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Os sintomas do engano

O leitor Duarte Bento, que muito estimo, comentou-me sobre Mário Soares. Vale a pena dissecar os argumentos que ele apresenta porque são ilustrativos do engano em que labora a minoria que acredita na eleição do "fundador do PS".

«Eu acredito que Mário Soares ganhará as eleições presidenciais por larga maioria. Soares terá o apoio total e unânime de toda a Esquerda Portuguesa; bem como terá também o apoio de uma larga franja Social-democrata; bem como terá também o apoio de um largo sector Democrata-cristão.»

Com efeito, é uma questão de crença. Que o eleitorado do PS vote nele pela recomendação partidária, percebe-se. Até os novos eleitores, os que há 20 anos (aquando do MASP I) nem eram nascidos ou não tinham cartão de eleitor. Agora estes novos eleitores que não pertençam ao PS (e, acredito, muitos dos que pertencem) que razão têm para votar Soares e não Cavaco, se for Cavaco?

Tirando a meia dúzia de tontos e tontas que são "contra" a "globalização", um dos temas que, absurda e inconcebivelmente, o "fundador do PS" abraçou como um pré-adolescente abraça a causa dos gatinhos abandonados no Verão, ninguem com menos de 50 anos se revê nas palavras, na pose, na atitude de Soares. Pelo contrário, desconfiará do homem que já foi Primeiro-Ministro e Presidente e tudo, e terá tendência para reter nos ouvidos os argumentos "contra" Soares. Evidentemente, não terão razão nenhuma.

Já Cavaco (se for Cavaco) se apresentará aos seus olhos como o mais novo e com um discurso que vai com l'air du temps, "liberal", e essas tretas económicas que hoje caem bem na papalvice geral das eleições. Apaziguador - onde Soares é rígido. Calmo - onde Soares se mostrará inevitavelmente frenético pois só no confronto directo tem a ganhar contra Cavaco, dada a sua habilidade.

Quanto à laranjada geral, podem não gostar de Cavaco (e se o elitista PSD, Graça Moura excluído, visivelmente não o grama, convém avisar que o laranjal não é só o PSD e que os laranjinhas deram sempre suporte a Cavaco), mas cresceram entre pais que odiavam Soares e vão querer vingar-se, no mínimo.

Já os "democratas-cristãos", caro Duarte Bento, quem são esses? E, admitindo a sua existência (e a existência neles de uma consciência política), porque carga de água votariam no laico e "esquerdalho" Soares?

«Por outro lado, acredito eu também que os únicos verdadeiros «anticorpos» que existem contra Mário Soares têm somente a ver com algo que ainda nunca foi referido: a descolonização. Existem «muitos» portugueses que culpam particularmente Mário Soares pela «má descolonização» realizada por Portugal.».

Não compro. Primeiro: nestas eleições não se trata de anticorpos, trata-se de apresentar razões para eleger um actor antigo da política que que regressar ao tacho (nisso estão no mesmo pé). Segundo, a "descolonização": já só sobram meia dúzia de portugueses eleitores capazes de se lembrar disso. Colónias, para a massa dos eleitores de hoje, são as águas das ditas.

Vamos ao terceiro engano:

«Esta capacidade de «nobelizar» os mais velhos tem sido somente, ao longo da História Humana, praticamente só apanágio dos países orientais como o Japão, o Tibete, a China, e a Índia (e outros do mesmo mundo cultural). Penso ser muito relevante este aspecto profundamente da esfera do Respeito Humano, algo humano muito valioso que nos falta na nossa cultura ocidental.».

Aqui convém dizer que concordo inteiramente com Duarte Bento: se fosse eu a decidir, e pela idade, antes Soares que Cavaco -- de longe. Mais vale um velho sábio a mandar -- de preferência com um jovem turco ao leme do barco. E isto não é só válido para a política, é válido para tudo na vida.

O problema é que eu e Duarte Bento fazemos parte da curtíssima minoria para a qual a juventude não é um valor, bem pelo contrário. Eu, e penso que Duarte Bento também e quiçá mais meia dúzia de portugueses com idade e pernas para votar, penso que a política (e outros dirigismos) é um território para os sapientes e que a carne fresca é qualificada para as nobres actividades de procriar e labutar. Eu, e aqui aparentemente sozinho, acho um disparate insano que a sociedade (e, nela, os detentores dos meios de produção, que é quem lucra com isto tudo) fabrique este mito da juventude atleta sexual -- que é a imagem do Homem que os audiovisuais transmitiram aos alienígenas que visitaram a Terra nos últimos 20 anos.

Mas eu sou um doido varrido e um maluco. E sobretudo -- e isto é que conta -- sou apenas UM. Não conto para o totobola eleitoral. Nesse o que conta são as massas. As hordas. E as hordas valorizam o novo em detrimento do velho. Soares não tem a mínima hipótese.

Por tudo isto e muito mais do género que aqui não cabe, penso que é fácil perceber os contornos do inevitável. Mário Soares anunciará ao país, dentro de uma ou duas semanas quando voltarmos todos dos figurativos banhos, que não se candidata. Arranjará uma desculpa qualquer brilhante, estou certo. Antes isso do que sofrer uma pesada humilhação eleitoral às mãos de (olha quem!) Cavaco Silva.

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Caro Paulo Querido: Muito honrado estou por poder ter contribuido para que tivesse escrito este magnífico texto de análise sobre a candidatura de Mário Soares. E muito honrado pela estima. A estima é recíproca. Reconheço que escreveu uma análise que, pela sua mestria, não é fácil rebater, contraditar; apesar de eu, naturalmente, não poder concordar (em convicção) com aquilo com que contradita a minha opinião sobre o grande valor da candidatura de Mário Soares e a sua natural vitória nas próximas eleições presidenciais. Mário Soares candidatar-se a Presidente da República é o mesmo que os trinta anos de Democracia em Portugal se candidatarem à Presidência da República. Pode Mário Soares não ser unânime na sociedade portuguesa, mas é globalizador da (e na) sociedade portuguesa. Por isto é que disse que existe (também) um sector democrata-cristão que irá votar em Mário Soares. Ser e ou haver democrata-cristãos, e o que ou quem são, na sociedade portuguesa, não é coisa simples de falar/explicar. Democrata-cristãos são, passe a redundância, cristãos democratas, profundamente democratas. Exemplos importantes de importantes cristãos democratas (no sentido de linha ideológica) são os casos de figuras como Sousa Franco, Lurdes Pintasilgo, e Freitas do Amaral. Estes primeiros dois já, infelizmente, faleceram; mas deixaram muitos seguidores. E todos estes votarão em Mário Soares. Por outro lado, nesta questão de democratas-cristãos ou cristãos democratas, a análise nunca será ou poderá ser simples devido à natureza política e religiosa da sociedade portuguesa. Muito recentemente um estudo europeu mostrou que cerca de 90% ou 95% (salvo erro) dos portugueses se afirmam como crentes em Deus; sendo Portugal o segundo país europeu mais crente (portanto, que mais se afirma ser religioso), depois da Polónia (que é o primeiro). Em total coexistência com esta «total» religiosidade e crença em Deus, todos os estudos de opinião de posicionamento político dos portugueses, feitos em Portugal, colocam sempre larga-maioritariamente os cidadãos portuguesas na esfera da Esquerda Portuguesa. Conclusão desta parte: Os portugueses são religiosos, crentes em Deus, e de esquerda. Votam Mário Soares. Um grande abraço (Voltarei a esta interessantíssima discussão)

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