ruído chato. Há dias mandei uma boca sobre isso, brincava com a estética. Mas cada um com a sua, esta acho pirosa, mas quem não é um pouco piroso? Agora nem ironizo, o raio do poema visual (tipo postal brasileiro anos 70 - não me lembro do autor que os fazia, mas era célebre nesses virginais tempos pré-pimba), prejudica a leitura - é de propósito? para tornar difícil tipo "só cá quero quem se esforça? só esses valem a pena?" - uma blogomeritocracia? comentário pouco simpático, mas rais parta, a flor ainda não murchou? não pode ser retirada do jarro? ou é de plástico, imorredoira?
Luís, já tenho albuns dos Area a caminho. E sim, foi na primeira Festa do Avante, em 76 se não me engano (eu não fui), trazidos pelo António Sérgio. O Hammill esteve cá diversas vezes, sim. Mas só o vi uma vez, infelizmente. Caro jpt, esta flor não murchará nunca ;) Mas lá para Setembro / Outubro mudarei o template. Terá na mesma rosa(s), mas tentarei que perturbem menos a leitura. Até lá... mande-me a conta do oftalmologista ;)
ok, hei-de então voltar lá para os meses que vêm. que isto hoje em dia (mais do que nunca) não há paciência para rosa(s). Já agora não s(t)e lembra(s) do nome do autor de tais belos postais, esse raio de brasileiro (não era o gilberto gil, apesar do rosáceo actual). Troco o nome dele pela confirmação que os tais Area tocaram na 1ª festa do Avante, na então FIL, quasi-impossível de assistir tamanha a multidão a encher o barracão - acho que só os já então reaccionários não assistiram
1976, claro