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O passeio na Av. da Liberdade

A direita regorgita os perdigotos dos canapés da celebração antecipada da futura vitória de Cavaco Silva nas presidenciais e os mais optimistas (e os mais pessimistas de esquerda e Vasco Pulido Valente, o que não é a mesma coisa) chegam a falar de um baile logo na primeira volta -- sobretudo, dizem, se houver vários candidatos à esquerda. Deliram.

Para ganhar, Cavaco só precisa que os seus "seguranças" consigam, quiçá sentando-se em cima dele, mantê-lo quieto e sobretudo amordaçado (o que fornece ao povo português e aos outros países uma tristemente divertida antevisão do que vai ser ter como presidente o cromo descolorido e repetido que ele é). A simpática cavaqueira merendística em que se tornou (e ameaça permanecer assim), a sua falange de apoio, ou "IACS", Indefectíveis Apoiantes de Cavaco Silva, comandada pelo sorridente Marcelo Rebelo de Sousa na RTP, goza imparavelmente Mário Soares, coisa que não parece sensata à esquerda.

A mim, dá-me pena: na segunda volta Soares será humilhado e com ele o Governo e o PS, a própria esquerda vai passar a semana seguinte a fugir do espelho, envergonhada. Haverá quem meta férias para não ouvir o permanente gozo vitorioso da direita que em 30 anos e quatro presidentes nunca meteu nenhum, nem mesmo enquanto o cargo foi militarizado. Aceite-se contudo a ironia da História: Soares personaliza a esquerda dos anos 70-80-90, logo o seu rosto ficará ligado ao desastre eleitoral desta década.

Felizmente há mais duas candidaturas à esquerda. Com a diluição do voto comunista e bloquista nos seus candidatos, com o que resta do aparelho soarista a votar Soares e o PS restante, que é muito, a dispersar-se pelas outras candidaturas de esquerda, Cavaco só nos melhores sonhos dele e de Rebelo de Sousa sairia vitorioso da primeira volta. Recorde-se que, mesmo penalizando os putativos, muito mediatizados e pouco provados erros de Sócrates a esquerda sociológica suplanta tradicionalmente a direita. O gene "maldito" da esquerda está, aliás, em progressão e não em recessão em Portugal onde, Cavaco amordaçado à parte, não se vislumbra pela direita ninguém com tomates (não figurativo) para emprenhar o eleitorado, tal como ficou cabalmente confirmado na banhada eleitoral de há seis meses.

O único "risco" à esquerda, e é favor notar as aspas, é o de Soares andar a mendigar aos outros partidos que o apoiem, desesperadamente. Como não estamos em 85, é admissível que Jerónimo faça o que os seus antecessores gostariam mas não tiveram oportunidade e grite ao PS (ainda por cima em exercício no Governo) um sonoro "vão-se lixar mais a vossa conversinha mole".

Em resumo: teremos uma primeira volta animada com Cavaco e (provavelmente) Soares a seguir em frente, para um cilindrar o outro.

Nota: assumo que a candidatura de Jerónimo de Sousa significa que alguém telefonou a Manuel Alegre e este indicou que não avançará.

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Comments

Hum... Não me parece! Existe um eleitorado central flutuante, que não podemos rotular de direita ou esquerda. E é esse que mais uma vez vai decidir. Ou seja, se Cavaco conseguir granjear de novo esse eleitorado pode ganhar à primeira volta. As candidaturas mais à esquerda só poderão prejudicar Soares se este conseguir capitalizar o eleitorado central (o que não é um dado adquirido) e depois lhe venham a faltar os votos da esquerda que se dipersaram pelo PCP e BE. No entanto, esse é um falso problema, já que quando surgirem as sondagens de campanha a darem a vitória a Cavaco, PCP e BE arrepiam caminho e ajoelham-se de novo a Soares... Até apostava...

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